Placuit Deo, contra as ilusões ideológicas.

By | 2 de março de 2018

O mundo real é o filtro das idéias. Através do mundo real, como explica Thomas Sowell, as idéias são testadas e divididas entre boas e ruins. Em geral, ruins.

A única coisa que pode se manter mistério e demandar fé é a Revelação divina, que é o objeto de estudo exclusivo da Teologia. Mesmo assim, é no mundo real que o Mistério acontece via a Encarnação do Verbo. Exatamente por isso a Teologia não é mera especulação incapaz de se utilizar da razão para verificar o que é, ou não, parte da Revelação e merecedor de total entrega de mente, corpo e alma.

Tudo o que não é objeto da Revelação e demanda a sua cumplicidade sem o filtro da realidade é apenas uma chacota da realidade misteriosa divina, ou seja, é como uma missa negra em relação à Santa Missa, uma versão demoníaca de uma realidade gloriosa.

A predileção liberal por idéias sem qualquer passagem pelo filtro do mundo real cria, sem surpresa, uma devoção quasi-religiosa em seus seguidores. Exatamente porque sem o filtro do mundo real, essa prática é apenas uma versão distorcida da Revelação divina, demandando o mesmo ascenso por meio de fé religiosa. Mas uma fé cega, ao contrário da verdadeira fé, que age em cooperação com a razão com o mundo real como o campo de ação do Espírito.

Essa falsa fé em promessas e slogans tornam a pessoa incapaz de interagir coerentemente com o mundo real, uma vez que o campo para a experiência de vivência, o filtro das idéias, se torna apenas uma tela em branco a ser colorida por um conhecimento restrito apenas ao campo da imaginação sem ajuda da razão.

Tal experiência não deixa de ser algo gnóstico. Se a gnose não é facilmente definida, alguns pontos são identificáveis na ação gnóstica. Além do sincretismo tipológico, ou seja, a mistura do que eles acreditam ser algumas realidades (mas que quase nunca correspondem à realidade de fato pretendida), a gnose é esotérica. Por esotérico deve-se entender aquilo que é identificado apenas por um grupo que, supostamente, tem acesso à uma dimensão exclusiva da revelação. Ou seja, a gnose é sempre iniciática, não universal (católica), e aberta somente aos que tem o ‘privilégio’ de ser parte dos escolhidos para receber tal conhecimento.

No mundo de hoje, um grupo chamado de conservador tenta desesperadamente trazer o mundo de volta ao teste das idéias através do mundo real. Na consciência conservadora, a razão possibilita não só o teste do mundo, mas também o ascenso à Revelação divina. Exatamente porque a Revelação divina é marcada por um acontecimento no mundo real, a Encarnação do Verbo, Jesus Cristo. Tal relação entre fé e razão, que tanto mantém os pés no chão, como possibilita um olhar para aquilo que é ainda um Mistério, torna o conservador o verdadeiro homem que está aberto a novas idéias, mas é cético o suficiente para passá-las pelo filtro da eternidade e das evidências da experiência no mundo.

Por outro lado, o liberal é o verdadeiro ‘dogmático’ (eles usam essa palavra nesse sentido totalmente errado), que é como eles querem chamar a pessoa que intransigentemente não quer aceitar sem filtro o que eles demandam. Se você não tem acesso ao conhecimento secreto como eles; se você não aceita que as idéias liberais modifiquem o mundo sem passar pelo filtro da experiência pessoal, prática ou mística (e muitas vezes você já as passou e sabe que não funcionam), você deve ser eliminado do diálogo.

O dogma liberal se baseia unicamente em sua auto-proclamada virtude. Nesse sentido, o liberal é também pelagiano. Pelágio foi um teólogo muito influente no seu tempo (360-418AD). Quando ele começou a pregar e a espalhar seus escritos, foi considerado um futuro grande teólogo da Igreja. Porém, sua visão moral foi corrompida pela raiva que sentia dos erros que observava no clero e nos leigos. Pelágio desenvolve a idéia de que as idéia de Santo Agostinho (com quem debateu algumas vezes) sobre a salvação pela Graça Divina eram muito liberais e causavam o estrago que ele via. Ao ponto de defender que o homem não precisaria, ou precisaria muito pouco, da Graça de Deus para se salvar. Ou seja, Pelágio dava a entender que um bom homem salvava a si mesmo por suas próprias virtudes, e que apenas os fracos precisavam da Graça de Deus como a Igreja defendia.

