Doutores da Igreja. O grande São Basílio.

By | 24 de Fevereiro de 2016

Se um dia você for perguntado sobre as grandes figuras da Igreja, você não deve deixar de fora da sua lista São Basílio, o Grande. É uma figura fenomenal sob qualquer aspecto, e assim seria mesmo se não fosse religioso. Mas, além de tudo o que fez na vida, ele ainda nos abençoou com um legado que merecidamente garantiu a esse Padre da Igreja um lugar entre os “Doutores da Igreja”.

São Basílio nasceu na Capadócia, cidade da Turquia. Foi criado pela avó, Santa Macrina Maior, junto com seus quatro irmãos. Todos são reconhecidos como santos pela Igreja. Seu irmão mais famoso é São Gregório de Nissa, também um importante teólogo. Basílio viajou por várias cidades, até mesmo outros países, para desenvolver seus estudos. Durante seu desenvolvimento acadêmico, ele encontrou São Gregório Nazianzeno, outro Doutor da Igreja, que se tornaria seu amigo por toda a vida. Outros personagens curiosos na caminhada de Basílio foram o mestre em retórica (sofista) Libânio, e o jovem colega que seria depois o imperador Juliano, o Apóstata, que fez de tudo para atrapalhar o cristianismo e seus ex-colegas de estudo. “Mui amigo”, como dizia a piada.

Durante seus anos de estudo, Basílio não mirava a vida sacerdotal. Foi depois do encontro com a vida dos ascetas e da boa pregação cristã (embora tenha conhecido muitos hereges arianos) que Basílio decide dedicar sua vida a Cristo e Sua Igreja. O grande pesquisador da patrística (citado anteriormente neste site, e sempre que é preciso recorrer aos estudos da patrística), Johannes Quasten, cita que a decisão de Basílio de dedicar sua vida exclusivamente a Deus veio com grande sensação de tempo perdido anteriormente, uma sensação tão comum ao se acordar para a Verdade. No caso de Basílio, isso realmente serviu como um catalizador para o que seria sua vida dali por diante. Um sentimento quase de pressa em se realizar o que fosse necessário e agradável a Deus.

Hans Urs von Balthasar disse: “um bom padre é sempre um milagre da Graça de Deus”. Pura verdade. Temos padres que são pessoas maravilhosas, mas sem grandes virtudes práticas; outros que são grandes pregadores; outros ainda grandes teólogos; ou missionários etc. Poucos conseguem ser todas essas coisas. Não ser tudo isso não é um demérito, mas é digno de atenção e mérito quando encontramos alguém que junta todas essas qualidades. E São Basílio foi tudo isso e mais um pouco.

É preciso entender o mundo e a época de São Basílio para situar melhor suas ações. Não gosto da idéia de realizar uma análise histórica fria, especificamente a visão sócio-política da história, como instrumento único para se conhecer e entender um personagem ou época, principalmente um santo. Não foram apenas os conflitos de sua época que o forjaram, nem esses podem ser usados para explicar tudo. De fato, foi o fim do maior conflito do começo do cristianismo que possibilitou parte dos atos de Basílio. Quando a Igreja deixou de ser perseguida pelo Império Romano, todos os anseios dos cristãos podiam, ou melhor, tinham que ser postos em prática. Do que adiantaria lutar e sofrer se, quando a oportunidade chega, você cruza os braços? Basílio entendeu isso como ninguém. E esse é um ponto fundamental. Todos os pais da Igreja vinham falando sobre o seu desejo de ajudar de forma mais ampla; de amparar os pobres; de pregar sem medo ou obstáculos intransponíveis; de ensinar abertamente etc. Era a hora de colocar tudo em prática. E assim foi feito!

Tivemos, então, uma era dos grandes Doutores da Igreja, e de vigor renovado em todas as áreas. Para ser justo, na maioria das vezes esses esforços eram desconexos e abrangiam menos gente do que poderiam. Sempre louváveis, mas faltava sempre um bom administrador. Assim como aconteceu quando se espalhou o apelo pela vida ascética. Quando alguns viram o valor de se organizar melhor em um vida monástica, lá estava São Pacômio para começar o trabalho; quando a administração do lado prático do sacerdócio era necessária, lá estava São Basílio.

Em tempo: São Basílio também teve fundamental influência sobre a vida ‘monástica’. Na verdade, a asketikon, a “Regra de São Basílio”, é uma orientação para a vida ascética, e não uma regra monástica como entendida pelo ocidente. Há uma diferença, mas isso não vem ao caso agora.

Em termos práticos, São Basílio certamente foi um dos grandes administradores da história da Igreja. Seus talentos haviam sido reconhecidos, e seu caminho alterado para sempre: quem antes havia sonhado em ser um asceta, se tornou um padre secular. Destacado por sua luta contra o Arianismo e por seu fervor na defesa do Credo de Niceia, Basílio é escolhido novo Bispo de Cesareia. Seu bispado lhe dava poderes de ‘exarca’, que seria algo como um representante do Império, mas que, na prática, dava a ele as funções de um arcebispo. Sem a presença e interferência do estado, mas podendo até mesmo escolher bispos e sacerdotes. Note que, na época, essa escolha sem interferência era rara.

Basílio foi absolutamente genial em suas escolhas e defesa da ortodoxia. Quando necessário, ele prontamente pedia ajuda ao amigo Gregório Nazianzeno e outros. De forma alguma concentrou poderes ou abusou deles. Vivia na humildade e a todos servia dando o exemplo. Provavelmente seu grande feito prático foi o cuidado aos mais necessitados, de corpo e alma. Sua luta pela conversão e mudança de vida de criminosos e almas perdidas era notório, assim como sua generosidade com os necessitados. Vendo que era preciso tirar mais proveito da recém conquistada liberdade da Igreja para ampliar os atos de caridade, Basílio institui o que pode ser chamado de uma obra de caridade ‘institucional’ da Igreja. Uma forma de concentrar a ajuda e usar mais mão de obra de forma eficiente. Basílio liderou pelo exemplo, e conseguiu doar toda a herança de sua família e mais o que pôde de sua diocese. Fundou as primeiras cozinhas populares, locais em que os pobres podiam se alimentar e descansar.

Basilíada.

Talvez seja difícil entender hoje em dia a grandeza do ato seguinte de São Basílio. Porém, considerando a pobreza de Cesareia e suas redondezas, não há uma só vez que eu leia sobre isso e não me impressione. Próximo de Cesareia, Basílio constrói nada menos que uma cidade inteira voltada para a caridade. Um enorme complexo de ajuda, a cidade possuía, entre outras coisas: um gigantesco abrigo para os pobres, um hospital (daí que se desenvolveu o que hoje é o hospital moderno) e um asilo.

É fundamental se entender que esse tipo de instituição não era uma preocupação pagã. Absolutamente não! O mundo pagão, até ali, simplesmente não tinha em seu modo de pensar a ajuda desse porte aos necessitados. Ajuda, sim. Mas em certas circunstâncias, como o interesse do governante do momento, e certamente nada desse porte. Em geral, na forma de uma ‘filantropia’ que era apenas uma forma de dizer “vejam como seu Imperador é bom”. Tais atos de filantropia eram feitos de formas tão demagógicas como atualmente, como o Coliseu de Roma ou as Olimpíadas no Rio em 2016. Pão e Circo no meio da absoluta necessidade e desfaçatez dos governantes, com promessas de ajuda auto-glorificantes. No mais, tantas filosofias e impérios até ali pregavam a força e a disposição como virtudes, e a fraqueza ou necessidade como sinal de inutilidade da vida.

Foi o advento do cristianismo que mudou o próprio modo de pensar a caridade. O que antes eram, no máximo, ou “casas de cura” (o que em alguns casos não passavam de ‘spas’ para os ricos), ou casas de sacrifício pagão (locais em que oferendas aos Deuses eram colocadas com os doentes em busca de cura, e que alguns autores maliciosos dizem ser a origem do hospital, e não a inovação cristã), passam a ser hospitais. Locais onde as pessoas eram recebidas e atendidas por profissionais. Essa cidade da caridade abrigava os profissionais e os ajudantes (os ascetas que viviam sob a organização da já citada asketikon) em todas as áreas. A cidade recebia também os estrangeiros, outra coisa que absolutamente não era o pensamento comum da época. Não entender isso é falhar em compreender o papel da Igreja na caridade como obrigação tanto da pessoa como do Estado, além de sua influência nas práticas e instituições hoje vistas como fundamentais, como hospitais e casas de caridade em geral. Não entender a importância de São Basílio nisso tudo é um crime contra a história e contra a sua memória. Mas, acima de tudo, Basílio certamente gostaria que entendessem que tudo isso é um ato de amor a Deus e Sua Lei assim anunciada por Cristo.

São Basílio foi um grande teólogo, devotado ao combate das heresias. Quando Basílio chegava a se incomodar com dúvidas sobre os casos em que o oriente discordava do ocidente, ele não teve medo de se comunicar com outro Doutor da Igreja, Santo Atanásio, já conhecido por ser uma fortaleza da ortodoxia. Santo Atanásio ajudou Basílio a deixar claros pontos de vista por vezes levados ao extremo na Igreja do oriente, como o problema da consubstancialidade do Pai com o Filho e, principalmente, com o Espírito Santo. Quando se acreditava que Basílio havia traído os princípios de Niceia, foi Atanásio que o defendeu após conduzí-lo para a ortodoxia.

Além de seus tratados contra os hereges, suas homilias e epístolas, São Basílio foi um liturgista. Sua versão da liturgia, depois conhecida como “Divina Liturgia de São Basílio”, é até hoje aceita e usada na Igreja Ortodoxa, embora menos usada que a de São João Crisóstomo. A devoção Mariana de São Basílio, além da influência de sua vida ascética, podem ser sentidas em sua bela liturgia.

São Basílio, em suma, alterou a liturgia, a vida ascética, e a própria definição de ‘filantropia’ em sua época. Nenhuma dessas coisas pode ser vista como nada menos que glorioso a Deus. Se São Basílio tivesse ‘apenas’ alterado o conceito de filantropia, isso já seria o bastante para ser lembrado eternamente. É preciso enfatizar esse ponto sempre que possível! São Basílio não criou o conceito de filantropia ou sua prática (que era limitada e interesseira, na enorme maioria dos casos)! Ele ajudou a implantar a Palavra de Deus na humanidade de forma concreta e definitiva, por meio da vivência cristã legítima. Com isso, ele ajudou a mudar a noção de caridade para sempre. Essa mesma noção cristã sofreria ataques constantes, e sua versão deformada mais forte veio muito depois com o Marxismo. Mas mesmo ela não prevalecerá! São Basílio transforma uma falsa filantropia estatal em uma ajuda aos mais necessitados sempre através de alguma organização de pessoas sem ligação com políticos e governantes, ou seja, sem a presença estatal-imperial por perto. A caridade passa a ser das pessoas aos seus próximos, e a comunidade passa a ser organizada de formas nunca antes vistas. Essa mentalidade jamais mudou. Ela pode ser atacada, mas toda vez que a Doutrina Social da Igreja for lembrada, ou mesmo que as pessoas não saibam de onde vem seu pensamento comunitário, lembre-se e lembre as pessoas do trabalho e idéias de São Basílio. É uma grande forma de se lembrar das palavras de Deus postas em prática.

A vontade de viver uma vida ascética cobrou seu preço no corpo de Basílio, e após uma vida intensa, ele morre com apenas 49 ou 50 anos (fontes diferem). Seu amigo Gregório Nazianzeno preside o seu funeral, e lembra que sua cidade-caridade, agora chamada de Basilíada, era como a oitava maravilha do mundo. Não só em termos físicos, mas principalmente em sua missão. Basílio é chamado de “o Grande”, um título que seu povo ficou feliz em lembrar para sempre. É nosso dever preservar seu nome e seus atos. Mas, principalmente, é preciso lembrar que ele foi um heróico combatente do bom combate pela Igreja, e seu amor a Deus, em palavras e atos, é um exemplo da Graça de Deus em ação em nós.

São Basílio, o Grande, Doutor da Igreja, olhai por nós!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

 

2 thoughts on “Doutores da Igreja. O grande São Basílio.

  1. Marcelo

    “São Basílio Magno, conhecido pelos seus contemporâneos como o Apóstolo das Esmolas, fundou um hospital em Cesaréia, no século IV. Era conhecido por abraçar os leprosos miseráveis que ali buscavam alívio, manifestando uma terna piedade para com esses proscritos, sentimento que, mais tarde, tornaria famoso São Francisco de Assis”. Do livro “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental” de Thomas E. Woods Jr. Editora Quadrante.

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    1. Papista Post author

      Obrigado pela citação. Sempre boa lembrança. Thomas Woods é um grande autor, e esse livro é essencial.

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