A Igreja e o sexo, a teologia do amor.

By | 29 de setembro de 2016

A Igreja e o sexo, a teologia do amor.

 

Se você perguntar para 100 pessoas na rua, é provável que todas repitam alguma variação da idéia de que a Igreja considera o sexo uma coisa ruim; que a Igreja vê o sexo como pecado, e por isso existe tanta culpa no mundo; que a carga de culpa colocada pela Igreja nas pessoas foi, em parte, responsável pela revolução sexual; a Igreja não aceita o sexo como algo natural, e por isso ele deve ser combatido; é o sexo como pecado que ainda obriga os padres a serem celibatários etc.

Nada disso é verdade, mas ninguém contou para o povo. Contaram uma história inventada para sujar o nome da Igreja e, com isso, tentar se libertar, não da tal ‘culpa’, mas da responsabilidade.

Nesse caso, a melhor estratégia para responder a essa mentira não é sacar a sua Bíblia e citar versículos. Se a pessoa não acredita em Deus, não vai acreditar em Sua Palavra. A Bíblia é sempre necessária e fundamento de nossa fé, mas, nesse caso, ela deve ser usada em um segundo momento. Apenas se a pessoa estiver disposta a te ouvir, ou seja, se ela não estiver satisfeita em ser um talão de repasse ideológico. Só aí você pode falar citar o embasamento bíblico.

A pessoa com quem você conversa precisa estar disposta a só emitir uma opinião depois de navegar pela história e os fatos. Disposta a descobrir a verdade. Entender, estudar e viver essa informação de forma responsável. Só então é possível uma conversa mais profunda sobre religião e doutrina. Muito antes de levantar apenas uma crença religiosa, o missionário (todos nós), temos que estar preparados para apresentar argumentos em todos os níveis.

Durante centenas de anos, ideólogos travestidos de escritores, filósofos, e até mesmo de teólogos, construíram uma narrativa sobre a Igreja ser ‘contra o sexo’. É realmente difícil de imaginar algo tão tolo, mas funcionou como mágica.

A Igreja foi taxada de antinatural e danosa por promover um comportamento voltado à responsabilidade pessoal. Se a Idade Média é sempre o alvo preferido do fundamentalismo secular, há que se perceber que a era medieval pregava o belo, o profundo estudo (criação das universidades e do amplo debate nelas), e a responsabilidade pessoal. Enquanto o mundo moderno prega total ausência de responsabilidade; o feio travestido de arte: algo que deve ser entendido para tentar ser belo aos olhos dos ‘entendidos’ etc.

O nível de depravação e bestialidade no comportamento humano só cresce. O modo de vida pregado, principalmente do final do século XIX pra cá, é diretamente responsável pela maior tristeza e vazio já sentido pela humanidade.

Teria sido então uma ‘bomba de efeito retardado’ da Igreja? A tal ‘culpa’?

Se uma suposta ‘culpa’ enterrada na cabeça das pessoas pela Igreja foi a responsável, a saída modernista deveria ter retirado as pessoas desse terrível estado de depravação e solidão. No entanto, famílias se destroem com enorme facilidade hoje em dia exatamente ao ostentar a bandeira modernista de libertação pela ausência de responsabilidade e de Deus. As pessoas estão deprimidas como nunca se teve notícia, e a moralidade indiscutivelmente atingiu o ponto mais baixo. Nada disso pode ser coincidência.

Lutar contra o predomínio da mentira na modernidade é uma tarefa hercúlea. Se você não estiver disposto a descascar milhares de camadas de mentiras, e quiser partir direto para o confronto no estado atual da coisa, a luta se torna inútil.

Antes de encarar de frente as mentiras, você deve ser socrático e definir seus termos. Há que se demonstrar que tudo isso é uma construção mentirosa que ganha corpo há muito tempo, e que a verdade é possível de ser encontrada para além de merda opinião.

Afinal, o o que a Igreja nos ensina sobre sexo? É preciso entender o que a Igreja quer dizer com amor para então se descobrir o que ela diz sobre o sexo.

Cristo na cruz é o símbolo do amor na visão católica. É doação absoluta por quem você ama. Amar é estar disposto a se sacrificar por alguém, por um bem maior, por uma união que verdadeiramente te completa. A única coisa que sacia plenamente o coração do homem é o amor de Deus. O casamento é uma representação desse amor absoluto, amor que se doa plenamente. É apenas nele que você pode ser saciado de todas as formas.

Amor é uma forma de querer o bem do outro, enquanto a modernidade vê amor como paixão, como uma forma de prazer pessoal. A entrega pessoal que recompensa plenamente é substituída pelo egoísmo. O individualismo exacerbado dos dias de hoje ocupa o lugar do próximo em nossas vidas, ao ponto de substituir seu marido ou esposa por relações passageiras, desde que você não precise sacrificar nada.

O amor só completa quando é uma relação que enxerga o próximo como recipiente do melhor que você pode dar, e quando enxerga o casal como uma só coisa com duas partes distintas, mas inseparáveis. Assim como cristo é uma pessoa com duas naturezas, uma divina e outra humana, o casamento é uma união tão profunda que duas pessoas se tornam uma. Ou seja, ainda que mantenham a sua individualidade, elas estão unidas de forma tão profunda que pode representar as duas naturezas que se unem no Senhor.

O amor é um ato, uma decisão, não apenas algo que acontece. Muito se fala em se apaixonar como algo aparentemente inevitável. Porém, amar não é simples sentimento posto em prática. Amar é uma escolha! Por mais que todo sentimento esteja presente, as dificuldades da vida, do dia-a-dia em conjunto, acabarão com o que é mero sentimento ou impulso. Amar é uma escolha que forja um juramento inquebrável como a Aliança de Cristo com Seu povo. Nada pode ser mais representativo da dignidade da escolha individual! Duas pessoas escolhem passar por todas as dificuldade por uma relação divina que também é permeada de bons sentimentos humanos.

Amar é decidir, viver, e praticar o bem do próximo. Amor significa ‘caritas‘, porque a caridade é o amor. A caridade jamais deve ser entendida como um ato de pena ou compaixão. A caridade é um ato de amor, uma profunda escolha, digna apenas do homem que é capaz de escolher se desfazer de algo pelo seu próximo.

O amor como ato de escolha tem seu ponto mais alto no casamento, uma escolha para dividir o bom e o ruim da vida. Tal encontro de almas promove intimidade, e a suprema intimidade é o sexo! O sexo é uma forma de se entregar tão profundamente que desse amor é possível ser gerada uma nova vida. É nessa suprema intimidade que o sexo se torna natural como deve ser, fruto de um sentimento que une e é prazeroso.

O casamento é parte integral do amor. É a união do amor com essa total intimidade, com a possibilidade de gerar nova vida. Essa é a formação da família, e a família é um reflexo da Santíssima Trindade: Deus Pai, Cristo, o filho, e do amor e comunhão absoluta vem o Espírito Santo. Essa representação teológica não é mero devaneio, mas está enraizado em nossas almas como a atração de toda a humanidade pela formação da família, e não apenas do prazer e a reprodução como animais. O que mostra que antinatural é forçar a destruição da família e o prazer fora dela.

G.K. Chesterton, sempre genial, escreveu em resposta a um crítico que passava adiante essa idéia que a Igreja é ‘contra o sexo’. No caso, o crítico dizia que a Igreja condenava o sexo por enxergar nele a natureza do pecado. Disse Chesterton: “eu li a incrível declaração de que a Igreja considera o sexo como tendo a natureza do pecado. Como o casamento pode ser um sacramento se sexo é um pecado, e por que os católicos é que são a favor do nascimento, e seus inimigos a favor do controle da natalidade, eu deixo para o crítico se preocupar” (Chesterton, em sua biografia de Santo Tomás de Aquino, 1933).

Chesterton demonstra o que antigamente era o óbvio, mas que se perdeu sob séculos de mentiras. Não é o sexo que tem a natureza do pecado. Não é o ato em si que é pecaminoso, mas a sua intenção, as suas circunstâncias. E assim o é como em todo pecado.

A Igreja estimula o sexo e o nascimento de crianças. Ela apenas quer o melhor para as pessoas, e tem a missão de dizer o que é o melhor caminho. A Igreja quer a responsabilidade das pessoas, e que elas encontrem o divino em tudo nas suas vidas. O sexo é uma expressão do amor divino, mas apenas quando se encontra no lugar em que a sua dignidade é mantida: o casamento!

Nada melhor do que entender o que Santo Tomás de Aquino nos ensinou sobre a teologia do sexo, a verdadeira e suprema expressão do sexo e do amor. Eu recomendo fortemente que, depois de ler este artigo e entender o que quis dizer o Doutor Angélico, que você leia a “Teologia do Corpo”, de São João Paulo II. Nada exaltou o sexo de forma tão bela; nada resguardou nossa dignidade como filhos de Deus ao tratar desse assunto; nada nos deu tão claro caminho para corrigir os desvios da nossa era de relativismo. O mesmo relativismo que degradou a expressão máxima do amor de um casal, o sexo, e o transformou em algo vulgar, algo que é capaz de deixar um rastro de destruição nas pessoas, nas famílias, e nas comunidades.

Já é hora de santificar as relações no casamento. É hora de mostrar que a Igreja, nossa Mater et Magistra (Mãe e Mestra), é que nos ensina o bom caminho.

Enfim, chegamos ao Doutor Angélico e o que é, de fato, o pensamento da Igreja sobre o assunto.

Santo Tomás de Aquino afirmou que o prazer é ótimo, mas que ele seria ainda melhor no Jardim do Éden. É uma bela contextualização teológica. O que ele quer dizer é que não há absolutamente nada de errado com o sexo e o prazer, mas o lugar deles é no sacramento do matrimônio. É no casamento que o que parece bom enquanto vulgar se torna maravilhoso por ser belo, e perfeito por ser sagrado.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

4 thoughts on “A Igreja e o sexo, a teologia do amor.

    1. Papista Post author

      Amém. A você também. Muito obrigado pelo comentário. Bom que você gostou.

      Reply

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