O liberal harmoniza sua gnose com o pelagianismo como quem tem conhecimento especial que não precisa ser nem relacionado à Revelação e nem comparado ao testo da experiência pessoal ou comunitário, como ao mesmo tempo se vê revestido de tamanha virtude que nada o responsabiliza por essas idéias. Sua salvação é garantida pelo mundo que ele pretende impôr a todos.

Não muito distante disso está o farisaísmo moderno, tantas vezes visto na forma do radical tradicionalismo, que também assegura para si mesmo a salvação sem a união com o Bispo de Roma ou à Igreja. Por vezes eles têm certeza de que, na verdade, eles estão ligados à igreja, mas não o papa e quem não segue o que eles mandam. É a interpretação pessoal deles que garante tudo, e o ascenso só é necessário até onde eles determinam. No caso, algo como ‘depois de 1958 não há salvação’.

Mas o mundo moderno não é radical tradicionalista, é liberal. E a ilusão liberal demanda que todos se convertam e que o mundo se modifique conforme as suas aspirações. Tudo bem abastecido por idéias que pouco importa se não fazem sentido ou se outros desejam conversar sobre elas. Eles sabem e isso é o suficiente. Mude o mundo.

Contra essa ameaça, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) publicou um novo documento chamado Placuit Deo (Aprouve a Deus). Citando principalmente Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e os documentos do Concílio Vaticano II (ênfase na Constituição Dei Verbum), a Carta Apostólica foca no retorno à tradição explicitamente sob a guia do Papa Francisco. Especialmente o papel da Igreja na salvação diante desses novos ataques ao entendimento tradicional, aquele que é tanto ligado à Revelação como enraizado no mundo pela razão e a experiência.

A carta joga luz sobre essas novas formas de gnose e pelagianismo que se agarram ao mundo na forma de um individualismo neo-pelagiano e um isolacionismo neo-gnóstico que pretendem moldar o mundo à sua imagem.

Dentro dessa visão que molda o comportamento liberal, Cristo passa a ser apenas um bom exemplo ou bom professor, e não o Cordeiro de Deus, que transforma a condição humana completamente (§2). Tal visão exclui o Senhor do papel de mediador da Aliança da família humana (§4) que Ele torna divina.

Em sua parte IV, a carta faz um belo apanhado da História da Salvação do ponto de vista da Aliança de Deus com os homens. Toda a História da Salvação se refere a Cristo e nEle desagua para se cumprir e elevar. Finalmente, a carta chega até a Igreja que Cristo fundou (Parte V) e reafirma a Igreja como único caminho para a salvação.

A economia salvífica sacramental opõe-se ainda às tendências que propõem uma salvação meramente interior […] a verdadeira salvação, longe de ser libertação do corpo, compreende também a sua santificação (cf. Rom 12,1)” (§14).

As conclusões de um documento tão profundo, uma volta à Tradição com uma reafirmação da beleza da Sagrada Doutrina, são inescapáveis.

A principal mudança é a da alma, sim, mas não operada pela solidão do ego. A mudança real vem da Graça de Deus, e é apenas em cooperação com ela em comunhão com a Igreja que somos capazes disso. “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Da mesma forma, nenhuma ilusão de mudança do mundo desligada da Revelação, da razão ou da vivência da caridade (o amor em prática) pode ajudar o próximo no caminho para a salvação. Dessa forma, a idéia liberal de um novo mundo, construído em cima de sentimentos de um grupo de iluminados sem ao menos uma base racional e experiencial, pode até mudar o mundo, mas não para melhor. Apenas uma mudança que visa a cooperação com a Palavra de Deus é realmente racional e verdadeiramente boa.

