Quando Deus nos testa

By | 22 de agosto de 2017

Por toda a história da salvação, vemos Deus testando o homem. Em nossa pequenez, e em meio às tribulações da vida, as verdadeiras intenções de Deus se perdem para nós. Não entendemos nem que estamos sendo testados, o que dirá da razão divina por trás do teste.

A história da salvação é o que está contido na Bíblia, a forma como a Revelação aconteceu na história. Ao mesmo tempo, ela reflete a história de cada um de nós e a nossa relação com Deus. Tudo o que lemos nas Escrituras, devemos (ou deveríamos) ponderar sobre as nossas vidas e retirar dali o sentido para os acontecimentos. Infelizmente, com a “ajuda” do mundo moderno, já começamos perdendo o sentido princial: que Deus nos ama e por isso nos testa. Como um pai que testa seu filho para que ele aprenda o que é ideal sem perder seu livre-arbítrio. Sem a noção do efeito que Deus tem sobre as nossas vidas, não entendemos Seus sinais.

De Adão até Paulo, Deus testa Seus filhos na Bíblia e espera que eles tomem a melhor decisão. Nem sempre os filhos percebem o teste. Algumas vezes a reação é de revolta ao teste ou às suas consequências. Mas Deus o faz por amor. A alternativa seria nos abandonar à própria sorte ou suspender nosso livre-arbítrio. Nada disso corresponde ao amor de Deus e é contrário à Revelação.

Outro aspecto fascinante dos testes bíblicos são a linguagem com que o autor humano coopera com o autor divino (Deus). A forma encontrada para narrar algumas dessas passagens é baseada na compreensão do homem da época. Ele não poderia compreender essas situações como a teologia pôde fazê-lo mais tarde, interpretando o que as palavras divinas transmitiam. Em geral, o que causa a maior incompreensão é a narrativa de que Deus “se arrependeu” ou “mudou de idéia”. Isso soa impossível quando se contrapõe às características de Deus, como a sua onisciência, que é a sua capacidade de tudo saber. Se Deus tudo sabe, se Ele é sempre justo, como Ele poderia estar errado antes e ser convencido por pecadores? É uma falsa contradição, mas que causa muita confusão.

Algumas passagens ilustram isso com perfeição, como quando Deus anuncia para Abraão que destruirá Sodoma e Gomorra (Gn 18,20-33). Abraão parece negociar com Deus e convencê-Lo a mudar de idéia.

Em nenhuma passagem isso fica tão claro quanto em ‘Ex 32‘. O povo se corrompeu em idolatria, e Deus anuncia que o destruirá. Moisés, então, como havia feito Abraão, parece argumentar com o Senhor e convencê-Lo a mudar. Em ‘Ex 32,14‘ vemos claramente o problema da forma com que o autor humano conseguia entender o que Deus lhe mandou escrever: “o Senhor se arrependeu das ameaças que tinha proferido contra o Seu povo“. Ora, Deus não se arrepende! O que isso quer dizer, como vimos, é tanto um problema da compreensão humana cooperando com o autor divino, quanto um sinal de que é preciso buscar outro significado.

Na verdade, o que se perde de vista é o que Deus disse no versículo 10 (Ex 32,10): “farei DE TI uma grande nação“. Deus diz que arrasará o povo e fará de Moisés o patriarca de uma nova e melhor nação. Convenhamos, seu próprio povo não deu a Moisés outra coisa a não ser dor de cabeça. Em uma situação como essa, muitos de nós cairíamos na tentação de dizer: “que ótimo, Senhor! Uma grande honra. Acabe com eles e eu farei melhor.” Mas não o grande juiz de Israel!

Algo muito simples aconteceu: Moisés também foi testado. Ao contrário do povo, ele passou no teste. Enquanto houver um justo, Deus não ferirá todo o Seu povo. O Dr. Scott Hahn aponta com toda propriedade que foi nesse momento que Moisés mais se aproximou de ser como Cristo, um ‘tipo’ (tipologia), uma sombra da realidade definitiva que é Jesus. Nesse momento, ele foi testado e venceu as tentações. Muito mais importante é que Moisés se lembrou da Aliança divina. Deus fez uma Aliança com o povo, e não poderia quebrá-la. Ao lembrar da Aliança, Moisés a vive; e vivendo, ele se torna um ‘tipo’ de Jesus Cristo ao fazer a mediação entre o povo e Deus Pai. Ao invés do orgulho, ao lembrar da Aliança e nela permanecer, Moisés experimenta o amor divino, a essência de Deus em seus dois maiores atributos: a Graça e a misericórdia. Tudo a ele foi oferecido, mas ele escolheu o caminho certo, a Aliança com Deus.

Deus não se arrependeu porque Deus não foi testado. Foi a maneira que o autor humano encontrou para descrever o que o autor divino, Deus, queria transmitir. De fato, podemos dizer que isso é outro teste. Um teste para todos nós. Como entendemos o amor divino nas Escrituras definirá como entenderemos o amor divino em ação em nossas vidas.

Quando chegar o momento, nós entenderemos o teste? Nós passaremos no teste? Haverá revolta contra Deus ou contra ser testado? Ou nos lembraremos da Aliança com Deus renovada nos sacramentos e aceitaremos agradecidos pela chance de viver plenamente o amor do Pai? Nossa reação perante os testes de Deus dita o que será da nossa vida. Se será uma vida de tristeza e amargura, ou se será uma alegria pelo sacrifício e a vivência da misericórdia do Pai. O caminho certo é a Aliança com Deus. O único caminho que garante a felicidade eterna no amor do Pai.

Que possamos estar firmes na fé e na vivência católica para que quando formos testados possamos dizer o mesmo ‘sim’ que a Virgem Santíssima disse ao Senhor (Lc 1,38), e com a sua intercessão maternal possamos passar por tudo com humildade e renovada alegria.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

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