Cruzadas: mitos e verdades.

By | 6 de março de 2018

As Cruzadas

Além da Inquisição, as Cruzadas são as “cartadas certeiras” usadas em discussão contra Católicos. Felizmente, nas últimas décadas, muitos historiadores sérios têm mergulhado em fatos e relatos da época para separar a verdade das ‘lendas negras’.

Alguns livros de ótima pesquisa, mas linguagem simples, têm surgido para ajudar na discussão.

– Antes de tudo, o grande Rodney Stark já escreveu um ótimo livro sobre as Cruzadas, chamado “God’s Battalions: the Case for the Crusades”(1), em que ele desvenda esse mito do nascimento do ‘imperialismo europeu’, chamando as Cruzadas pelo que elas foram: uma resposta ao crescimento violento de um império islâmico.

– Steve Weidenkopf escreveu “The Glory of the Crusades”(2), um livro excepcional! Ele coloca tudo em suas devidas proporções. Não esconde os erros, mas os coloca em perspectiva histórica bem pesquisada e elaborada. Isso faz do livro não só um profundo ataque aos mitos, como o impede de ser, ao contrário do que o título sugere, a glorificação generalizada de todos os acontecimentos. Weidenkopf separa fatos de mitos, mas também separa teologia, ação da Igreja, ação de forças seculares (que muitas vezes eram contrárias às diretrizes da Igreja, inclusive com condenações etc), e os fatos históricos das ações militares.

– O sempre bom Robert Spencer deu a sua contribuição para a série de livros “politicamente incorretos” e escreveu o “Politically Incorrect Guide to Islam (and the Crusades)”(3). Além de ser um resumo excepcional do que todos deveriam saber sobre o Islã verdadeiro, ele insere as Cruzadas nessa perspectiva, ou seja: entendendo o que é o verdadeiro Islã, uma religião de conquista, você pode entender melhor que as Cruzadas foram uma reação necessária e urgente, justificada em sua intenção, senão em todos os atos. E separar o que foi a parte da Igreja do que foi a ação secular.

Esses são alguns livros básicos que todo católico deveria juntar à sua coleção. Eu destaco alguns mitos. Mantenha em mente que eles vêm principalmente de dois lados:

– o primeiro, de autores protestantes, que ao longo dos últimos séculos seguiram a malícia de Lutero e distorceram pesadamente os fatos para criminalizar a Igreja. Lutero mesmo condenou as Cruzadas no começo de sua revolução, mas, quando os turcos chegam aos portões de Viena, ele escreveu que as mesmas eram necessárias. Farinha pouca, meu pirão primeiro, como dizem…

– o segundo, de gente com profundo ódio da Igreja, mas não protestantes. Como o historiador inglês Steven Runciman. Runciman foi um historiador do Império Bizantino.

A perspectiva de sua obra sempre foi do ‘Oriente santo’ contra a ‘malvada Igreja do Ocidente’, a Igreja Católica. Em 1951, Runciman emerge como um ‘especialista nas Cruzadas’ por sua obra “A History of the Crusades”, propagada como a ‘obra definitiva’ por quem igualmente odiava a Igreja. Entre os mitos que Runciman tenta tornar verdade está o “massacre do Cerco de Constantinopla”. O cerco ocorreu e foi desastroso em termos materiais, mas, na verdade, teve poucas vítimas. No entanto, o saque material, de relíquias religiosas etc, foi enorme.

Quem foi Steven Runciman? Runciman foi um historiador que trilhava uma carreira normal como estudioso do Império Bizantino até que ele se “reinventa” como polemista, focando sua pesquisa (e malícia) nas Cruzadas e em ataques ao Papado. Não por acaso, se torna conhecido, elogiado, e tido como um grande historiador. Runciman desenvolve o hábito de entrevistas bombásticas e declarações beligerantes contra a Igreja e o Ocidente em geral. Por exemplo:

Escrevendo apenas 6 anos após o Holocausto, Runciman comete o absurdo de chamar o ‘cerco’ de “o maior crime cometido contra a humanidade”. Runciman morreu em 2000, e mesmo depois dos massacres comunistas que somaram mais de 100 milhões de vítimas vieram à tona para além de qualquer objeção, Runciman jamais voltou atrás em seu descalabro.

Steven Runciman era um ocultista conhecido. Não é ‘teoria da conspiração’, mas ele ficou famoso por sessões de ocultimo em Londres. Tanto as reuniões secretas (esotéricas) como praticava o ‘ocultismo chic’, tendo lido tarô até mesmo para o rei Fuad do Egito e outros. Suas sessões de ocultismo também ficaram conhecidas pelas orgias homossexuais cada vez mais extravagantes. Quanto mais ‘excêntrico’ Runciman se tornava, mais virulentos os seus ataques à Igreja. Nada de novo aqui.

Runciman se tornou a base para a releitura histórica das Cruzadas que vimos nas décadas de 50 do século XX até o início do século XXI: da defesa justificada do oriente islâmico contra o ataque sádico de bárbaros ocidentais (palavras de Runciman) contra uma sociedade oriental superior e pacífica.

Tal visão tem sido colocada sob o microscópio dos fatos e não sobrevive ao escrutínio histórico.

Destaco aqui algumas lendas lidas frequentemente pela internet. Muitas delas distorções históricas, ou pior, distorções de contos populares:

– a construção do “Saladino virtuoso”. Saladino foi um conquistador muçulmano nascido no que hoje é o Iraque. Tendo conquistado e se tornado o primeiro sultão do Egito, Saladino começa uma campanha de terror que tomaria à força a Síria, dispersaria resistência ao seu poder nas terras conquistadas, e estenderia sua campanha para grande parte da Mesopotâmia (Turquia, Iraque, Síria etc), e parte do norte da África. Foi a sua conquista da Palestina que desencadeou a resposta Ocidental.

Saladino foi um tirano que massacrou milhões. No entanto, com a mistura de anti-catolicismo Vitoriano com o iluminismo que povou a escrita européia nos séculos XVIII e XIX (que emergem no liberalismo do século XX), Saladino se torna um “virtuoso”, lutando com justiça contra os invasores ocidentais. Ele é retratado em filmes e livros como um sábio, versado em filosofia e cultura ocidental, uma figura claramente projetada pelo ideal iluminista, totalmente distante do Saladino histórico. Nesse retrato, claro, os cruzados eram os verdadeiros bárbaros, atacando uma pobre nação de humildes e virtuosos muçulmanos que só desejavam seguir com as suas vidas em paz.

– o Papa pediu desculpas pelas Cruzadas. Falso! São João Paulo II jamais pediu desculpas pelas Cruzadas (4)(5), pela Inquisição etc. O ano 2000 foi declarado por São João Paulo II como o “ano do perdão”, como deve ser um ano de Jubileu, conforme as Escrituras (Lv 25; Nm 36,4; Is 61 etc). Foi teologia, não enumeração de fatos históricos. Se baseando na grande Tradição da Igreja, Escrituras e documentos Magisteriais, o papa pediu perdão pelos pecados de cristãos que se desvirtuaram do caminho e agiram em nome da Igreja (mesmo sem a autorização da mesma). A imprensa correu para enumerar os fatos por conta própria(6), incluindo frequentemente em suas listas as Cruzadas, a Inquisição, Pio XII e o Holocausto (Pio XII não ter agido é outra das mentiras mais sórdidas contra a Igreja e o nome de santa memória desse grande homem) etc.

São João Paulo II, de fato, pediu desculpas e citou alguns casos específicos ao longo dos anos. Em 1992, ele realmente comentou o caso de Galileu(7)(8), mas o que ocorreu foi uma longa pesquisa e uma declaração que passa longe de ser um pedido de desculpas, mas é um apanhado do caso em que o Papa explicitamente cita como esse caso gerou um ‘mito’. Ainda que repudiando os mitos da ‘Igreja inimiga da ciência’ e de um julgamento severo, o Papa tira lições do choque entre teologia e cosmologia. Nem de longe é um pedido de desculpas.

Da mesma forma, o Papa jamais pediu desculpas “pelas Cruzadas”, mas apenas pelas ações de cristãos que se voltaram contra os irmãos ortodoxos (orientais) durante eventos como o Cerco de Constantinopla. Isso nem de longe é um “pedido de desculpas pelas Cruzadas”.

– “o sangue das vítimas chegava ao peito dos cavalos”, ou “o sangue chegava nas canelas”. Variações dessa citação circulam livremente pela internet para descrever o suposto massacre promovido pela Cruzada em Jerusalém em 1099. Segundo essa ‘lenda negra’, os cristãos teriam massacrado toda a população, incluindo civis, mulheres, crianças, animais etc. Tanto sangue que chegava a, na descrição mais amena, escoar como um rio de sangue pela cidade.

Essa é talvez a mais ridícula de toda. Essa citação, na verdade, é uma imagem bíblica usada em canções e hagiografias da época com a intenção de glorificar a vitória. É meramente uma narrativa folclórica. Tal imagem se encontra no livro do Apocalipse (Ap 14,20). Muitos escritores cristãos descreveram a retomada de Jerusalém em tons de fantasia, o que era muito comum nos contos, como qualquer outra descrição medieval que circulava entre bardos, menestréis, cronistas, poetas etc. É uma tentativa de descrever a retomada de Jerusalém como o cumprimento da imagem bíblica de ‘Ap 14,20‘, quando, no julgamento final, os que adoram Satanás serão enviados ao inferno (com tons obviamente fortes na linguagem apocalíptica).

Por incrível que pareça, esse tipo de crônica medieval triunfante, uma hagiografia comum para a época, se tornou um ‘fato’ espalhado sem a menor vergonha por quem ataca a Igreja. O presidente americano Bill Clinton, com a covardia e canalhice que lhe é característica, citou essa lenda para justificar os ataques de 11 de setembro. Quer dizer, o sujeito teve a pachorra de culpar os cristãos pelo ataque muçulmano, e usando um mito como base. Essa e outras tantas atitudes sem vergonha ajudaram a perpetuar esse mito, ridículo como ele seja.

A retomada teve vítimas? Claro! Era uma guerra! Foi um cerco longo e doloroso. Mas as estimativas são de que, ao todo, 10% dos envolvidos na batalha foram mortos. Gente envolvida na batalha, não civis. Muito longe do massacre de inocentes descrito com ruas de sangue, e obviamente não como uma tomada de Jerusalém que vitimou toda a população.

– o antissemitismo das Cruzadas. Todo antissemita que odeia a Igreja costuma projetar seu ódio contra ela. Esse caso é bastante característico. Na descrição dessa lenda, a Igreja teria feito campanhas específicas contra judeus, ou mesmo expropriado judeus de suas terras e posses para financiar as Cruzadas. Isso é falso! Mesmo entre nossos irmãos judeus isso circula livremente, já que ninguém está livre de ser afetado por esses mitos.

Os fatos dizem o contrário. Há mais de um relato sobre forças seculares se financiando por atos monstruosos. É preciso lembrar que as Cruzadas se formavam por famílias nobres que, muitas vezes, desejavam fama e glória para o seu nome. Para isso, essas famílias investiam tudo nas Cruzadas, se unindo a outros nobres, monarcas etc. A idéia de que as tropas eram “da Igreja”, por si só, é ridícula. Embora a Igreja tivesse grupos de cavaleiros, eles eram a minoria absoluta. E não obedeciam aos poderes seculares durante o alistamento, já que as tropas papais já eram formadas por voluntários, apesar da ocasional corrupção.

Os mitos sobre ataques a judeus têm origem em um dos casos mais bizarros pré-Cruzadas. Um dos homens buscando glória para a sua família foi o Conde Emicho de Flonheim (Emerich of Flonheim, em algumas descrições). Emicho se declarou algo como um profeta, juntou um grupo e passou a atacar judeus para formar um tesouro suficiente para financiar a sua própria Cruzada. Seu grupo juntou todo tipo de louco e sedento por glória da época, incluindo gente que idolatrava um ganso que diziam ser o condutor do Espírito Santo (!!!). Emicho e seu grupo percorreram a região do Reno (Alemanha) e promoveram o “massacre do Reno”, em que atacaram os judeus locais de Speyer, Colônia etc. Por esse motivo, muitos historiadores chamaram o episódio de “o primeiro holocausto”.

