Rosencrantz, Guildenstern e Onesíforo estão mortos!

By | 25 de outubro de 2019

Em sua segunda carta a Timóteo, São Paulo, como fazia com frequência, lembra alguns eventos de suas viagens missionárias e os companheiros e discípulos que fez. Ao final do primeiro capítulo, ele fala sobre Onesíforo, um cristão de Éfeso que ajudou o apóstolo durante a sua passagem pela tão importante cidade grega.

O tom da passagem (2Tm 1,16-18) é de quem lembra com carinho um amigo que morreu. O apóstolo encerra o capítulo com uma oração a Onesíforo para que ele receba a misericórdia do Senhor “naquele Dia”, ou seja, no dia do juízo.

A tradição sempre debateu se Onesíforo estava morto. É o que parece. Essa parece ser uma passagem clara, já no Novo Testamento, sobre a oração pelos mortos. Isso fica ainda mais forte quando vemos os cumprimentos finais da carta, quando São Paulo enumera as pessoas a quem Timóteo deveria levar os cumprimentos do apóstolo: “Prisca, Áquila e a família de Onesíforo” (2Tm 4,19).

Enquanto os outros são citados pessoalmente, apenas a família de Onesíforo, e não o próprio, é citada. Por que a família dele? Teria Onesíforo permanecido em outro lugar? Difícil, pois, no versículo seguinte (2Tm 4,20), o apóstolo cita outros que ficaram em outras cidades, mas nada de Onesíforo.

Tudo leva a crer que Onesíforo estava morto. Se isso é verdade, a doutrina da oração pelos mortos está bem descrita nessa passagem do Novo Testamento.

O contexto da passagem reforça essa idéia. São Paulo está se recordando, algo magoado, dos discípulos que o abandonaram quando ele foi preso em Roma, de onde ele escreve a carta.

Aqui cabe mais contextualização. Suetônio, o historiador romano, registra uma contenda entre os romanos e os judeus em Roma por causa de alguém chamado “Chrestus”. É um registro engraçado. Suetônio está narrando, sem entender bem, a onda cristã (quase todos judeus convertidos) que varria Roma. “Chrestus” é como ele diz algo como “culpa de um tal crestus”, sem saber que é em nome de Cristo que os cristãos estão dando testemunho com suas vidas.

O imperador ordena a retirada dos cristãos (a quem eles chamam de judeus, achando que é apenas mais uma seita judaica) e a prisão de outros. Entre eles, São Paulo.

Abandonado por uns, São Paulo teria recebido a visita de Onesíforo. Pelo tom, não apenas o encontrou, mas lutou por ele, sendo um mártir da fé. Há até um trocadilho bonito no Grego, quando o apóstolo diz que Onesíforo “o encontrou, então, que encontre a misericórdia do Senhor”. Um amigo que morreu por ele enquanto ia visitá-lo na prisão: “eu estava preso e você foi me visitar” (Mt 25,36).

Muitos pais da Igreja, incluindo alguns dos mais antigos, acreditavam que isso era o testemunho do martírio de Onesíforo e a oração de São Paulo pelo amigo morto. Na verdade, é bastante difícil negar isso, ou ao menos a possibilidade disso ser verdade.

Rezemos pelos nossos irmãos mortos, para que eles também encontrem a misericórdia do Pai. Lembremos do testemunho deles e de rezar pelos que mais precisam. E que São Paulo, Apóstolo dos Gentios, olhe por nós.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

P.S. – se você chegou até aqui e não é fã de Shakespeare, pode estar se perguntando sobre o título. Rosencrantz e Guildenstern são personagens da peça Hamlet. Eles são enviados em missão e, mais tarde, é anunciado: “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos!” (Hamlet, Ato V, cena 2)

2 thoughts on “Rosencrantz, Guildenstern e Onesíforo estão mortos!

  1. Pc Farias

    Boa tarde, meu irmão, a paz de Jesus!
    Fiz um curso de férias contigo sobre Apologética!
    Interessante esse texto, pois até onde sei, só há uma passagem do Antigo Testamento falando sobre a oração pelos mortos.
    Vou ler com calma, depois, o texto bíblico citado.
    Fique com o Senhor!

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    1. Papista Post author

      Olá! Tudo bem? A Paz de Cristo. Obrigado pela lembrança do curso. Foi uma alegria!

      Espero que o artigo te dê muitos bons momentos de estudo e oração.

      Fique com Deus!

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