Julgamento e misericórdia em ‘Rm 14’

By | 12 de julho de 2017

A carta de São Paulo aos Romanos é uma das mais completas entre a grande obra do apóstolo. Do cristianismo sem as leis mosaicas, passando pela justificação pela fé e a salvação aberta a todos, até a conduta do cristão em um mundo hostil e as relações pessoais dos fiéis. Dos assuntos que parecem menores até a mais profunda teologia, não falta nada no documento inspirado por Deus.

A parte final da epístola, antes das saudações pessoais e últimas mensagens, trata da vida cristã (Rm 12-15,13), a resposta do homem que, inserido no mundo, vive as bençãos de Deus como exemplo. Pode-se dizer que é a catequese moral de Paulo que vem para explicar toda a carta. Paulo havia explicado as práticas dos idólatras (Rm 1,18-32). Em sua catequese, ele distingue as práticas dos cristãos e os exorta a vivê-las na verdade.

O cristão deve viver a Palavra antes de pregá-la. Somos parte do mesmo corpo de Cristo, mas cada um com seus dons (Rm 12,4.6); temos nossas missões, mas antes de tudo somos servos uns dos outros (Rm 12,5). O exemplo de vida é a nossa melhor apologética. Se não vivemos para o amor, e viver o amor é a caridade, de nada adianta o que sai das nossas bocas (Mt 7,22-23). São Paulo vive para depois pregar, e prega para servir os irmãos e trazê-los para a eternidade no Senhor.

Ao final do capítulo 13 (Rm 13), São Paulo nos lembra que a salvação é para já! O tempo vem chegando e a conversão não pode se demorar. Isso nos traz de volta ao mesmo ponto: se já somos católicos, de que conversão estamos falando? Não basta ser cristão da boca pra fora. Tampouco basta cumprir preceitos se longe deles a sua vida não os reflete. Ou melhor, se a vida sacramental não se reflete nas suas atitudes longe da Igreja, você tem se aproximado dos sacramentos com orgulho e a sua eficácia tem sido reduzida. Na verdade, o que é mais sagrado na Igreja tem sido objeto de demonstração pública e não prática pessoal que fortalece a sua vida dali para fora.

Em sua interpretação literal, o capítulo 14 da carta aos Romanos trata das leis de alimentação judaicas e de práticas ascéticas que vinham tanto dos gregos quanto das seitas judaicas mais rígidas, como os Essênios. Foram também prática dos judeus da Diáspora, como visto em Tobias (Tb 1,10), Judite (Jt 10,5), Daniel (Dn 1,8) e Ester (Est 14,17). Práticas essas que teriam influência sobre o ascetismo católico, principalmente mais tarde no desenvolvimento do monasticismo. São Paulo exorta suas ovelhas a não forçar suas regras ascéticas nos irmãos, e nem o contrário. Desde que elas não se tornassem prática religiosa ou esotérica alheia à doutrina da Igreja, as práticas ascéticas não são um problema e nem precisam ser padronizadas. O cristão sabe das suas necessidades e, sob um exame crítico e ajuda de direção espiritual, pode adequar suas práticas ascéticas e penintenciais aos seus dons.

Teologicamente, Paulo nos chama à reflexão sobre a nossa vida em Cristo. Não julgar a prática não significa ausência de julgamento. Paulo é claro sobre o fato de que seremos julgados, mas por Deus. O julgamento divino existe, e nenhum cristão pode se afastar de sua responsabilidade de responder a isso com a sua vida. “Se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos” (Rm 14,8). Morremos pelo Senhor, mas morremos também para Deus. Morremos para viver com aquele que nos dá a vida. Morrer para Deus é ter vivido para Ele e esperar o julgamento com fé e esperança.

Se o julgamento de Deus existe, nossa missão é trazer os irmãos para uma vida mais cristã. O nosso julgamento, São Paulo ensina, causa divisão e separação entre cristãos, ou cria uma barreira entre cristãos e não-cristãos; enquanto o julgamento divino salva e separa apenas quem ama a Deus e quem escolhe não amá-Lo. Essa função não pode ser usurpada sob pena de escândalo (que é exatamente separar cristãos do corpo de Cristo ou impedir a conversão dos não-cristãos pelo mau exemplo dos ditos cristãos).

Nos primeiros dias do cristianismo, o antigo calendário da Antiga Aliança (Antigo Testamento) ainda era observado em seus dias rituais, como são os dias de solenidades cristãs hoje. Paulo não proíbe quem ainda observava certas celebrações judaicas naquele momento, mas ordena que suas ovelhas saibam distinguir o que é do Senhor (Rm 14,5) e o que não é. Somos chamados a não excluir de nosso convívio quem não comunga da nossa fé ao mesmo tempo em que afastamos a influência da falsa doutrina. Nosso exemplo de vida e fé trará as pessoas a Cristo; mas nosso julgamento colocará uma “pedra de tropeço” (Rm 14,13) que é um obstáculo moral que fará cair o fraco. A obrigação cristã é servir e trazer os fracos e deixar que não a nossa palavra, mas a Palavra do Senhor seja a pedra de tropeço para eles. Se o nosso exemplo os trouxer, mas eles se recusarem a viver a Palavra de Deus pela sua dificuldade, já não é nossa responsabilidade. Mas ai de quem afastar o irmão com a sua soberba.

Espiritualmente, São Paulo nos convoca a uma conversão profunda. A prática da caridade, seja nas palavras como na prática cristã, deve tomar conta dos nossos corações para que a vida sacramental tenha pleno efeito e nos leve à cooperação profunda com as Graças de Deus. Não é a falsa ascese, com rigidez que conduz a nada além do orgulho e prazer pelo sofrimento; mas a verdadeira ascese que é a do espírito, que converte a prática da oração e penitência em piedade real.

São Paulo cita as Escrituras em ‘Rm 14,11‘ para lembrar que Deus determinou que apenas a Ele cabe o julgamento. “Eu juro por mim mesmo, o que sai da minha boca é a verdade, uma palavra que não voltará atrás: com efeito, diante de mim se dobrará todo o joelho, toda língua jurará por mim” (Is 45,23). A mesma citação de ‘Fl 2,10‘, quando São Paulo aproxima ainda mais Cristo do oráculo de Isaías e de Sua autoridade no julgamento final.

Enfim, todos nós responderemos diretamente a Deus por nossos atos, e somente a Ele. A missão cristã é entender a misericórdia descrita na catequese de São Paulo aos Romanos. Como levar nosso crescimento espiritual à prática da caridade, aquilo que aproxima os fracos de Deus e comove os corações distantes do Senhor. Aos que julgam e se orgulham de sua suposta fé, cuidado! Seu escândalo de imoralidade e mau exemplo cristão afasta os irmãos. Se isso acontecer, o resultado do julgamento pode não ser do seu agrado. Risco esse que deve assustar a todos nós. A conversão profunda é o caminho para que o temor de Deus, o temor da distância do amor do Pai, se converta em alegria eterna em Cristo.

São Paulo, apóstolo dos gentios e da união católica (universal), rogai por nós.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

            um Papista

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *