A oração do Pai Nosso e o Hapax Legomenon

By | 14 de junho de 2017

Você sabe o que é um Hapax Legomenon? Antes que você pense que é alguma ofensa, vamos entender.

Hapax Legomenon (daqui pra frente escrito neste artigo apenas como HL) é o nome dado a uma palavra que só aparece uma vez em uma obra, conjunto de obras de um autor etc.

A Bíblia possui diversos HL (‘legomena’ no plural). Calcula-se que o Antigo Testamento tenha entre 1500 e 1700 HL, enquanto o Novo Testamento aproximadamente 700.

Qual é a relevância disso? A Bíblia foi escrita em 3 línguas que não permaneceram iguais: Hebraico e Grego bíblicos são diferentes das suas versões atuais, e o Aramaico é uma língua praticamente usada apenas em liturgias por alguns povos. O problema é que, com a evolução das línguas, alguns HL não encontram similares fora da Bíblia. Alguns são encontrados em outros textos, outros evoluíram para se tornar palavras muito usadas hoje em dia. Porém, certos HL não possuem referência alguma fora da Bíblia. Ou seja, não há elemento de comparação. Logo, fica muito difícil saber o real significado dessas palavras milhares de anos depois sem buscar ajuda.

O que nos ajuda a resolver esse problema? A tradição. Apenas a tradição é capaz de nos guiar nessa questão. Por exemplo: verificando o que um dos gigantes da patrística escreveu sobre uma passagem bíblica que contém um HL podemos ter a certeza de que ele sabia algo que nós hoje, mais de mil anos depois, não sabemos. Em primeiro lugar, ele tinha acesso a textos que se perderam. Depois, essas pessoas eram parte da sucessão apostólica da Igreja; discípulos dos apóstolos; e sabiam o que se queria dizer naquelas passagens porque aprenderam das fontes primárias. É outro motivo pelo qual a pesquisa moderna, quando desrespeita as fontes tradicionais, falha fragorosamente.

Uma curiosidade: talvez o HL mais famoso da Bíblia seja um que está exatamente no PAI NOSSO. Sim, a nossa oração mais linda e santa, ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo, contém um dos mais complexos HL da história. É a palavra ἐπιούσιον, EPIOUSIOS, traduzida para o português como “de cada dia” no verso “o pão nosso de cada dia”.

Essa palavra, Epiousios, não existe fora do Pai Nosso. Apenas lá! Isso trouxe complicações para as traduções e cópias dos originais de geração em geração.

A parte boa? É que a Igreja Católica tem uma Tradição inquebrável, uma sucessão apostólica, e os melhores pesquisadores do mundo. Mas o melhor de tudo? A tradução correta da palavra confirma a própria Tradição da Igreja.

Epiousios foi traduzido por São Jerônimo de duas formas diferentes na Vulgata. Em ‘Mt 6,11‘, São Jerônimo traduziu para “Supersubstancial” (supersubstantialem). Ou seja, ele divide a palavra em duas: epi + ousia = super + substância. Enquanto em ‘Lc 11,3‘, Jerônimo traduziu para “diário” (quotidianum), que usamos para chegar ao “de cada dia”. Quotidianum (diário) é a tradução usada para a liturgia.

Vale examinar o motivo de se traduzir no Evangelho segundo São Mateus para “Supersubstancial”. “Ousia” significa “substância” ou “essência”. Nós vemos o uso prático dessa expressão na teologia trinitária. Na Santíssima Trindade, as três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) são CONSUBSTANCIAIS, ou seja, da mesma substância e essência. Três pessoas, uma só substância (Homoousios).

