O Natal é para o ano todo. Comentário sobre “Mt 1-2”.

By | 26 de dezembro de 2016

O Natal do Senhor – Evangelho de São Mateus (1-2) – comentários em teologia bíblica: uma mensagem profética de amor cumprida em Cristo.

Cada Evangelho tem uma ênfase em um aspecto da Boa Nova (euangélion, evangelho). Mesmo os chamados ‘sinóticos’ – Mateus, Marcos e Lucas, que assim são chamados por têm muito em comum, daí ser possível extrair deles uma síntese – têm focos diferentes. Por vários motivos. Além do aspecto da inspiração divina, entra em consideração para a análise histórica a intenção do evangelista, o ‘público alvo’ (a quem eles se dirigem inicialmente, visto que cada evangelista se dirigiu a um público e uma região diferente) etc.

O Evangelho de São Mateus é chamado de “o Evangelho do Reino”. Por quê? Não só pela ênfase do evangelista na mensagem do Senhor sobre a salvação e o Reino dos Céus (o principal), mas também porque Mateus falava primeiramente aos seus irmãos judeus. Versado em Aramaico, Hebraico e Grego, o evangelista demonstra um incrível domínio da linguagem e do Antigo Testamento.

Seu evangelho se inicia com um ‘prólogo’, que ocupa metade do primeiro capítulo. A razão do prólogo é estabelecer a linhagem davídica de Cristo, como profetizado no Antigo Testamento. Os judeus a quem Mateus se dirigia reconheceriam imediatamente essa linhagem, e dela sabiam que sairia o Messias. Por essa razão, o evangelista apresenta uma genealogia (toledoth). Pode parecer estranho para o leitor moderno, mas é preciso entender o contexto histórico e religioso para se entender a construção genial dos evangelhos. Uma ‘toledoth‘, uma genealogia, era absolutamente comum e esperada pelos judeus para entender as famílias, manter as linhagens das tribos de Israel, e com isso manter sua cultura e atenção às professias.

Outras coisas seriam imediatamente notadas por um judeu da época, e hoje só com o estudo se pode notar: Mateus descreve 14 gerações de Abraão até Davi, 14 gerações de Davi até o exílio babilônico, e 14 gerações do exílio até Cristo. Se para nós isso não parece mais do que uma mera coincidência numerológica, para um judeu isso saltaria aos olhos! Não entrarei em detalhes linguísticos, até porque não é a minha área, e nem objetivo deste resumo. Mas, trocando em miúdos, é fácil entender. Em hebraico (ou pelo menos o hebraico da época), assim como em latim, não existem números. Letras são usadas como números. Hebraico não tinha vogais, elas apenas aparecem em transposições fonéticas etc. Resumindo: Davi se escreve D-V-D. “D” (daled) tem valor de 4, e “V” (vav) tem valor de 6. Ou seja, o nome de Davi (4+6+4 = 14) tem ligação com o número 14. Isso não seria mero detalhe para o judeu que entendesse a narrativa. Ele automaticamente notaria muito mais elementos que reforçariam a descendência real de Cristo. Era fundamental que isso fosse enfatizado no evangelho dirigido aos irmãos judeus, e Mateus o faz com maestria. Há muito mais para se notar, seja na gematria simbolizada nessa primeira parte da narrativa, como na teologia, mas, para cumprir o objetivo proposto aqui, nós passaremos adiante.

A narrativa do nascimento do Senhor começa na segunda parte do primeiro capítulo, chamado tradicionalmente de “Origem Divina do Messias” (não existe um título nas Escrituras, apenas para se localizar as narrativas a Tradição costuma dar nomes).

Maria estava prometida a José em casamento (1,18). Quando José soube que Maria estava grávida, sendo homem justo (santo), resolveu abandonar sua noiva em segredo (1,19). Por quê? Um noivado como esse poderia durar meses. Durante esse tempo, a noiva engravida? Era um direito do noivo não só romper o noivado publicamente, mas com isso ajudar a condenar Maria por adultério. Homem santo, José resolve não condenar Maria a um julgamento que acabaria com a sua vida. Uma atitude extremamente difícil naqueles dias, já que não seria nem bom pra ele apenas sumir e deixar tudo por isso mesmo. Graças a Deus, José não estava pensando apenas em si mesmo.

