O Corpo Glorioso do Senhor Ressuscitado

By | 16 de maio de 2018

O Corpo Glorioso do Senhor Ressuscitado: o etendimento bíblico

Existe muita dúvida (ou polêmica, como preferem alguns) entre alguns teólogos modernos sobre a Ressurreição do Senhor. Para alguns, toda a história é simbólica. Para outros, é uma invenção posterior para incluir a divindade de Cristo em uma narrativa meramente humana. Para outros, ainda que você tenha fé na Ressurreição, não há evidências bíblicas suficientes de que os apóstolos compreendiam perfeitamente a divindade de Cristo ou a Ressurreição, e as bases doutrinais são explicações da Tradição sem o que seria uma devida base nas Escrituras. Todos esses grupos estão errados.

Nenhum desses grupos de autores se apega à importância do cumprimento messiânico para a História da Salvação. Passa estranhamente despercebido que Jesus buscava evidenciar aos seus seguidores que tudo se cumpria nEle, inclusive a Ressurreição. Especificamente a ressurreição do corpo.

Aqui vale explicar que mais de 90% dos judeus da época de Cristo, os Fariseus, acreditavam na ressurreição do corpo. Os Saduceus, uma minoria politicamente forte (pois eram uma tribo “biônica” dos Romanos), acreditavam apenas no Pentateuco e não aceitavam a ressurreição do corpo. Os Saduceus eram irrelevantes para o cumprimento messiânico, pois não seguiam a tradição judaica completa, que incluía os profetas. Essa tradição completa é a inspirada por Deus (os 47 livros do Antigo Testamento) e era a que Jesus pregava. Ou seja, era fundamental para Jesus mostrar aos seus apóstolos, judeus como Jesus, e aos outros discípulos de Sua época, também maioria absoluta de judeus, que a ressurreição era mesmo do corpo, conforme as Escrituras (‘Is 26,19‘; a impressionante profecia da ressurreição de ‘Ez 37,1-14‘; e ‘Dn 12,2.13‘).

Mais tarde entraria em cena outro tipo de erro, a gnose. Muitos gnósticos acreditariam apenas numa ressurreição da alma, como se Jesus tivesse sido apenas uma alma que apareceu e se comunicou com os apóstolos. Para os gnósticos, era fundamental separar matéria de espírito. Ao contrário da doutrina judaico-cristã, a matéria para os gnósticos era algo criada ruim e apenas o espiritual era bom. Tal pensamento continua vivo em diversas seitas ‘new age‘ e espiritualistas em geral.

Temos evidências da importância dada pelo Senhor em provar o cumprimento profético em todas as narrativas da Ressurreição. Ainda nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), São Lucas especificamente nos mostra os apóstolos com medo do Senhor ressuscitado ser apenas um espírito (Lc 24,37),  e Cristo demonstrando que tinha um corpo ao se alimentar e mostrar a eles seus ferimentos (vs. 39-43). Mas também vemos Jesus demonstrando que Seu corpo não era como qualquer outro, como quando ele aparece no meio deles (Lc 24,36). Fora dos Sinóticos, São João dá outros exemplos de Jesus passando através de uma porta (Jo 20,19), juntamente com demonstrações de ainda possuir um corpo. A questão, então, é: que corpo poderia ter todas essas qualidades?

O Cristo Ressuscitado possui um “Corpo Glorificado”. Ele não pode mais morrer, se machucar, ser afetado pela passagem do tempo etc.

Fora os Evangelhos, há ainda outra passagem bíblica fundamental que a maioria dos exegetas (e os palpiteiros) costumam ignorar. É uma passagem da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 15 (1Cor 15). São Paulo está explicando exatamente sobre a Ressurreição dos mortos. Ele, um fariseu (At 23,6; Fl 3,5), entende perfeitamente a ressurreição do corpo como parte do cumprimento messiânico e a explica como parte de sua pregação. Especificamente o versículo 44 é um bom exemplo para se explicar a confusão da interpretação moderna. Essa confusão se dá com uma mistura de má tradução com má teologia. É importante entender isso.