Isso nos dá fortes evidências para confirmar que Cristo já estava ensinando sobre a EUCARISTIA! É uma oração eucarística, e isso fica mais claro ainda na Sagrada Liturgia. A Igreja entendeu isso desde sua fundação por Cristo. Apenas algumas pessoas, com a “ajuda” da pesquisa moderna, esqueceram e “humanizaram” o verdadeiro significado para parecer um mero agradecimento ao alimento recebido todo dia. Que é válido, mas está longe de ser o principal. Não se pode deixar de ensinar a visão teológica. Isso afasta o povo de Deus do assombro do Mistério, da verdade da Salvação em Cristo, o Mistério Eucarístico.

O Dr. Brant Pitre, em seu estupendo livro “Jesus and the Jewish Roots of the Eucharist: Unlocking the Secrets of the Last Supper”, constrói o caso de que além de “supersubstancial”, outra tradução aceitável para epiousios seria simplesmente “supernatural”. Seria outra indicação de que Cristo não se referia apenas ao pão de cada dia no sentido do alimento para o corpo, mas à Eucaristia, alimento para o espírito.

Além de São Jerônimo, quase todo Pai da Igreja que comentou sobre o caso concordava com essa interpretação eucarística. Especialmente o grande Santo Agostinho. Isso foi confirmado e reintroduzido na discussão pelo Papa Bento XVI em sua obra-prima “Jesus de Nazaré”.

Outro pai da Igreja, Orígenes, entendia como “o pão necessário para a nossa vida”. Isso tem profundas implicações teológicas, e não deve ser tomado como o escrito de um historiador ou linguista. De forma alguma isso desabona a interpretação do Pai Nosso com referência à Eucaristia.

Fechando o caso para um entendimento eucarístico do Pai Nosso, fazemos o que todo católico tem a obrigação de fazer: ler o Catecismo da Igreja Católica (CIC) e usá-lo como referência. Sua riqueza nunca deixa de impressionar. No CIC, item 2837 (parte da belíssima interpretação da Igreja para o Pai Nosso), é apresentado o caso para uma tripla interpretação:

– sentido temporal: uma repetição pedagógica do ‘hoje’. Aqui o CIC cita uma passagem do Livro do Êxodo (Ex 16,19-21) em que Moisés ordena que ninguém guarde o Maná do Céu para o dia seguinte. Isso indica que Deus proverá.

– sentido qualitativo: o que é necessário para a vida. O CIC baseia essa interpretação na Carta de São Paulo a Timóteo (1Tm 6,8): “tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isso”. Significa dizer que tendo o pão de cada dia, físico e/ou espiritual, temos que desejar menos para nos saciar mais com o amor do Pai. Note que é também a visão de Orígenes, como vimos antes, e de forma alguma meramente física.

– sentido literal: é a visão “supersubstancial”, eucarística. O CIC fala da Eucaristia, o Pão da Vida, o “remédio da imortalidade”.

Leia o Catecismo e a interpretação de toda a oração do Pai Nosso (2777 até o final do Catecismo). É um espetáculo edificante.

A presença de Hapax Legomena na Bíblia vai muito além de mera curiosidade. Há muito o que encontrar nas Escrituras por meio de uma boa exegese. É quase como ser um detetive buscando pistas edificantes pelas letras sagradas. Isso estimula o cristão a ler as Escrituras e a entender a mensagem do Pai. Só não se pode perder de vista que é muito mais que um exercício de interpretação. No caso do HL no Pai Nosso, isso serve para nos confirmar aquilo que a Igreja sempre ensinou: que Jesus instituiu a Eucaristia, o Pão da Vida, caminho para a nossa salvação. Para recebê-la devemos estar prontos e rezar; e ao recebê-la devemos louvar a Deus e agradecê-Lo por tamanha benção. Assim Cristo nos ensinou na oração mais bela e perfeita.

Caminhemos para o entendimento e vivência que façam as Escrituras serem exemplo vivo em nós. Uma vivência eucarística de estudo e ajuda ao próximo.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

4 thoughts on “A oração do Pai Nosso e o Hapax Legomenon

  1. Alink Rios

    Um artigo muitíssimo bem escrito e que nos desperta a fé. Obrigado e parabéns pelo trabalho.

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