Eis que o anjo do Senhor aparece para José (1,20) e diz que o filho de Maria foi concebido pelo Espírito Santo (após o ‘Fiat‘ de Maria, o seu ‘sim’: “Eis aqui a serva do Senhor. Aconteça comigo segundo a Tua Palavra” – Lc 1,38). Além disso, José devia receber Maria como sua esposa como estava planejado, e deveria dar o nome de Jesus (Deus salva) ao menino. Tudo para se cumprir as profecias, algo que um estudante da Teologia da Aliança como eu trata como um trabalho sagrado, mas também gratificante como o trabalho de um detetive das Escrituras. O anjo cita especificamente Isaías (Is 7,14; 8,8), leitura que nos acompanhou durante o Advento do Natal. Isso mostra também a promessa sobre ‘Deus conosco’ (Emanuel) que, com o nascimento de Cristo, se torna definitivamente o Deus que salva (Jesus).

O Evangelho de Mateus não detalha a Anunciação, o nascimento, a infância do Senhor, e a vida de Maria, com a mesma riqueza do evangelho de Lucas (que certamente recebeu essas informações diretamente de Maria Santíssima), mas ele nos oferece a visão mais completa sobre o que acontecia ao redor do nascimento de Cristo, e o cumprimento das profecias.

Alertado pelos magos, Herodes chama os sumo sacerdotes (lembrando que o Sinédrio estava ‘de facto’ sob o controle dos Saduceus, que viviam em conluio com os regentes da época) e demais intérpretes das Escrituras que ele pôde encontrar, e eles confirmam a profecia de Miquéias (Mq 5,1-3) sobre o local de nascimento do salvador.

Nasce o salvador. Ele é adorado por magos e pastores. Note que, na época de Cristo, pastores não eram exatamente bem vistos, e magos menos ainda. A simbologia aqui, ao contrário de interpretações marxistas, é que Cristo não veio para salvar uma casta social, mas os humilhados e oprimidos pelo pecado. É o pecado da idolatria que torna os magos indesejáveis, e é a humilhação de quem não olha pelo seu irmão em situação ruim que termina com a verdadeira vivência cristã. Mas Cristo veio para todos, e somente a fé n’Ele é o motor da conversão.

Mais duas profecias são cumpridas em Cristo.

O profeta Oséias falava da prefiguração da salvação do Senhor na forma da saída do povo da escravidão no Egito (Os 11,1).

Jeremias (Jr 31,15) profetizou a prefiguração dos horrores causados por Herodes, em que as mães de Israel chorariam novamente por seus filhos assassinados.

Há uma terceira prefiguração, feita no livro dos Juízes, em que a mulher de Manué recebe a visita de um anjo que conta que seu filho não correrá perigo, pois ele, um nazareno, livrará Israel do mal. É uma outra prefiguração de Cristo, perfeitamente entendida pelo evangelista, e assim explicada para os judeus, que entenderiam na hora a citação sobre Jesus de Nazaré.

O Natal do Senhor cumpriu as escrituras! Com isso, o Senhor veio para nos trazer a possibilidade da salvação por Seus méritos e Seu amor. Amor tão grande que foi capaz de descer até nós, dividir nossa situação, viver entre os pecadores, e morrer da forma mais terrível pela nossa salvação. Por todos! Basta abrir seu coração para o Senhor.

Ontem nós celebramos a vinda do Messias, o menino Deus que trouxe alegria infinita ao mundo. O dia do Natal do Senhor passou, mas lembremos que essa esperança nunca morre, já que até nosso último momento podemos aceitá-Lo e viver em Seu amor por toda a eternidade. Nas palavras do grande Hans Urs von Balthasar, o nascimento do Senhor é exatamente a invasão da eternidade no tempo.

O Natal do Senhor é o nascimento do amor em todos os dias de nossas vidas. Abrace o amor natalino não só no dia 25, não só na reunião com boa comida, mas durante todo o ano, durante toda a vida.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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