As traduções costumam falar em um ‘corpo animal’ e um ‘corpo espiritual’. Ou um ‘corpo psíquico’ e um ‘corpo espiritual’. Nenhuma dessas traduções é boa. Na verdade, esse é um versículo muito difícil de ser traduzido e que carece de boas notas em qualquer edição. Em latim, por exemplo, é ‘corpus animale‘. O problema é que os tradutores para o latim sabiam o que a Tradição ensinava sobre a linguagem em grego do original. Entendido erradamente, isso provoca um terrível falso cognato. Veremos isso mais adiante.

No original, São Paulo diferencia duas expressões (1Cor 15,44):

– “soma psuchikós” (σῶμα ψυχικός), ou “psychikós”, uma transliteração mais facilmente entendida. De onde vem a palavra “psique” (psyché). Sua tradução teológica ideal seria “um corpo preenchido por uma alma” (ou “pela alma”).

– a outra seria “soma pneumatikós” (σῶμα πνευματικός), que seria melhor explicada como “um corpo preenchido pelo Espírito”.

Popularmente, alma e espírito por vezes são termos usados para descrever a mesma coisa. Para a teologia, no entanto, alma e espírito não são sinônimos e é preciso tomar cuidado ao se comentar a doutrina sagrada. A alma é aquilo que anima um corpo, o que dá o ‘animus1 a qualquer ser vivo. Enquanto espírito é aquilo que vem do sopro (pneuma) divino.

Porém, São Paulo não está falando de preenchido “por um espírito”, mas especificamente de um “corpo preenchido PELO ESPÍRITO”. Teologicamente, São Paulo quer dizer um corpo preenchido pelo Espírito Santo! Melhor dizendo: “um corpo repleto do Espírito Santo”, pleno do Sopro Divino que agora anima não um corpo mortal, mas um corpo ressuscitado pela Glória de Deus.

Em resumo, São Paulo ensina que o que morre é um corpo corruptível, mas o que ressuscita é um corpo cheio do Espírito Santo, e um corpo cheio do Espírito Santo é um corpo glorificado! Um corpo depois da prometida (e agora cumprida em Cristo Ressuscitado) ressurreição dos mortos. Não há qualquer razão lógica para esse discurso de São Paulo senão provar a doutrina da ressurreição já esperada desde o AT.

Tudo se cumpre em Cristo. E o Senhor veio mostrar que nEle se cumpriam os profetas e as prefigurações do Antigo Testamento. Ele é o exemplo do corpo glorioso que nos espera após a ressurreição nEle provada. Não há dúvidas sobre o entendimento dos apóstolos se você souber ler as Escrituras. Toda Bíblia deveria explicar melhor essa passagem (1Cor 15,44) em suas notas, pois nenhuma tradução terá apenas uma palavra que exprime tudo aquilo que apenas a boa teologia e o conhecimento das línguas e seus usos na época de Cristo poderam ensinar sobre essa passagem.

Não há dúvidas sobre o entendimento dos apóstolos de tudo o que está acontecendo bem diante dos seus olhos. Nada disso foi uma invenção posterior. Não havia dúvida sobre a divindade de Jesus, o Messias prometido que cumpre e comprova definitivamente tudo com a Sua Gloriosa Ressurreição.

Essa doutrina evoluiu em entendimento e foi definitivamente explicada pelos Pais da Igreja (principalmente Santo Agostinho)? Sim, mas eles não inventaram nada. Tudo isso, como vimos até nas cartas de São Paulo, já estava nas Escrituras. Depois foi apenas uma questão de explicar a Sagrada Doutrina ali contida. Nada disso é novidade para quem cumpre a sua obrigação e lê o Catecismo. Em sua questão 1017, o Catecismo da Igreja Católica (CIC) cita essa passagem da Carta de São Paulo aos Coríntios para explicar a ressurreição do corpo. A base para esse entendimento tão repetido na Era Patrística é exatamente a teologia bíblica aqui explicada e não uma invenção posterior. Todo o resto é confirmação e desenvolvimento do entendimento doutrinal sem qualquer alteração.

