Oikonomia: a economia divina como missão sagrada

By | 12 de março de 2020

Uma das palavras mais usadas no nosso dia a dia é “economia”. Em geral, para designar o estudo da administração dos bens ou mais corriqueiramente para se referir ao fato de que dinheiro foi poupado em troca mais vantajosa etc.

            A origem do termo é a mais simples possível. Economia vem de “oikonomia” (οἰκονομία), uma palavra grega basicamente usada para descrever a administração do lar. Essa é precisamente a descrição dada por Xenofonte de Atenas e por Platão, ambos discípulos de Sócrates, quatro ou cinco séculos antes de Cristo.

            Seria por demais simplista acreditar que a administração do lar é apenas cuidar para que nada falte, o que já seria digno o bastante, mas não é o suficiente. Oikonomia é uma missão! É uma missão dada a alguém que não necessariamente é o dono da propriedade, ou seja, algo que não pareceria natural para alguém sem uma relação familiar, como natural seria para uma mãe ou um pai. De fato, é precisamente a quem mais interessa que é dada a administração do seu lar.

            Oikonomia, com isso, é uma missão de honra que envolve uma promessa. Nesse ponto é impossível não se atentar para a proximidade da missão que é a oikonomia com a Aliança Divina, um juramento sagrado que forma relações familiares. Ou seja, se a Aliança é o juramento que gera parentesco divino, podemos dizer que a oikonomia é a missão.

            Esse é, precisamente, o sentido dado pela Sagrada Escritura. O termo “oikonomia” é usado mais de uma dezena de vezes no NT (contando variações e descontando a diferença de fontes). Quase todas elas de origem paulina, ou seja, uma expressão usada por São Paulo e seus discípulos, como o uso no Evangelho segundo São Lucas, que foi um discípulo de São Paulo (Lc 16,2-4.8).

            A passagem em que a expressão está mais presente é a parábola do mau administrador (Lc 16,1-8). A palavra para administrador, oikonómos (οἰκονόμος), claro, vem de oikonomia. Jesus conta uma das mais difíceis parábolas para os seus discípulos. Uma em que Ele parece elogiar a malandragem, a desonestidade do administrador quando, na verdade, é uma analogia para a urgência da missão.

            Vemos o administrador como alguém que recebeu a missão divina de proclamar o Reino dos Céus e viver a vida cristã como quem sabe que o Reino chegou e a hora do julgamento se aproxima. A oikonomia divina é uma missão sagrada que deve ser o centro das nossas vidas.

            Outras passagens nos darão um panorama ainda mais rico. Em ‘Ef 1,9-10’, São Paulo nos diz que a vontade de Deus foi feita em Cristo, algo determinado desde sempre para ser realizado na plenitude do tempo. O que é tudo isso? Não é fácil fazer um resumo, mas eu tentarei da melhor maneira. Se você gosta de exegese bíblica, ótimo. Caso contrário, peço paciência ao leitor.

            ‘Ef 1,3-14’ é uma frase só, uma Berakah (בְּרָכָה‎), uma bênção de louvor a Deus. Em sua bênção, São Paulo examina o plano de Deus em ação e seu cumprimento em Cristo. A plenitude do tempo é a vinda do Reino. Quando veio o Rei, Jesus Cristo, veio o Reino. A plenitude do tempo é a proclamação da Nova Aliança, que cumpre e eleva a Lei e os profetas, uma nomenclaruta para o Antigo Testamento, ou seja, a Antiga Aliança.

            A palavra “oikonomia” nessa passagem se refere ao “plano” realizado em Cristo. Ou seja, a “oikonomia divina” é também um plano, algo realizado em Cristo. Algo que vem da vontade de Deus, assim determinado desde sempre; se realizou em Cristo e o anúncio da Boa Nova; e se realiza na ação da Igreja até se realizar definitivamente na Igreja Triunfante após o julgamento final. Note algo comum na descrição teológica bíblica: algo que parece um eco do cumprimento da vontade divina pela História da Salvação. Antes, durante e sempre na história; cumprido e elevado em Cristo para o ontem, o hoje e o amanhã.

