O Jubileu e a Doutrina Social da Igreja

By | 4 de Abril de 2017

Se você perguntar a muitos católicos, eles dirão que a Doutrina Social da Igreja tem origem com o advento da grande encíclica do Papa Leão XIII, Rerum Novarum (Rerum Novarum: sobre a condição dos operários), de 1891.

A Doutrina Social da Igreja ganhou novo vigor, entendimento, atenção, e organização depois da belíssima encíclica, sim, mas as bases reais da Doutrina Social da Igreja (DSI) vêm de Deus!

Se preparando para o novo milênio que viria, São João Paulo II nos lembrou que a origem da DSI está no Antigo Testamento. Especificamente nos livros do Levítico (Lv 25) e do Deuteronômio (Dt 15). É a Aliança do Jubileu!

Na Bíblia, o número sete representa o que é sagrado. Mais especificamente, o 7 é o símbolo da Aliança divina entre Deus e Seus filhos, todos nós. O primeiro sinal disso é o Sabá, o sábado (a partir do Novo Testamento, se entende que é o domingo. Não mais o último dia, mas o primeiro dia da semana, pois “o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” – Mc 2,27).

A cada sete dias o homem deve descansar e santificar o dia para o Senhor, comemorando assim, a Aliança divina. É o dia de participar do sacrifício pascal e iniciar uma nova semana com as bençãos de Deus.

Do sétimo dia, passamos para o sétimo ano (Lv 25,3-4). Durante seis anos o homem trabalharia e no sétimo ano descansaria. Daí vem o termo “ano sabático”, pois é um ano que é um grande Sabá, o domingo dedicado ao Senhor. Um ano para renovar a fé e recarregar as baterias espirituais para voltar ao trabalho.

Do sétimo ano, passamos a sete vezes sete anos (Lv 25,8-55). Por 49 anos trabalhamos e damos graças no Sabá, nosso domingo. O quinquagésimo ano será o jubileu.

No ano do jubileu, o homem deveria:

– perdoar as dívidas

– libertar os escravos: era comum na época se tornar um escravo por não conseguir pagar suas dívidas. Essas pessoas deveriam ser libertadas porque suas dívidas seriam perdoadas.

– devolver as terras tomadas por dívidas. Se alguém gerisse mal as suas terras e finanças, outro recebia as terras como restituição. Em uma economia agrária, isso significava que aquela família estava condenada à probreza perpétua. No jubileu, as terras deveriam ser devolvidas pelo perdão das dívidas. Dessa forma, a família deixaria a pobreza absoluta, sem chance de melhoria.

Em suma: a Aliança do Jubileu consiste no que Jesus mais tarde explicaria: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). No contexto do jubileu, isso significa mais do que apenas ser caridoso com bens materiais. É a caridade espiritual do exemplo divino, como ensinou Jesus.

Deus retirou Israel da escravidão no Egito (o Êxodo), deu aos Seus filhos terra e cumpriu o juramento da Aliança Abraâmica da terra prometida (Gn 15). Israel foi retirado da servidão, e recebeu a possibilidade de crescer como povo e cada um como pessoa, tementes a Deus e livres. Agora é a hora de usar o Dia do Senhor como reflexão e fazer o mesmo pelo próximo.

Ou seja, o jubileu é um reflexo do amor de Deus para com Seus filhos, um “Êxodo espiritual”. O que nós aprendemos e recebemos do amor de Deus se torna nossa obrigação para com o nosso próximo, como Cristo nos ensinou.

O pobre

Para o judeu da época, o pobre era um irmão (achikha) que precisava de ajuda. Cuidar dos pobres não era “justiça social”, mas impedir que um irmão caísse na necessidade extrema. Acima de tudo, o pobre necessitava de uma maneira para evitar que sua saída da necessidade fosse temporária. Por esse motivo, a terra era o seu bem mais precioso.

O que Deus fez ao Seu Povo, a pessoa deveria fazer com os irmãos em necessidade. O jubileu é o “imitatio Christi“, a imitação de Cristo em nossas vidas: por amor recebemos, por amor faremos pelo próximo.

Note que o profeta Jeremias (Jr 34,12-18) diz explicitamente que o cativeiro babilônico foi causado pela profanação da Aliança do Jubileu! Ao falhar em viver o amor de Deus, a caridade, o homem se torna um escravo espiritual. É a escravidão do pecado. O que vem em seguida é a ruína no mundo, um mero reflexo do que vem depois, a queda que nos tira do caminho da salvação.

