Aquele que voltou.

By | 3 de abril de 2015

               A Páscoa judaica, Pesach em hebraico, significa “passagem”. É a Festa da Libertação. Simboliza o Êxodo, a libertação dos judeus da escravidão no Egito. É uma data de alegria, com toda justiça. Para homenagear a liberdade vinda de Deus através de seu profeta Moisés, os antigos sacrificavam um cordeiro (Ex 23,15), relembrando assim o sacrifício que os salvou da morte quando Deus tirou a vida dos filhos do Egito (Ex 12). A festa da Páscoa é a lembrança do sacrifício de um povo sofrido, libertado por Deus das aflições da escravidão.

Alguns séculos depois, os judeus, e tantos outros povos, já seriam novamente dominados. Século após século, o homem se vê escravo ou dominado e sem real direito a escolher seu modo de vida. Ou se encontra sofrendo por um motivo ou por outro. Alguns são riscados da história. Outros viram capachos dos dominadores, e terminam assimilados ou aniquilados completamente como povo. Alguns resistem, e fica o lamento do sofredor que não entende sua situação.

O homem moderno, vindo do materalismo iluminista, e acreditando se completar consigo mesmo e nada mais, se encontra numa encruzilhada. Sem contar os que ainda vivem sob regimes de escravidão, a maioria dos povos se acredita livre, mas é escrava em outras formas. O homem até pode se enxergar escravo de seus desejos, mas, sob o perigo de não se achar livre o suficiente, luta para que todos os vivam mais e mais, sem jamais notar a contradição. Ele se vê escravo da tecnologia, mas precisa muito do último modelo de telefone, ou qualquer outra coisa para se sentir feliz com algo. Tudo o que ele cativa é fugaz, já que o resto lhe parece uma negação de sua liberdade. Se o homem chega a refletir sobre a questão, sua conclusão costuma ser de que tudo isso é apenas mais uma dominação terrena do homem pelo homem. Conclusão essa, infelizmente, até mesmo alguns que se dizem religiosos. O homem moderno supre sua escravidão com mais uma dose dos mesmos desejos que o conduziram à escravidão que ele tanto lamenta.

Consultórios psiquiátricos e divãs cheios, e confessionários vazios. Pílulas para cada coisa, escândalos e uma consciência atormentada, e qual é o remédio prescrito? Culpar o alerta, a sua própria culpa, e não o que a causou. “Você sente culpa”, dizem os escravos da modernidade, “então você precisa fazer o que faz, mas sem culpa”. Simples, não? Você trai seu conjuge e se divorcia, ferindo-o e aos seus filhos de forma que apenas violência física ou sexual podem ferir mais. O remédio? “Livre-se da culpa!”, e faça tudo isso, mas sem se preocupar. Se por acaso os homens ficam ‘chateados’, nos é dito, é porque não abraçaram a modernidade e não fizeram ainda o mesmo com seus futuros pares. Se tudo o mais falhar, livre-se então dessa idéia antiga de ter um par, formar um casal, uma família. Que coisa antiquada! O que uma família faz com você, afinal, se não te encher de culpa e coibir seus desejos? Ah, os desejos. Esses, pelo visto, não devem jamais ser tolhidos. Mude o mundo, acabe com tradições, faça o que quiser com seu corpo, aborte os inconvenientes, mas jamais deixe de seguir esses impulsos. São eles que sabem o que é bom pra você. Será?

Depois de feito isso, você ainda sente dor, culpa, vazio? Deve ser porque você ainda não abraçou totalmente o modernismo. A modernidade ficará feliz em lhe fornecer dezenas de religiões (algumas milenares que ganham nova versão), cultos ou formas de reforçar o seu eu, esse lado magnânimo que não pode ser questionado. Por vezes esses cultos tentam fortalecer seu eu e dar vazão aos seus desejos. Outras vezes, o caminho é sublimar todo sentimento e desejo. Tudo ou nada.

Antigamente, e até mesmo durante a vida terrena de Jesus Cristo, os homens esperavam uma libertação física. Como pessoas e como nações, a esperança era de um libertador como um guerreiro para pôr fim à uma luta aparentemente sem fim, já que se saía de um tipo de dominação para outra. Ou ainda, o libertador seria um político, um revolucionário. Sem falar dos cultos pseudo-religiosos, como os gnósticos, prometendo liberdade pelos desejos e ‘iluminação dos escolhidos’. Hoje, a libertação não parece muito diferente. A libertação seria um messias político, livrando o povo de seus opressores. Ou seria acabar com quem, ou o quê, o faz se sentir culpado, liberando seus desejos mais e mais. Elementos e tempos diferentes; mesmas bases, mesmo sofrimento. A única hipótese que parece proibida é perceber e prestar atenção ao que o matemático e filósofo Pascal chamou de “um vácuo em forma de Deus no coração“.

Na época de Cristo, muitos judeus ficaram frustrados quando o homem que disse ser o Filho de Deus não derrubou os dominadores romanos. Até mesmo os apóstolos não sabiam exatamente o que pensar. Ele não tinha vindo libertá-los? E morreu como um bandido, na cruz? Onde estavam as multidões que o ouviam? Se não vai usar poderes milagrosos contra os opressores, por que ele não os uniu e convocou para a luta? De fato, ele tinha feito uma afirmação singular. Ele não era mais um profeta, ou um revolucionário como Barrabás. Ele disse que era Deus! Como Deus poderia morrer? E sem nem ao menos libertá-los?

Talvez nós passemos tempo demais ouvindo a nós mesmos. Parece feio dizer isso na era do individualismo, mas talvez nós só consigamos perceber aquilo que queremos. Se eu não preciso ter limites no meu querer, é provável que eu não consiga mais distinguir o que é real do que é apenas meu querer. Talvez, então, se tivéssemos prestado mais atenção no que Cristo nos disse, conseguiríamos entender. O que ele disse? Na verdade, algo muito mais simples, mas muito mais difícil de se fazer.

O homem vai sempre passar por tribulações. Isso é confirmado pela história, ou mesmo pela vida de cada um. A salvação na terra parece uma óbvia contradição. Nós precisamos é da salvação da alma, que é para depois da vida. Ela é uma busca, não uma certeza. É um presente escondido, em que a procura é parte boa do processo, mas não é o processo. Procurar o ovo de chocolate é bom, mas não é o ovo de chocolate. A própria certeza de que existe esse prêmio molda nossas atitudes para a busca. Basta se esforçar para encontrar.

O que é a salvação, senão a eternidade com Deus, em amor infinito, beleza infinita etc? O que parece claro é que não há outra possibilidade para a felicidade. Muito menos outro tipo de ‘salvação’ que preencha esse vácuo no coração. Salvação terrena nenhuma pode preencher o vazio que o meu pecado cria. Sublimação dos desejos nenhuma pode me fazer mais que um autômato. Eu preciso dos meus desejos, mas eu preciso controlá-los. Eu preciso de direção e não fugir da culpa natural ao me ferir ou aos outros. Eu preciso de Deus!

A pergunta lógica, então, seria: em quem confiar para isso? É em Jesus Cristo que devemos acreditar! Ele foi o único que deu uma solução plausível para tudo isso, que não é me fazer melhor infinitamente. Isso é impossível! Não é me tornar sem sentimentos. Isso não seria bondade ou libertação! A menos que se tornar um autômato lhe pareça liberdade. Não é me fazer odiá-lo, tentar fazer tudo por mim mesmo, e dar liberdade absoluta aos meus desejos. Isso só nos trouxe dor, de novo e de novo!

A solução é a Graça de Deus! É algo que eu não posso conquistar, mas me vem de graça, livremente. Se livremente eu a aceitar! É a ligação com Deus sem meus freios ou rancores. Sem mágoas ou barreiras.

Jesus Cristo nos deu a solução. Ele fez mais que isso! Ele fez uma provisão, uma reserva de Graça Divina. Seria impossível para nós mesmos resolvermos esse problema, ou forçarmos uma comunhão com Deus com nossos pecados. Cristo morreu tomando para si os nossos pecados. Ele sofreu toda o desalento dos nossos pecados, e sentiu a dor da separação com o Pai, a pior dor de todas. Ao fazer isso, Ele nos deixou a Sua Graça! Ainda é possível não aceitá-la, mas agora já é possível a união com Deus. A porta está aberta, só depende do nosso “sim”.

Deus está além do tempo. Seu sacrifício na cruz pode ser compartilhado sempre. A capacidade dele de tirar o pecado naquele momento é eterna. Fazemos isso como Ele nos ensinou: na Comunhão, com o sacrifício pascal da Eucaristia, repetido em toda Santa Missa. O cordeiro do sacrifício é agora o Cordeiro de Deus. Inocente e sagrado. Não é preciso mais o sacrifício animal. O Cordeiro de Deus foi imolado, e nós participamos do sacrifício salvífico na Eucaristia.

A garantia de tudo isso é um fato único na história. Um fato histórico! Atacado, mas jamais refutado. Na sexta-feira ele foi sacrificado. No domingo, ressuscitou! Foi visto em diferentes lugares, por várias pessoas. Cristãos e não cristãos. Gente que já o negava, e gente que não acreditava mesmo o vendo na sua frente. Perseguidores de cristãos; pessoas comuns, sem ideologia ou interesse no acontecimento; romanos; judeus etc. Ressuscitado, Cristo mostra os ferimentos em seu corpo físico, mas é capaz de passar através de portas quando quer. Ele não é um espírito sem corpo, nem é mais um corpo comum. Ele cega pessoas com sua luz, e cura suas doenças perdoando os pecados. A única forma de você não aceitar o cristianismo é lutar contra os fatos e atacar a ressurreição. Você pode não aceitá-los, não gostar das implicações, mas eles não deixam de ser verdade.

E se esses fatos históricos forem verdade, se Deus provou ser quem dizia, como ignorá-Lo?

Na Páscoa, celebramos a ressurreição de Cristo, o acontecimento mais importante da história. Nossa salvação. Nossa única chance de felicidade plena, de entender o mundo em que vivemos e nossas atitudes nele. Celebramos um Deus que se fez como um de nós e por nós o justo foi sacrificado para nos possibilitar a salvação.

Por fim, lembro que os ataques a Deus e Sua Igreja não são novidade. Eles batem, mas não derrubam a casa construída sobre a rocha, Pedro, e Sua Igreja. Alguma idéia nova, alguma “prova arrasadora” sempre foi apresentada. Mas G.K. Chesterton nos lembrou bem ao dizer: “o Cristianismo morreu muitas vezes, e tornou a ressuscitar; pois tinha um Deus que sabia o caminho para fora do túmulo“.

Espero que você e sua família participem do sacrifício pascal, e por Ele sejam abençoados.

Feliz Páscoa!

em Cristo,  entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *