Sanctus: Senhor dos Exércitos ou Deus do Universo?

By | 1 de janeiro de 2020

Na oração do ‘Santo’ (Sanctus), nós dizemos em Português: “Santo é o Senhor Deus do Universo”. As primeiras versões da oração, seguindo a língua falada no Novo Testamento, e ainda língua comum em partes do mundo, o Grego, diziam “Santo é o Senhor dos Exércitos” (Ἅγιος, ἅγιος, ἅγιος Κύριος Σαβαώθ· Ágios, ágios, ágios, kírios sabaoth).

Bons exemplo disso são a Divina Liturgia de São João Crisóstomo e a Liturgia de São Basílio. Entre outras.

A expressão grega vem da expressão hebraica ‘tsebaah‘ (צְבָאָה) ou tsebaoth, que significa ‘exército’ ou batalha, campanha militar etc. A expressão “YHWH Tsebaoth“, Senhor dos Exércitos, é a mais usada para se referir a Deus no Antigo Testamento, algo como mais de 200 vezes.

Assim como o grego absorveu a expressão hebraica, o mesmo aconteceu com o Latim. A oração foi traduzida como : “Sanctus, Sanctus, Sanctus. Dominus Deus Sabaoth“. Já aqui há uma alteração, um acréscimo! Por quê? Há adulteração na versão latina? Não, mas voltaremos a isso mais adiante.

Então, seria justo dizer que a nossa tradução contém um erro ou vai muito longe da intenção original? Ou que não se pode alterar nada do ‘original’? Não creio que isso seja de todo justo. Vejamos:

A oração vem de dois lugares na Bíblia. A primeira, mais literal, é da visão do profeta Isaías (Is 6,3). A segunda é no livro do Apocalipse em que quatro animais, os símbolos dos Evangelistas, adoram o Senhor em Seu Trono e cantam: “Santo, Santo, Santo…” (Ap 4,8).

Encontramos o ‘cenário’ dessa visão descrita por Ezequiel (Ez 1,13-15.19-22; 10,1-22). Eu pretendo explicar melhor no curso sobre o Apocalipse, mas há diferenças importantes aqui, como o fato da visão definitiva, no Apocalipse, demonstrar exatamente um Deus Onipotente e não meramente dominador da terra (como a visão de Isaías), mas de tudo e para além de matéria etc.

Daí vem a oração do Sanctus. Acontece que, no Apocalipse, a frase é “Ágios, Ágios, Ágios, Kírios o Theós Pantocrátor” (Ἅγιος, ἅγιος, ἅγιος Κύριος ὁ θεός παντοκράτωρ). ‘Pantrocrátor’ significa ‘aquele que a tudo domina’, ‘regente absoluto’ ou mais simples ‘onipotente’ ou ‘todo poderoso’. Ou seja, a citação completa pode ser traduzida como “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo Poderoso”.

Repare também que a primeira versão, em Grego, não contém a expressão ‘Theós’ para Deus. Ela é uma inclusão na tradução latina (Dominus Deus Sabaoth), que já ali se distanciava da citação original de Isaías, que não contém a expressão ‘Deus’ nem em Hebraico nem na tradução Grega, a Septuaginta. Por quê? Provavelmente, para se aproximar da versão do Apocalipse, onde encontramos a última versão da oração.

Por que não da versão de Isaías? Por que a tradução do Latim (e daí em diante) se distanciou dessa versão original, direta de ‘Is 6,3‘? Em primeiro lugar, não há dúvidas de que qualquer citação da Escritura é igualmente válida. Porém, como eu disse antes, a versão final da Revelação em que o ‘Santo, Santo, Santo’ é cantado acrescenta nova compreensão de Deus e o nosso destino.

Enquanto Isaías profetizara sobre o que povo da época entenderia, um Deus que é Senhor dos Exércitos para derrotar os inimigos na terra e refazer o ‘reino’ (de Israel), isso seria mera prefiguração da plenitude da Revelação em Jesus Cristo, quando, no Apocalipse, é revelado que esse mesmo Deus, a quem os santos cantam sem cessar, é mais do que se imaginava e o Reino é um Reino dos Céus.

Nesse sentido, jamais pode ser considerado um erro você se aproximar ainda mais do texto que descreve a Revelação de Jesus Cristo, a Sagrada Escritura. Meu problema com a tradução “Deus do Universo” é que me parece óbvio que a idéia era que ‘universo’ passasse a idéia de ‘onipotência’. Como pura definição teológica, isso seria o erro grave de confundir Criador com criação.

Antes dos gnósticos bagunçarem tudo, era tremendamente óbvio que o Deus criador é o Senhor Deus Onipotente e a descrição dele como ‘Senhor do Universo’ tinha isso como implícito (exemplos mais adiante).

Porém, quando as primeiras seitas gnósticas começaram a transmitir a idéia de que o universo era a criação de um ‘demiurgo’; que a matéria é ruim e só o espiritual é bom; e que o deus onipotente não era o mesmo que criou o universo; essa associação imediata de ‘universo’ e ‘onipotência’ passou a carecer de explicações claras, ou ao menos a demonstração dos antecedentes bíblicos que a justifiquem sem que pareça gnose.

Porém, essa justificativa bíblica que nos separa dos gnósticos existe. Há um fundo bíblico para essa idéia do Deus criador, o Senhor do Universon como Deus Onipotente, muito antes dos gnósticos bagunçarem tudo.

A Bíblia diversas vezes descreve Deus como o Senhor do Universo e a criação como demonstração de algo que está além. Tirando a óbvia narrativa da criação (Gn 1-2), temos diversos salmos (Sl 8; 19; 33; 147 etc); profecias (Is 40,22.26); narrativas sapienciais (Jó 26,7); a descrição da criação através de Cristo feita no Evangelho segundo São João (Jo 1,3) e na Carta aos Hebreus (Hb 11,3) e muito mais. O Deus criador da Bíblia, o “Deus do Universo”, é o Deus Todo Poderoso (Theós Pantocrátor)!

Meu ponto é: não me parece um erro ou má intenção que a nossa tradução diga “Deus do Universo”. Também não é gnóstico, é bíblico! Porém, como vimos, em uma primeira observação, ela tem problemas como definição se você não souber as circunstâncias bíblicas. Mas, em termos de mentalidade bíblica (ou seja, como seria entendida pelos cristãos sem a gnose), o Deus do Universo é o Deus Onipotente. O problema com a definição ocorreria depois.

Eu não sei como foi elaborada essa tradução. Não saberia dizer o motivo dessa versão. O que eu quero dizer é que, para além do chute ou o ‘apontar de dedos’ tão comum da internet, não me parece que seja um erro ou má intenção. Como vimos, mudanças ocorreram desde a tradução para o Latim. E há base bíblica para cada alteração. Se alguém souber a história dessa tradução para essa versão final em Português, poderia ser interessante.

A idéia de que é má fé ou “culpa do CVII” me parece simplório e, francamente, possível má vontade. Já vi gente tentar uma justificativa para essa mentalidade citando até mesmo a Bíblia. Infelizmente, essas pessoas ou olham apenas para ‘Is 6,3‘; ou não sabem nada das línguas originais; ou se perdem na falta de conhecimento bíblico geral. Se fosse para se ater ao texto de ‘Is 6,3‘, a versão em Latim já seria errada. Não é o caso.

Dito isso, eu preferia que a nossa tradução fosse ou “Senhor Deus dos Exércitos”, ficando mais próximo das versões originais ou, melhor ainda, mais próximo do texto bíblico da visão final da oração (Ap 4,8): “Senhor Deus Todo Poderoso” (ou Senhor Deus Onipotente). Senhor Deus do “Universo” é limitador, mas não é errado.

No fim das contas, o que importa mesmo é que, inspirados pela Revelação, cantemos o ‘Sanctus’ sempre cheios de alegria, fé e esperança, em adoração ao Senhor Deus.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

2 thoughts on “Sanctus: Senhor dos Exércitos ou Deus do Universo?

  1. Ad Aeternum

    Ótimo artigo, muito esclarecedor! Me interessaria entender melhor também outras expressões que sofreram alguma alteração do latim para o português, como por exemplo: 1) et cum spiritu tuo (ele está no meio de nós), 2) et ne nos inducas in tentationem (e não nos deixeis cair em tentação), 3) et dimitte nobis debita nostra (perdoai-nos as nossas ofensas), 4) sicut in caelo et in terra (céu e terra invertidos no português) 5) et in saecula saeculorum (omitido na maioria dos Glória ao Pai que presencio)…

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    1. Papista Post author

      Olá. A Paz de Cristo!

      Algumas dessas mudanças são questões de tradução, como o caso do Pai Nosso. Elas diferem em cada tradução. A nossa não é ruim. Eu creio já ter escrito sobre isso na página do facebook do apostolado: http://www.facebook.com/umpapista . Creio que lá você pode fazer uma busca por ‘Pai Nosso’ e encontrará meus comentários.

      Outras são mudanças introduzidas na tradução do Missal que não são boas. Mas aí é alteração no Missal, não é a mesma questão da tradução do Pai Nosso. É um problema nas respostas do Missal. Um que, espero, seja resolvido. Em alguns países, já foi resolvido. Resta saber se o Brasil seguirá o caminho e concertará esses erros.

      Quanto à nossa tradução incompleta do Glória, eu confesso não saber por que ela sofreu essa modificação e não inclui mais o “pelos séculos dos séculos”. Que eu saiba, a maioria dos outros países a mantém.

      Enfim, outros países estão muito à nossa frente em termos de correção de curso quando algumas coisas sofreram em algum momento de tradução. Não é sempre o caso, como eu mostro no artigo, mas, em alguns, algo aconteceu que eu não saberia dizer. Se foi má fé ou incompetência, eu não sei. Mas deve ser corrigido quando for um erro.

      Obrigado. Fique com Deus!

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