O aborto na Bíblia

By | 5 de dezembro de 2017

Muito se fala sobre um conservador se basear unicamente em sua religião para condenar o aborto. No instante que as pessoas convencidas de que essa mentira é uma verdade, uma segunda inverdade é usada como uma cartada infalível contra os cristãos: “não há menção sobre o aborto na Bíblia”.

Não deveria ser necessário explicar algo básico como a infinita dignidade da vida, seja com argumentos religiosos ou não. Argumentos religiosos são tão válidos quanto quaisquer outros. Uma sociedade religiosa entende a religião como ela é: ‘religare’, que quer dizer ligar, unir. Ou seja, uma sociedade religiosa se une por sua fé. Sendo Deus e Seu amor a primeira coisa na vida de todos, a sociedade vive pela sua fé. A própria vida em comunidade se torna um constante ato de louvor a Deus, seja em atos de fé ou de caridade.

Ao contrário de uma sociedade utilitarianista, onde o que é mais conveniente no momento se torna a lei, uma sociedade religiosa tem sua base moral e prática vinda de verdades imutáveis. Para o religioso cristão, por exemplo, a escravidão pode ter sido parte do conjunto de leis da terra, mas jamais foi moralmente válida. Não é à toa que a Igreja foi a voz mais forte contra a escravidão durante a história, com dezenas de documentos papais condenando a escravidão, principalmente o uso de escravos para o trabalho forçado nas Américas.

Em todo caso, o argumento sobre o aborto na Bíblia, mesmo que fôssemos todos literalistas e precisássemos de uma citação específica para agir, não seria válido.

Infelizmente, até mesmo alguns acadêmicos tentam separar as citações sobre a vida desde a concepção da prática do aborto em nosso tempo. Examinemos a questão.

Em ‘Gn 2,7‘, Deus sopra (‘rua‘, uma linguagem descritiva do Espírito Santo) Seu Espírito e cria um “ser vivo” (uma representação não de um animal, mas de um ser dotado do sopro divino (‘nephesh hayah‘ = um sopro vivo). Ou seja, o homem não é mais um animal, mas o ápice da criação divina, o único ser dotado de uma parcela divina, a essência de Deus.

Daí em diante, temos diversas passagens sobre Deus ter “chamado a pessoa desde antes do nascimento”, ou que “Deus conhecia a pessoa desde antes da concepção”. São inúmeras passagens nesse sentido e sobre a dignidade de filhos de Deus, dotados da essência divina, desde o ventre materno (Jó 31,15; Is 44,24; Is 49,15; Sl 22,10; Sl 71,6; Sl 139,13-16, Jr 1,5; Gl 1,15 etc).

Digamos que você acredite que nada disso tem relação, que mesmo que a Bíblia cite algo como o previamente listado Salmo 71 (70),6: “Desde o seio materno tu és o meu apoio (protetor), tu és a minha força desde o ventre materno“, isso não teria nada a ver com a proibição de abortar. Mesmo que tamanha desonestidade seja apresentada e você defenda que o argumento cristão só tem valor se houver uma passagem específica sobre o aborto, não tem problema.

Antes de ler o resto deste artigo, mantenha em mente algo muito importante: a Igreja Católica é formada pelo ‘tripé’ da Sagrada Tradição, Bíblia e o Magistério. A Igreja não entende que se leia a Bíblia “fora da Igreja”, ou seja, que ela seja lida sem o auxílio da Tradição ou o Magistério para a correta interpretação. Isso implica que a Igreja mantém em sua Tradição o testemunho dos primeiros cristãos, dos seus grandes Doutores, e todo aquele que carregou sem jamais deixar cair aquilo que ouviu das gerações anteriores, a correta interpretação.

Em sua epístola aos Gálatas, São Paulo enumera vícios provocados por paixões descontroladas que são condenadas: “Idolatria, feitiçaria, ódio, rixas […]” (Gl 5,20). É preciso entender melhor esse versículo, de várias maneiras.

No original grego, São Paulo enumera: ” εἰδωλολατρεία, φαρμακεία […]” (eidolatreia, pharmakeia). O primeiro termo é simples, ‘idolatria’, mãe de todos os males. O segundo termo, ‘Pharmakeia‘, é o nosso foco.

Um dos significados de ‘pharmakeia’ é como se convencionou traduzir modernamente: ‘feitiçaria’ (ou ‘superstição’). O problema não é tanto um erro de tradução quanto a falta da explicação que a Tradição nos fornece sobre isso. Como é possível notar, da palavra ‘pharmakeia’ retiramos a palavra ‘fármaco’ (remédio). A Igreja condenava quem fazia remédios? Claro que não! A Vulgata traz uma tradução muito apropriada para o latim: ‘veneficia‘, que significa ‘veneno’ ou ‘envenenar’. Isso nos dá uma pista do que perdemos quando ignoramos a Tradição.

Os tradutores da Vulgata (o Novo Testamento na Vulgata é baseado na fonte “Latim Arcaico” e revisado por São Jerônimo, enquanto todo o Antigo Testamento foi traduzido pelo grande Doutor da Igreja) obviamente tinham acesso a fontes que não temos mais. Não só isso, como naquela época ainda deveria ser bastante claro o que se queria dizer por qualquer um destes termos, seja o grego ‘pharmakeia’, o latim ‘veneficia’, ou mesmo por ‘feitiçaria’. Para entender isso, é bom entender melhor por que São Paulo diz isso na carta aos Gálatas.

A Galácia, parte do que modernamente conhecemos como a Turquia, foi um dos territórios mais disputados por Roma. Parte da Anatólia (Ásia Menor), a Galácia fazia fronteira com a Capadócia, Frígia, e era caminho ao norte da região para se chegar à Trácia (Bálcãs) ou voltar para a direção de Israel. Desde antes da formação do Império Romano (27a.C.), Roma já dominara a Galácia nas disputas entre seus generais, até a consolidação com César Augusto.

Para se ter noção do domínio cultural romano, ao contrário de outras regiões (como Israel) que lutaram para manter a sua cultura e religião, a Galácia substituíu seu templo religioso para um tempo em que César Augusto era idolatrado. Ou seja, a Galácia era uma província totalmente romana, não só na prática, como em espírito.

É nessa circunstância que o Evangelho chega nas viagens missionárias de São Paulo. Não é à toa que a carta aos Gálatas carrega os tom mais sombrio entre as epístolas paulinas. A dificuldade de se largar os costumes romanos era enorme.

Um desses costumes era exatamente o aborto! Os romanos provavelmente herdaram o hábito de outros povos, mas devido ao seu uso descontrolado, uma planta chama ‘sílfio‘ foi extinta por eles. O que era o sílfio? O sílfio foi provavelmente uma parente do funcho, bulbo que nos dá a erva-doce. O próprio funcho foi usado como remédio. Mas não estamos aqui falando de um remédio popular, uma “garrafada” como se encontra em alguns lugares do Brasil. Estamos falando do uso bem documentado do sílfio como um abortivo, recomendado da mesma forma que a pílula anticoncepcional para consumo mensal de certas doses para se “expelir a menstruação à força”, como foi descrito.

A sociedade romana, tomada pelos males que o apóstolo descreve, estava perdida em idolatria e na desordem sexual. Como solução imediatista, o aborto era feito por meio medicinal (pharmakeia). Com o nosso distanciamento da Sagrada Tradição, perdemos a maneira ideal de se explicar o que o termo ‘feitiçaria’, usado hoje, deveria realmente demonstrar.

São Paulo não falava ali de outra coisa senão forçar o aborto por meio de venenos abortivos. Tão grande foi o seu uso no Império Romano que a planta entrou em extinção.

Junte tudo isso, e não há dúvidas sobre a condenação bíblica de todas as formas possíveis de aborto, seja por meio de abortivos químicos ou pela espada. Hoje, infelizmente, só muda a química. De uma planta para os produtos sintéticos. Da espada para o bisturi dos que juraram proteger a vida.

A única coisa que não muda é a palavra da Igreja Católica: a vida possui infinita dignidade por conter o sopro divino, fomando pessoas que, não importa seus defeitos, carregam a imagem e a semelhança do Criador. Além disso, qualquer tipo de abortivo é condenado sem meias-palavras.

Mark Twain dizia que a história não se repete, mas com certeza ela rima. Parece apropriado. Muda a forma de justificar sua vontade desregrada, mudam as desculpas e as formas de manter suas paixões sem controle, mas o resultado não muda. Sem Deus, o que temos é apenas mil e uma formas de se tentar justificar o injustificável. Mas há outra coisa em comum: todos os impérios idólatras caíram. Todas as sociedades que não controlaram seus impulsos desapareceram. Apenas a Igreja Católica, a mesma que é acusada de obscurantista por quem não deseja frear seus instintos destrutivos, se mantém. Junto com ela as palavras de sabedoria divina que não devemos jamais esquecer. O preço a se pagar é o fim da nossa civilização.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

2 thoughts on “O aborto na Bíblia

  1. GUILHERME MILONE SILVA

    “A única coisa que não muda é a palavra da Igreja Católica”. Se juntarmos o fato que a palavra da Igreja Católica é literalmente a palavra de Cristo, Deus encarnado, então não restará dúvida: a Igreja é a grande inimiga de todo idólatra do homem. É isto que está por trás da questão do aborto, do movimento LGBT, da imigração predatória, do feminismo, teologia da libertação, revolução sexual e de outras inúmeras armadilhas dos materialistas e ateus.
    Mateus, obrigado por manter este site e me dar munição para afirmar minha fé.
    Apesar de descobrir que vc é flamenguista (que pecado monstruoso aparecer no podcast com a camisa dos mulambos!), sou leitor assíduo de todos os seus posts.

    Grande abraço e saudações tricolores.

    Reply
    1. Papista Post author

      Muito obrigado pelos comentários. Feliz que o site ajuda. Fique com Deus.

      SRN! 🙂

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