“Misericordia et Misera”. Carta Apostólica do Papa Francisco.

By | 21 de novembro de 2016

Não poderia ser mais adequado citar Santo Agostinho em uma carta sobre misericórdia. Santo Agostinho viveu uma vida de devassidão e heresia até sua conversão. Poucas pessoas sentiram o peso do pecado e depois a leveza do amor de Deus na reconciliação. Mesmo depois de atos tão ofensivos contra a vida e contra a Palavra de Deus, Agostinho se reconciliou com a Santa Mãe Igreja e caminhou para os altares.

Em seu comentário sobre o Evangelho de São João, Santo Agostinho comenta o caso da mulher adúltera que é perdoada por Cristo, e comenta como a miséria (da alma humana) é perdoada pela misericórdia de Deus. Daí vem o nome e a inspiração para o documento “Misericordia et Misera“, uma Carta Apostólica para a conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

É a melhor e mais bem escrita carta do Papa Francisco. Uma carta de enorme clareza (algo que, para alguns, às vezes falta em seus escritos) e caridade. É também uma carta com importantes reflexões e decisões.

O documento começa com uma bela reflexão sobre a misericórdia e sua forma mais extraordinária: o perdão.

No item 5 do documento, o Papa passeia com notável desenvoltura pelas orações eucarísticas, enfatizando a liturgia e os sacramentos como fonte de amor, misericórdia e reflexão. Citar orações eucarísticas é muito importante para a catequisação do laicato, mas também do Clero. É simples e direto, e de fundamental importância por ser o ápice da vida católica, a celebração eucarística. Também é uma forma clara e bela de passar a experiência da misericórdia na vivência da Igreja. A exortação à liturgia e aos sacramentos é algo que faltava não só nas últimas cartas do Papa, como é a base da misericórdia, algo que nenhum católico pode esquecer. Sem liturgia e os sacramentos, o homem é incapaz de vivenciar a caridade (caritas, o amor) divina em sua plenitude.

O item 6 descorre sobre a homilia, uma arte um tanto esquecida em nossas paróquias. Os sacerdotes são convidados a refletir sobre a homilia como oportunidade para uma catequese rica em reflexão e cheia da misericórdia divina.

O item 7 é outro grande alento do documento, sobre a centralidade das Escrituras. Somado aos dois itens anteriores, o item 7 remete aos tempos e escritos patrísticos, em que a ênfase no estudo das escrituras, unido à centralidade da liturgia e de uma homilia rica, era comum. A ênfase nas Escrituras, com especial atenção a “2Tm 3,16“, é um lembrete de que o estudo bíblico não é algo espúrio ao catolicismo. Pelo contrário! A Bíblia é nossa, e seu estudo é uma obrigação! Os Pais da Igreja cansaram de repetir isso. Especialmente São Jerônimo, sempre eloquente, que disse que “ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”.

O momento para unir o tema da misericórdia com um retorno ao estudo bíblico e aos sacramentos não poderia ser melhor. É uma retomada que qualquer um que lute por ortodoxia tem que agradecer, e tem obrigação de desenvolver e divulgar. Uma luta que recomeçou com força com Bento XVI e, graças a Deus, continua firme na Cátedra de Pedro. Se ninguém será um professor como o Papa Emérito, pelo menos a ênfase nas escrituras persiste.

O item 8 começa a focar no Sacramento da Reconciliação, conhecido como a confissão. Talvez a parte mais rica e bela de um documento verdadeiramente inspirado.

O item 12, que segue com o tema da reconciliação pela confissão, é o que será menos entendido pelos leigos, com a sempre inoportuna ajuda da imprensa. Não que haja polêmica no item, nem há espaço para isso, mas por falta de compreensão teológica e de direito canônico (que não é exatamente o café da manhã de todos, nem precisa ser).

A confusão da imprensa e de alguns se dará pelo trecho que fala em “conceder a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorrerem no pecado do aborto”. O que isso quer dizer? Que antes não havia perdão? Algo novo? De forma nenhuma! Não existe pecado imperdoável!

No Evangelho de São Mateus (Mt 12,31-32), Cristo diz: “Por isso eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Se alguém disser uma palavra contra o Filho do homem, será perdoado. Mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não será perdoado nem neste mundo, nem no futuro“.

A teologia existe para nos afastar da superstição da interpretação pessoal, e do erro da ignorância. Usemos um pouco de teologia, então.

São João Paulo II, em sua bela encíclica “Dominum et Vivificantem” (Sobre o Espírito Santo na Vida da Igreja e do Mundo), nos confirma o que a Bíblia não deixa dúvidas: não existe pecado imperdoável! A citada passagem no Evangelho de Mateus nos fala sobre o “não” que o homem pode dizer ao Espírito Santo. Tal negativa conduz o homem para uma eternidade desconectada do Senhor. Ou seja, Cristo falava sobre virar as costas a Deus ser o que realmente conduz ao inferno.

Nada disso é uma negação ao perdão dos pecados. A Bíblia fala extensamente sobre qualquer pecado ser perdoado e, finalmente, sobre Jesus dando aos seus sacerdotes o dom de, através deles, o Espírito Santo perdoar os pecados (Jo 20,33).

A questão do aborto não é sobre ausência de perdão, mas sobre excomunhão. No Código de Direito Cânonico você encontra a resposta. O cânon 1398 trata sobre a excomunhão automática de toda pessoa que praticar ou ajudar no grave crime do aborto.

Existem dois tipos básicos de excomunhão (que é a excluir uma pessoa da comunhão): “ferendae sententiae“, que é quando a autoridade competente impõe a excomunhão, ou a “latae sententiae“, que é a excomunhão automática, ou seja, um ato imediatamente exclui a pessoa da comunhão. É bom notar que para efeito da excomunhão automática, a pessoa tem que saber que seu ato corresponde a tal crime e está sujeito à pena prevista.

De qualquer forma, a reconciliação está sempre aberta aos fiéis que a desejam e querem se arrepender e mudar para se unir novamente ao Corpo de Cristo. É aqui que está o ponto tratado na carta apostólica!

Apenas o bispo tem autoridade para a remissão da excomunhão. Porém, o bispo pode delegar tal autoridade para o padre confessor. Isso não só é previsto como tem sido feito com frequência desde que o aborto foi legalizado em vários países ou estados, como no caso dos EUA. De fato, nos EUA, há mais de 30 anos que os bispos delegam a autoridade para seus padres remitirem a excomunhão ao administrar o sacramento da confissão.

O que o Papa fez foi apenas delegar ele mesmo essa autoridade a todos os padres. Algo que costuma acontecer em ocasiões especiais, e é muito necessário para um convite à conversão dos fiéis descolados do Corpo de Cristo.

Em resumo: nada mudou! A pessoa ainda está excomungada, e ainda precisa buscar o perdão. O que era natural na maioria das dioceses, ou seja, o padre diocesano poder remitir a excomunhão na administração do sacramento da reconciliação, agora, inspirado pelo jubileu da misericórdia, apenas se tornou oficial para todos os padres. Pelo menos até que nova disposição do Papa remeta novamente aos bispos a qualidade para dispensar tal autoridade aos padres de suas dioceses. Tudo isso está perfeitamente dentro da autoridade do Papa, e nada tem de novidade.

É interessante notar que no mesmo item 12, o Santo Padre estende a autoridade para administrar o sacramento da reconciliação para a “Fraternidade de São Pio X”. O Papa havia concedido essa benção à Fraternidade pelo ano do jubileu, mas, em nome da misericórdia, estende esse benefício até que novas disposições sejam feitas sobre o assunto. Um ato belíssimo de estender a mão aos tradicionalistas. Alguns deles por demais radicais e críticos dos últimos papas. É um belo gesto, e uma ótima iniciativa para a reconciliação.

O item 14 traz importantes reflexões sobre o casamento. Nestes tempos de confusão, Sua Santidade apresenta clara e oportunamente uma reflexão sobre a família: “Num momento particular como o nosso que, entre muitas crises, regista também a da família, é importante fazer chegar uma palavra de força consoladora às nossas famílias. O dom do matrimónio é uma grande vocação, que se há de viver, com a graça de Cristo, no amor generoso, fiel e paciente. A beleza da família permanece inalterada, apesar de tantas sombras e propostas alternativas: ‘a alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja’” (ênfase minha). A última frase é retirada da exortação pós-sinodal Amoris Laetitia.