O fato é que Emicho jamais teve aprovação da Igreja e jamais participou de uma Cruzada legítima e autorizada por Papas e monarcas justos. De fato, o Papa Urbano II condenou Emicho e seu grupo; os bispos locais condenavam o bando em cada passagem pelas cidades; e os bispos escondiam os judeus em seus palácios e os protegiam dentro do possível etc.

O bando criminoso do Conde Emicho jamais chegou a participar de uma Cruzada legítima, e nem ao menos chegou à Terra Santa. Sua “Cruzada pessoal” foi chamada exatamente de “Cruzada do Povo” (ou Cruzada Popular), pois não tinha legitimidade ou participação da Igreja ou monarcas. Foi uma revolta de um grupo de fanáticos que terminou sendo o combustível para essa ‘lenga negra’ em que as Cruzadas massacraram judeus. É mentira!

Erros foram cometidos durante as Cruzadas? Com certeza! Muitas Cruzadas foram montadas, e apenas uma (a primeira) foi realmente um sucesso, ainda que temporário. Muitas outras receberam o mesmo nome, mas nem ao menos tiveram participação efetiva da Igreja.

Já passou da hora dos Católicos não temerem falar sobre as Cruzadas. Todos esses ataques são deliberadamente planejados para retirar o espírito de luta dos cristãos. Se aceitarmos as falsidades históricas, ou mesmo que os nossos erros implicam necessariamente na idéia de que nada foi justificável e nenhuma ação futura será, não só estaremos nos curvando sob o peso da calúnia, como seremos vítimas dóceis num futuro próximo. Se permitirmos que mentiras ou erros passados (que devem ser colocados em sua perspectiva própria e examinados com justiça) sejam mordaças ou algemas para o presente e o futuro, estaremos condenando injustamente a memória de milhares de mártires e homens que lutaram pela nossa civilização.

É exatamente o ódio pela nossa civilização que move os revolucionários de hoje, embriagados pelas mentiras iluministas e um profundo ódio contra a religião, usam dessas lendas para fazer parecer que os piores massacres da história não foram perpetrados por eles e seu secularismo ateu, mas pelas guerras justas da Igreja que salvaram a nossa civilização. A mesma que eles hoje têm o direito de odiar mesmo sendo por ela servidos com liberdade e tolerância.

Mesmo com erros nas Cruzadas, não há qualquer base para comparação com os massacres seculares.

Levantemos a cabeça e nos preparemos para o que vem por aí. Com a certeza de que a história sorri para nós porque Deus está do nosso lado.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

Links:

Livros essenciais:

1 – Rodney Stark: https://www.amazon.com/Gods-Battalions-Crusades-Rodney-Stark/dp/0061582603/

2 – Steve Weidenkopf: https://www.amazon.com/Glory-Crusades-Steve-Weidenkopf/dp/1941663001/

3 – Robert Spencer: https://www.amazon.com/Politically-Incorrect-Guide-Islam-Crusades/dp/0895260131/

Documentos da Igreja sobre perdão e erros (note que não há citações sobre as Cruzadas, Inquisição etc):

4 – http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/en/homilies/2000/documents/hf_jp-ii_hom_20000312_pardon.html

5 – http://www.vatican.va/news_services/liturgy/documents/ns_lit_doc_20000312_prayer-day-pardon_en.html

6 – Veja o tipo de notícia que transformou uma reflexão teológica do ‘ano do perdão’, um exame de consciência, em um ‘pedido de desculpas a fulano, ciclano etc’. Apenas a imprensa enumera episódios, não o papa. E mesmo católicos entrevistados politizaram o acontecimento, quando deveriam se manter fiéis em dizer que era apenas um reflexão ordenada por Deus no Jubileu:

https://www.theguardian.com/world/2000/mar/13/catholicism.religion

Sobre o episódio de Galileu (não há pedido de desculpas sobre o choque entre Igreja e ciência, mas um exame criterioso sobre o ocorrido e uma reflexão sobre erros específicos. É um exame teológico e histórico com uma conclusão sem condenações ou pedidos de desculpa):

7 – https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/it/speeches/1992/october/documents/hf_jp-ii_spe_19921031_accademia-scienze.html

8 – Tradução para o inglês: http://bertie.ccsu.edu/naturesci/Cosmology/GalileoPope.html

 

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