Tre Ore – parte 4: Meu Deus, por que me abandonaste?

By | 20 de abril de 2019

Em seu quarto dito entre os sete últimos, Jesus clama pelo Pai. Há um duplo sentido em seu apelo em Aramaico “Eli Eli lama sabactâni” (שבקתני למה אלי אלי). Os evangelistas (Mt e Mc) reproduzem as palavras em Aramaico no texto grego para que se entenda a perplexidade dos judeus que pensam que o agonizante Jesus está chamando por Elias. Aqui há que se comentar duas coisas:

            A primeira é que o Senhor provavelmente estava sofrendo tanto que as suas palavras talvez já não soassem claramente entre a dor e um estado de semi-morte. A outra é que o fato dos conterrâneos de Cristo não reconhecerem a citação (veremos adiante) pode ser uma forma dos evangelistas demonstrarem como o pecado nublou os corações dos homens, pois o pecado de todos foi jogado contra o Senhor. A clareza, de fato, só viria depois da Ressurreição e de Pentecostes.

            Tamanha agonia faz o Senhor berrar pelo Pai. A dor física é excruciante, uma palavra que descreve uma dor intolerável. A própria palavra ‘excruciante’ vem do Latim ‘Ex Cruciatus’, que indica uma dor ‘que vem da cruz’. A cruz era a pior forma de morte. Você era torturado e pregado em uma cruz. Sua morte, após horas (ou dias) de dor indescritível, era por asfixia. Depois de tantas horas, seus músculos comprimiam seu abdómem e tornava impossível aspirar ar. Uma morte horrenda.

             Muitas vezes uma brutal tortura por dias que era ‘adiantada’ pelos romanos com a quebra das pernas. Quando chegasse a vez de Jesus, não seria preciso. O que mostra como a tortura antes da crucificação foi intensa.

            Com tudo isso, já seria de se imaginar que qualquer um gritasse de dor, desespero ou delírio. Mas isso nem de longe era o pior, no caso de Jesus.

            Cristo gritou porque sentia a desolação do pecado. Se os meus pecados já me doem e deixam pesado fardo, como imaginar todos os pecados do mundo, incluídos antes e depois, jogados sobre alguém? O Cordeiro sem pecados sentiu por nós toda a dor da separação do Pai, mesmo que Ele jamais tenha se separado. Esse foi o preço da nossa libertação (1Cor 6,20).

            O que Cristo grita, no entanto, é uma citação. O Senhor declama o Salmo 22(21), que é quase um roteiro da Paixão de Cristo. Dessa forma, o Senhor confirma ser o Servo Sofredor profetizado por Isaías. O Salmo 22 é um apelo à salvação, ao fim do sofrimento, mas com profundas notas messiânicas de uma libertação que viria de Deus. Dessa forma, em Seu sofrimento, Cristo nos ensina e confirma muitas coisas importantes: a fé absoluta em Deus; o sofrimento redentor, pois nossa aflição aqui gera uma eternidade de Glória (2Cor 4,17); e a confiança na entrega total ao Pai.

            Tudo isso para que se cumprisse as Escrituras. O Servo Sofredor é a nossa certeza de salvação. Uma salvação conquistada ao mergulhar na profundidade dos nossos pecados e sair vitorioso com um amor invencível.

            Que a lição da esperança que brota da dor nunca nos escape.

            Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

            um Papista

2 thoughts on “Tre Ore – parte 4: Meu Deus, por que me abandonaste?

  1. Ana

    Que texto maravilhoso muito bem elaborado, perfeito, ótima explicação com verdades que muitas vezes fingimos não saber…! Obrigada

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