Não é por acaso que a DSI foi entendida por gente como Hilaire Beloc e G.K. Chesterton como um chamado à caridade cristã. Isso porque a encíclica ‘Rerum Novarum‘ é um convite a olhar para a Tradição cristã, a tradição da Igreja, adquirida da tradição judaica e aperfeiçoada em Jesus Cristo. Um convite a não se enganar pelas promessas de salvação na terra sem a Palavra de Deus. Não há nenhuma instância da DSI que não seja voltada para Deus e o amor divino na prática da vivência cristã, a caridade. O resto é idologia travestida de cristianismo.

Em seu terceiro parágrafo, a encíclica do Papa Leão XIII condena o socialismo. Exatamente porque as idéias marxistas terminam por retirar do homem aquilo que é sagrado e elemento primário da vida cristã: a sua terra. Simbolicamente, a ‘propriedade privada’. Mesmo a roupagem moderna, mera atualização dos erros anteriores na forma de “uso social da propriedade”, não é mais do que uma forma de retirar do homem o que é seu por direito divino, evitando que ele a use como quiser. A história da salvação é um espelho da nossa possibilidade de escolha, o livre-arbítrio que permite ao homem dizer “não” a Deus. Sem essa possibilidade, o nosso “sim” não é amor. Sem amor, não há caridade, o amor em ação. Ao homem é dado o direito de fazer o que quiser com a sua propriedade. A nossa obrigação é educar as nossas crianças para serem tementes a Deus. Dessa forma, elas mesmas escolherão seguir o Senhor e ser caridosas com os frutos do seu trabalho para ajudar os irmãos em necessidade. A única saída real do problema da pobreza é a preservação da propriedade e a educação cristã.

Toda DSI é baseada na infinita dignidade humana. Só existe dignidade se ao homem é resguardada a inviolabilidade da sua terra. Por outro lado, é uma obrigação do homem ajudar os irmãos em dificuldade. Sobre esses pilares se ergue a doutrina social da Igreja. Nenhum sistema econômico, mesmo um sendo superior ao outro, é capaz de resolver, por si só, o problema social do homem. Apenas com a educação cristã a ação do homem será justa e boa o suficiente para que ninguém durma com fome ou sem a possibilidade de se reerguer.

É a profunda verdade da Aliança do Jubileu em ação. Isso não terminou com a Nova Aliança em Cristo. Pelo contrário, como tudo no Antigo Testamento, ela foi confirmada e aperfeiçoada em Jesus Cristo! O que era verdade sobre o jubileu é ainda mais claro e perfeito hoje. A diferença é que o homem antigo necessitava de uma disciplina rígida para se manter fiel à lei. Não que o homem moderno não precise. A profunda queda moral da modernidade mostra como a disciplina dada por Deus ao povo no AT seria muito bem-vinda. Porém, desde a vinda de Cristo, a intenção divina foi mostrar que o homem está preparado para carregar o seu fardo e arcar com a sua responsabilidade. Hoje não podemos alegar ignorância. É a nossa obrigação não esperar por mais nenhuma manifestação para cumprir nossos deveres. Inclusive os do jubileu!

Alguns títulos de livros são absolutamente perfeitos. O franciscano Andrew Apostoli escreveu um belo livro chamado “What to do when Jesus is hungry” (O que fazer quando Jesus tem fome). Baseado nos ensinamentos do Evangelho segundo São Mateus, não podemos mais considerar que um irmão em necessidade é apenas um estranho. Aquela pessoa é Jesus! E o Senhor nos cobrará pelos momentos em que ele tinha fome e nós não lhe demos de comer (Mt 25,35-46)!

Há muito mais a falar sobre a doutrina social da Igreja (DSI), e não é a intenção deste artigo tentar encerrar a questão. Muitos reclamam de falta de um planejamento econômico claro da DSI. É a falta de compreensão do que é a Igreja e do que ela fala quando expõe a sua doutrina social. A Igreja oferece as bases morais e o caminho para uma convivência mais digna baseada na Revelação e na sabedoria da observação milenar da Igreja e sua Tradição em ação. Muitos impérios caíram, sistemas econômicos e organizações sociais falharam, mas a Igreja segue firme e aconselhando uma simples disciplina cristã sobre os atos que se refletem sobre a economia.