Não é preciso apelar para dizer que São João ou uma “comunidade joanina” incluiu posteriormente a doutrina da divindade de Cristo. Isso é falso por si só, já que essa doutrina pode, sim, ser vista nos Evangelhos Sinóticos. Se incluirmos o bom entendimento do que escreveu São Paulo, como vimos aqui, isso se torna inegável.

Datação é sempre um assunto espinhoso, mas considerando que a Carta aos Coríntios é provavelmente de meados ou final da década de 50AD, ou seja anterior ao Evangelho segundo São João2, isso é mais uma evidência de que não há razão para acreditar que a doutrina da Ressurreição Gloriosa do Senhor, e com isso a Sua divindade, são invenções posteriores.

A boa teologia não tem preço, porque ela nos traz a certeza da verdade de Cristo resguardada e ensinada pela Igreja. Não podemos deixar que a confusão tome conta da nossa missão de transmitir a Palavra. A Palavra sem a interferência de ideologias ou erros. Tenhamos a coragem de pregar a verdade do Cristo Ressuscitado, Glorioso em Sua divindade, e não apenas um Jesus apenas humano que não resolve o problema do pecado e serve apenas como munição para ideologias políticas.

Louvemos o Senhor Ressuscitado, que com Seu Corpo Glorioso ascendeu para abrir as portas dos céus e nos permitir a esperança da ressurreição e a vida eterna em Seu amor.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

Notas:

1 – ‘animus‘: daí vem o falso cognato quando traduzem como o latim ‘animale‘. A diferença é que essa sutileza do sentido correto não se perde em latim quando bem entendida a teologia, o que certamente acontecia com os primeiros tradutores da fonte original ‘Latim Arcaico’ e mais tarde na revisão do Novo Testamento feita por São Jerônimo em sua Vulgata. Quando eles traduziram por ‘animale‘, o sentido de ‘animus‘ de alma está presente para quem entender a teologia protegida pela Tradição. O problema é que, com o passar do tempo e a escolha de alguns de não aceitar a Sagrada Tradição como fonte de entendimento, o sentido passou a ser visto estritamente como ‘animal’, o que é um erro. Um erro que São Jerônimo não cometeu.

2 – a datação do Evangelho segundo São João, bem como todos os seus documentos, é material para incansável debate acadêmico e apologético. Existem as correntes que acreditam que todos os seus escritos são tardios como o livro do Apocalipse, ou seja, escritos no final da década de 90 do primeiro século. A segunda corrente, e eu me incluo nela, acredita que, embora o Apocalipse e sua terceira carta realmente sejam do final do primeiro século, sua versão do Evangelho de Nosso Senhor é do final da década de 60, anterior à destruição do Templo em 70AD. Sob qualquer uma dessas hipóteses, no entanto, a Carta de São Paulo aos Coríntios é anterior e endossa o entendimento da divindade de Cristo e a Sua Ressurreição Gloriosa como apresentadas neste artigo.

4 thoughts on “O Corpo Glorioso do Senhor Ressuscitado

  1. HUGO DE OLIVEIRA CARVALHO NETO

    Boa noite.
    Esse site é maravilhoso.
    Gostaria que o Papista aprofundasse nos conceitos de alma e espírito
    Que a Pax Christi esteja com todos que visitam este site.

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    1. Papista Post author

      Muito obrigado pelas palavras. Assim que tiver uma oportunidade, falarei mais sobre isso.

      Fique com Deus!

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  2. Maurício

    Prezado Papista,

    Seu texto esclareceu-me melhor os conceitos de alma e espírito, diferenciando-os.

    Sem mencionar a magistral explicação a respeito da natureza do Corpo Glorificado de Nosso Senhor após a Ressurreição.

    Um abraço.

    Reply
    1. Papista Post author

      Muito obrigado. Glória a Deus se o trabalho aqui ajudou.

      Fique com Deus! Abraços!

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