            Oikonomia, então, é realmente parte da nossa missão de participação na realização da vontade de Deus em Cristo. Muito mais poderia ser dito sobre essa passagem, mas, para o propósito deste artigo, entender o papel da oikonomia como missão nos basta.

            A missão de administrador da vontade de Deus, aquele que participa cooperando com o Espírito Santo, é vista na Carta de São Paulo a Tito (Tt 1,7), no mesmo sentido que em diferentes livros (Lc 12,42 etc). O homem que recebe a missão divina de administrar os bens do Senhor na terra deve viver com retidão.

            A questão é: o que exatamente é essa missão e o que são os bens do Senhor na terra? São Pedro nos ajuda com um bom exemplo. O príncipe dos apóstolos nos diz que os dons recebidos, os Carismas (χάρισμα), devem ser colocados a serviço do próximo, pois essa é a missão do bom administrador (1Pd 4,10). Outra maneira de se ler esse versículo seria algo como colocar os dons a serviço do próximo como bons “dispensadores” da Graça de Deus.

            Embora isso seria já traduzir interpretando teologicamente, algo nem sempre bem-vindo e que pode tolir os sentidos da interpretação, a lógica está correta. O bom administrador não é aquele que apenas poupa ou usa com parcimônia, mas é aquele que, cooperando com o Espírito Santo, distribui as Graças recebidas de Deus.

            A oikonomia divina, portanto, é saber viver retamente para distribuir as Graças à família divina. Como todo bom chefe de família, os administradores dos bens recebidos de Deus devem se sacrificar para dar o melhor à família, não a si mesmos.

            A oikonomia como missão de anunciar o Evangelho e administrar a Casa do Senhor, sendo um dispensador da Graça Divina, por fim, é exatamente do que fala São Paulo em sua Carta aos Colossenses (Cl 1,25). Nessa passagem, a expressão “oikonomia” é por vezes traduzida literalmente como “administração”. Em alguns casos, ela é traduzida como “missão”, “ofício divino” etc. De novo, embora seja menos literal e usual, ela é perfeita para o que São Paulo quer ensinar.

            Ser responsável pela oikonomia da Casa de Deus; anunciar aquilo que Deus planejou desde sempre; se cumpriu: Cristo está entre nós. Através daqueles que cooperam com a Verdade para dispensar a Graça Divina sobre a sua família, que é a Igreja, o Senhor faz milagres entre nós.

            Não há como pensar na oikonomia divina e ignorar o chamado à missão. A oikonomia divina não é isolar a sua vida ou da sua família. É cuidar dela para que, a partir dela, a Graça divina seja dispensada a todos.

            Ao contrário do que muitos pensam, nossa santificação não é algo que se restringe a nós. Nossa santificação, a alegria de viver mais próximo do Senhor, provoca um efeito em nosso próximo.

            Veja por esse lado: brigas em família causam efeitos que não se restringem a duas pessoas, pois é inevitável que se leve isso ao resto da casa, ao trabalho e ao próximo que encontramos na rua. Da mesma maneira, uma vida mais próxima de Deus terá efeitos sobre o próximo. Efeitos de amor e um desejo de encontrar a fonte daquela alegria de viver mesmo sob tremendas dificuldades.

            O mundo precisa de santos. A oikonomia divina é uma missão; a economia do lar é algo a ser vivido e, então, gritado do alto dos telhados.

            Foi assim que os primeiros cristãos mudaram o mundo. Foi assim que a Igreja resistiu contra todos os impérios que se ergueram contra ela e depois caíram: cultivando essa oikonomia familiar que não pode ser contida. Essa ainda é a única chance do mundo para o futuro.

            Mesmo que o mundo lute contra a alegria da oikonomia divina; mesmo que o mundo despreza aquilo que mais precisa; mesmo que o mundo olhe para a alegria católica como a raposa que, sem querer assumir o esforço, disse que as uvas no alto deviam estar ruins; ainda será a nossa obrigação vivê-la como quem espera o dia em que o filho desregrado voltará para a casa. A casa que administra e dispensa as bênçãos de Deus na missão da vivência do amor de Cristo.

            Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

            um Papista

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