Em suma, para que um sistema de organização social e econômico seja bom e justo, ele deve observar o que a Santa Mãe Igreja ensina. É um caminho ensinado por Deus e confirmado por séculos de Tradição entre experiências que, sozinhas, se mostraram incapazes de cumprir suas promessas.

A grande questão, no entanto, continua sendo: “o que EU posso fazer sobre isso?”. Nesse ponto, não há um guia melhor do que a Igreja e a sua DSI. Que a Aliança do Jubileu possa iluminar nosso caminho para uma sociedade que estende a mão para o irmão, mas não lhe tira a terra ou a liberdade de escolha. Porque nossa escolha deve ser sempre a ‘imitatio Christi‘, a imitação de Cristo, que é bom e manso de coração. Esse é o caminho para ajudar a quem tem fome. Porque Cristo é o único que nos ajuda a matar a fome do corpo e alimenta o nosso espírito.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

 

* livro do franciscano Andrew Apostoli, um grande especialista na aparição de Maria em Fátima: https://www.bookdepository.com/What-Do-When-Jesus-is-Hungry-Father-Andrew-Apostoli/9781586174491?ref=grid-view&qid=1491177488480&sr=1-3

8 thoughts on “O Jubileu e a Doutrina Social da Igreja

  1. Guilherme Milone Silva

    Mateus,
    Muito obrigado por esclarecer a DSI de forma tão radical (utilizando as raízes do AT). Vc não tem ideia de quanta gente distorce os ensinamentos da Igreja Católica com o propósito de submeter o Cristianismo a uma perspectiva imanente. Querem na verdade é destruir nossa religião e instalar a ideologia socialista. O importante é conhecer bem nossa tradição. Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos.
    Quanto ao artigo sobre Giordano Bruno, vai mais um exemplo de manipulação secular. Outro dia tentei ver a refilmagem da série Cosmos de Carl Sagan. Nesta nova versão o astrofísico Neil deGrasse Tyson apresenta, logo no primeiro capítulo, o crime do obscurantismo religioso ao “cientista” Bruno. Sabendo que Tyson é um homem de capacidade intelectual, só se pode concluir que age de má-fé. Parei de assistir antes dos primeiros 30 min do primeiro episódio.
    Fique com a Paz de Deus

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    1. Papista Post author

      Muito obrigado pelas palavras. A DSI, como tudo da Igreja, é uma parte importante do plano de Deus para a nossa salvação. Infelizmente, foi um dos aspectos mais abusados por gente maliciosa. O que acontece é que a reação de quem viu tanto abuso pode acabar sendo torcer o nariz para qualquer menção da DSI, o que também é errado. Ou seja, é importante que hoje nós encontremos a verdadeira DSI, raspemos os abusos fora, e abracemos a parte boa e ortodoxa da doutrina. É o equilíbrio que vem com o estudo das raízes e desenvolvimento correto da doutrina. Espero ter ajudado.

      Sobre o artigo no Senso, você tem razão. Infelizmente, a nova série Cosmos é um panfleto do ateísmo militante mais bobo. Uma pena. Esse tipo de coisa se tornou simplesmente política travestida de ciência, o que é uma pena.

      De novo, muito obrigado pelas palavras.

      Fique com Deus! Abraços!

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  2. WANDERSON

    Papista, gostei imensamente de seu site. Também conheci devido ao texto no Senso Incomum sobre Giordano Bruno.
    Vou imprimir agora a Rerum Novarum para estudar mais à respeito da DSI e acompanhar este blog, que como católico, significou mais uma “porto seguro” para mim.
    Obrigado e parabéns !

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    1. Papista Post author

      Muito obrigado. Espero que você encontre muita coisa que goste. Vamos trabalhando para espalhar a Palavra de Deus, corrigir enganos, e refutar mentiras.

      Fique com Deus.

      Abraços!

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    1. Diógenes

      Excelente!!! Alguém precisava dizer isso à Rede Globo, que insiste em afirmar que Giordano Bruno foi vítima da Inquisição…

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      1. Papista Post author

        Muito obrigado! Pois é. Nós vamos fazendo a nossa parte, e quem sabe um dia um número suficiente de pessoas fará barulho suficiente para calar esse tipo de mentira que a imprensa espalha sobre a Igreja.

        Fique com Deus.

        Abraços!

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