O Papa segue na reflexão: “A senda da vida que leva um homem e uma mulher a encontrarem-se, amarem-se e prometerem reciprocamente, diante de Deus, uma fidelidade para sempre, é muitas vezes interrompida pelo sofrimento, a traição e a solidão. A alegria pelo dom dos filhos não está imune das preocupações sentidas pelos pais com o seu crescimento e formação, com um futuro digno de ser vivido intensamente.

A graça do sacramento do Matrimónio não só fortalece a família, para que seja o lugar privilegiado onde se vive a misericórdia, mas também compromete a comunidade cristã e toda a atividade pastoral para pôr em realce o grande valor propositivo da família. Por isso, este Ano Jubilar não pode perder de vista a complexidade da realidade familiar atual. A experiência da misericórdia torna-nos capazes de encarar todas as dificuldades humanas com a atitude do amor de Deus, que não Se cansa de acolher e acompanhar.” (ênfase minha)

A carta é um convite pastoral para o que já está mais do que definido. A união matrimonial indissolúvel entre um homem e uma mulher. Porém, com as dificuldades modernas, e as dores da separação, traição etc, a Igreja deve encontrar formas pastorais de ajudar os casais, e todos os membros da Igreja, a encontrar felicidade no sacramento do matrimônio. Em caso de separação, como estender a mão, sem quebrar a doutrina, para acolher os fiéis. Sem novidades, mas muito importante nesse momento de confusão e adulteração da palavra do Papa pela imprensa e semeadores da discórdia e confusão.

O item 15 fala da importância em se pensar na morte e em como a Igreja pode ajudar nesses momentos difíceis para a família. A Igreja deve sempre ser um farol de esperança para uma eternidade no Senhor.

O restante do documento trata de outros temas fundamentais, como a caridade e o cuidado com os pobres. Como a Igreja e seus fiéis podem refletir para uma vivência cristã na caridade, especialmente para com os mais necessitados: os pobres, os doentes, e os solitários. E como evangelizar para levar a conversão aos que se isolaram da sociedade por seus crimes. O Papa convoca a todos para uma “cultura da misericórdia”. Algo que é nossa obrigação refletir e, com a ajuda de Deus, desenvolver em nós para servirmos de exemplo a todos.

De volta ao item 7, outro ponto que eu gostaria de destacar é a ênfase na “Lectio Divina”, um estudo orante das escrituras. Eu já comentei sobre essa prática antes, mas quero enfatizá-la como um dos melhores caminhos para a santificação na forma de uma vivência com a Palavra de Cristo. Digo por experiência própria, porque para quem estuda teologia bíblica, muitas vezes é fácil cair no erro de ler apenas com olhos de estudo. É fundamental treinar mente e espírito para, em vários momentos, apenas ler a Bíblia como oração e contato com Deus.

Esse estudo orante, a Lectio Divina, é fundamental para a Nova Evangelização. Não é algo novo, mas que vem sendo enfatizado novamente há algumas décadas. É maravilhoso ler em mais um importante documento da Igreja. Dessa vez, confesso que não esperava ver um documento do Papa Francisco citando a prática. Não por mal, mas por esperar isso de um místico como São João Paulo II, ou de um teólogo que nunca esqueceu o lado da vivência espiritual e a dificuldade de se separar os dois, como Bento XVI. É uma alegria ler isso em um trecho tão importante quanto o do estudo bíblico. Estudar sempre, mas jamais deixar de rezar ou viver a Palavra.

Usando como base Santo Agostinho; os documentos do Concílio Vaticano II; dois documentos do Papa Bento XVI; orações eucarísticas, e mais vasta riqueza da espiritualidade católica, o Papa Francisco nos brindou com sua melhor carta até agora. Uma que deve e merece ser estudada e mantida próxima dos corações dos fiéis.

Que a misericórdia que esse jubileu nos levou a refletir e viver, e tudo o que ele trouxe de bençãos, nos leve a uma vivência cristã mais digna. Uma vivência estudada e orante.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

 

Link para o documento: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20161120_misericordia-et-misera.html

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