A ilusão liberal pode até modificar o mundo ou a prática dos fiéis, mas tudo isso volta ao ponto anterior: o mundo e a família humana serão apenas uma versão demoníaca da família divina, encontrada apenas na vivência católica verdadeira.

Em tudo isso, a Santa Igreja Católica alerta os fiéis contra as atitudes que pretendem adequar a Igreja ao mundo, e não o mundo à Igreja. As condições perigosas expostas na carta somente encontram eco nas idéias liberais (e em rincões isolados do radical tradicionalismo, não na tradição verdadeira). Não são condições genéricas e difusas.

O católico deve se manter fiel à Doutrina para que, em comunhão com Jesus Cristo e Sua Igreja, ele se mantenha na verdade, pois apenas Cristo, a Verdade encarnada, salva. Nas palavras da carta apostólica “Fundamentados na fé, sustentados pela esperança, operantes na caridade, seguindo o exemplo de Maria, a Mãe do Salvador e a primeira dos que foram salvos” (§15).

Somente assim poderemos discutir na verdade e pela verdade. Somente assim a verdadeira mudança pode ser operada em nós e através de nós para o mundo. O profundo alerta da carta apostólica Placuit Deo nos chama ao bom combate contra as ideologias que visam modificar o homem sem Cristo e Sua Igreja. As que prometem um paraíso na terra sem nem ao menos passar pela experiência no mundo real. Pois muitas dessas propostas já foram testadas e terminaram em profunda dor. Elas continuam a atrair pessoas porque, nas palavras do grande G.K. Chesterton: “o ideal cristão não foi testado e deixou a desejar. Ele foi considerado difícil e deixado sem ser testado“.

Apenas a Igreja e sua Tradição trazem o que é novo e bom para a salvação, pois Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13,8); mas é o único que faz sempre tudo novo (Ap 21,5).

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

 

Carta Apostólica Placuit Deo: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20180222_placuit-deo_po.html

4 thoughts on “Placuit Deo, contra as ilusões ideológicas.

  1. Pattick

    Ótima reflexão.

    Apenas tem um errinho na citação do Chesterton. Creio que seria (na tradução que achei): “O ideal cristão não foi testado e reprovado. Ele foi considerado difícil e por isso permaneceu sem ser experimentado.”

    Também parece que a frase “O católico deve se manter fiel à Doutrina para que, em comunhão com Jesus Cristo e Sua Igreja.” ficou sem a conclusão.

    Parabéns pelo trabalho de evangelização. Tenho acompanhado os vídeos também.

    Paz e Bem.

    Reply
    1. Papista Post author

      Obrigado pelos comentários. No meio das edições alguma coisa se perdeu. Fiz alguns ajustes. Muito obrigado.

      Fico feliz que você esteja gostando. Fique com Deus.

      Abraços!

      Reply
  2. GUILHERME MILONE SILVA

    Mateus, este seu post volta a um bom ensinamento da Tradição: “in medio virtus”. As virtudes morais encontram-se entre os abismos dos vícios. Vc deu nomes conhecidos a estes vícios: pelagianismo e tradicionalismo radical.
    Fiquei pensando num terceiro vício, muito mais insidioso que se mistura à Verdade como um micróbio que irá eventualmente ofuscá-la, ou até tentar deturpá-la. Estou falando do “isentismo”.
    Isentões são aqueles que abusam da posição mediana da virtude e, sob uma máscara de benevolência, transmitem falsidades. Logo penso em figuras como Karnal ou Cortella e seus discursos melífluos e pegajosos. O segundo vem a público com a chancela de ser professor da PUC/SP na tentativa de usurpar a autoridade da Igreja.
    Usurpadores da exsucia da Igreja também são clérigos que hoje ocupam postos de mando na CNBB e realizam uma campanha da fraternidade que prega a não violência como oposição à defesa de nossa fé e a igualdade de gênero (mensagens antagônicas à Palavra, à Tradição e ao Magistério).
    Gostaria de saber seus comentários quanto a esta ameaça.

    A Paz de Cristo e um grande abraço do Tricolor que te admira.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *