Santo Ambrósio, fé e santidade: o amor que converte os corações.

By | 6 de dezembro de 2016

Non in dialectica complacuit Deo salvum facere populum suum” – Santo Ambrósio.

 

Fé e o exemplo de uma real vivência cristã são elementos contagiosos. Eles deixam sua marca nas pessoas de uma forma tão forte como nenhum argumento brilhante conseguiria!

É refletindo sobre isso que eu me pego voltando novamente para o grande Ambrósio, bispo de Milão e Doutor da Igreja. A força de sua fé transcende mera retórica, provas físicas, argumentos elaborados, ou qualquer coisa que possa encantar a mente humana. Seu melhor argumento não foi mais importante do que a sua incrível demonstração de fé. Foi isso que convenceu Santo Agostinho.

Me veio à cabeça essa citação no começo do artigo, lida em “De fide ad Gratianum Augustum“. Essa frase também é citada pelo Beato John Henry Newman (em “A Grammar of Assent“), que igualmente encontrou em Ambrósio um exemplo de fé para a sua conversão.

Na frase, o grande Doutor da Igreja mostra, sem meias palavras, que não há nada que a mente possa alcançar que mude o fato de que apenas a fé e o amor mudam os corações e movem as pessoas para perto de Deus: “Não foi por lógica que Deus resolveu salvar Seu povo”.

Apenas algumas pessoas conseguem construir algo tão profundo em uma frase tão direta! O curioso é que foi exatamente esse tipo de demonstração que converteu dois dos maiores gênios da história, Agostinho e Newman. Não foi pelos brilhantes argumentos, mas por amor e fé.

Uma das minhas frases favoritas é de Santo Agostinho: “crede ut inteligas“, que quer dizer ‘acredite para poder entender’ (a Deus). Além de ser uma frase cunhada pela experiência pessoal de Santo Agostinho, sempre me soou como algo vindo do incrível impacto que Ambrósio teve em sua vida. Santo Ambrósio, ainda que genial, não poderia convencer Agostinho apenas com argumentos. Ainda que poderosos, seus argumentos apenas abriram uma fresta para que o futuro santo de Hipona tivesse curiosidade e honestidade para buscar o Deus que compele alguém como o bispo de Milão a ter tamanha fé.

A vivência cristã é o melhor testemunho de fé que alguém pode dar. A melhor apologética vem do exemplo! Não é ganhar argumentos, mas corações.

O exemplo é razão suficiente para que a pessoa creia! Se não de imediato, o exemplo é a única coisa poderosa o suficiente para que a pessoa dê uma chance ao que ela hoje despreza ou ignora.

Tenho dezenas de amigos que hoje buscam ou lutam com a fé. Cada vez menos me sinto compelido a apresentar grandes argumentos teológicos ou filosóficos. A maioria dessas pessoas já estudou o suficiente, e não encontrou as respostas. É porque as respostas não estão em fatos científicos, silogismos, ou na retórica. As respostas estão naquilo que preenche o ‘vazio no coração em forma de Deus’, como se tornou comum formular uma reflexão de Blaise Pascal!

A resposta é a santidade! É o santo que muda o mundo! É o exemplo de quem vive uma fé radical e contracultural. Fé radical não é o mesmo que extremismo religioso. É a entrega ao amor de Deus em todos os aspectos da sua vida. É trazer Deus para a sua vida e perceber a incrível diferença que ele pode fazer. Depois você pense em entender. Crede ut inteligas! Deixe Deus entrar em sua vida e agir em você.

Se a santidade é o sinal a ser seguido, o milagre é a transformação! Deus operará milagres em sua vida. Os mais simples são os melhores. Deus te permitirá focar na alegria de viver apesar de todas as dificuldades. Se alegrar com as pequenas coisas, e não se preocupar por não ter mais. Em suma, parar de substituir a alegria da fé com coisas que não preenchem o coração.

O Beato Cardeal Newman nos clarifica o que é consentimento. Ele divide entre consentimento nominal (ou de noção), e consentimento real. O primeiro é apenas a noção de que algo é verdadeiro. Mas apenas o segundo é o que vem com a vivência. Quer dizer, você pode acreditar apenas parcialmente em algo que você não pode experimentar, e apenas algo vivido tem o seu real consentimento, ou seja, o seu total comprometimento.

De forma extremamente simplista isso seria como você acreditar que possa existir um carro, mas apenas se comprometer com a existência de tal veículo depois de experimentar um carro e sua utilidade.

Para o cristão, você pode entender o que é a noção do bem e do amor,  concordar com elas, e tentar viver por elas. Mas apenas quando você experimenta a verdadeira caridade, seja sua com outros ou de outros com você, é que você realmente vive o bem e o amor, e deles não quer sair. Da mesma forma, Deus só pode ser entendido depois que for vivido. Sua aceitação deixa de ser uma noção e passa a ser real! Convencer a mente é bom, mas convencer o coração é ainda melhor!

Chesterton, como sempre, resumia perfeitamente: “Deixe que sua religião seja menos uma teoria e mais um caso de amor

Deus só será real para você se for vivido. Sendo vivido, Ele é entendido em sua plenitude. Como disse o Papa Bento XVI em sua primeira encíclica, ‘Deus caritas est‘: Deus é amor! Amor vivido é a caridade, e a caridade é o amor em ação. Em todas as formas práticas que a caridade pode tomar, ela sempre será uma das experiências mais próximas do amor do Pai que nós teremos na vida terrena.

A experiência mais próxima do amor de Deus é o outro símbolo da caridade: a vida sacramental!

Os sacramentos são as expressões máximas do amor de Deus. Os sacramentos não são apenas símbolos! Eles são o amor de Deus em ação! A Eucaristia, símbolo da Nova Aliança, é puro amor em ação. É a vivência máxima do sacrifício divino pelos filhos, e amor maior não pode haver.

Ainda que cheguemos à Eucaristia apenas depois de tentar entender, de presenciar a caridade em ação, é através dela que vivemos a caridade em sua plenitude. É a Eucaristia que nos impulsiona à vida em Cristo. É o sacrifício do Cordeiro, o amor de Deus, operando um milagre em nossas vidas. Acredite para se abrir à Eucaristia! Tudo fará sentido em sua vida.

Por que a Eucaristia como centro da vivência cristã e expressão máxima da caridade? Porque a Eucaristia é o começo da caridade; é exemplo do amor máximo de Cristo; é a fé que, embora mistério em sua totalidade, é capaz de agir e se mostrar amor agora. Por fim, a Eucaristia é a plenitude que viveremos em sua totalidade na outra vida. É o amor de Cristo aqui, agora, e no futuro no céu! É, literalmente, o melhor dos dois mundos! É a expressão da caridade como amor do Cordeiro em seu sacrifício salvífico, e a comunhão com a plenitude divina na salvação.

Santo Ambrósio sustentou seus argumentos frente à maior mente do seu tempo (ou de todos os tempos), Santo Agostinho. Mas foi sua santidade e fé que operaram o maior milagre de todos: transformar um pecador em um santo. Um caminho aberto a todos nós. Basta que mudemos nossas prioridades, retirando da noção para o real; dos argumentos para o exemplo de fé e santidade; do teórico para o amor em ação que é a vivência cristã.

Como disse Santo Ambrósio, não foi por causa da lógica que Deus resolveu salvar Seu povo. Foi por amor! É pela demonstração de fé, espiritual e prática, que os corações são tocados! Isso não é um convite para que você pare de estudar e de fazer apologética, mas para que você seja a apologética em ação! Seu exemplo será muito melhor do que o que sai da sua boca. É um esforço, uma prática, uma vivência que vale a sua alma e a do seu próximo.

Precisamos do sustento dos sacramentos quando parece que não encontramos mais amor no mundo. São eles que te dirão para continuar e para ser exemplo mesmo quando você só encontra injustiça. É o seu exemplo que mudará o mundo, como todo santo fez e assim entendeu.

Que Santo Ambrósio e todo santo de Deus possa nos animar a buscar e crer para acreditar! Nada mais pode converter o mundo senão o amor de Cristo em nossas vidas. É a nossa única salvação!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

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