Três chances. Segundo sinal: Madre Teresa de Calcutá.

By | 30 de junho de 2016

Madre Teresa 2

Em um dia de dezembro de 1979, a pequena albanesa conhecida como Madre Teresa de Calcutá se encaminhou para o pódio central no salão da ONU para discursar em agradecimento pelo famoso Prêmio Nobel da Paz. Um momento singular, já que a ONU não tem o costume de homenagear católicos, muito menos religiosos católicos. Para quem tem alguma noção do que é ONU e o que ela defende, as barreiras são bastante óbvias. Madre Teresa é uma figura especial, e seu belíssimo trabalho e mensagem de paz e amor influenciaram pessoas dos mais diversos credos, países, ideologias etc. O tal prêmio era mais que merecido, e nem a ONU pôde se furtar a homenageá-la. Mas poucos imaginavam o que a diminuta albanesa iria dizer.

Antes de qualquer coisa, retire da cabeça a idéia de que ela aproveitou uma oportunidade para fazer um discurso bem planejado. Em nada diminuiria o seu valor, mas não é o caso. É preciso entender que para alguém como Madre Teresa, tais palavras eram um reflexo da sua vida, e sua vida foi o reflexo da vida cristã em idéias e ações. Eram simplesmente o seu viver cristão. Em um mundo de aparências e de um cristianismo raso, muitas vezes usado quando se precisa e que depois é devolvido para o fundo do baú, é ainda mais difícil entender que alguém viva a Palavra de Deus nas vinte e quatro horas do dia. Algo que nenhum comentarista secular parece conseguir entender. Tal coisa não é vista apenas com ceticismo, mas também com cinismo. O mundo se acostumou a coser uma personalidade de retalhos, em que em um momento a pessoa é um profissional, na outra é um festeiro, e na outra, quando oportuno, religioso. Esse comportamento parece normal para o mundo de hoje. Que sua moral e suas crenças se misturem ao resto é um crime para o mundo moderno. É a invasão da religião na “laicidade”, como se Deus e moral não fossem parte fundamental da vida, bússolas para um modo de vida em todas as suas facetas, a linha que deve unir os retalhos e com eles criar uma bela roupa. No fundo, além de uma mentira, essa separação de religião e o resto da sua vida é uma confusão diabólica. Contudo, é inegável que cada vez mais o mundo vê com desconfiança figuras como Madre Teresa. Tal figura, tal comportamento, simplesmente não podem ser verdade. Se ela não age como os outros, deve estar mentindo. Esse é o sentimento de quem, no fundo, reconhece a própria fraqueza moral e comportamento desregrado, mas prefere projetar seus vícios em quem vive o evangelho. Afinal, isso é mais simples do que mudar.

Madre Teresa se retirou ainda jovem para a região de maior pobreza de um país já muito pobre, a Índia, e lá viveu o resto dos seus dias. Saía atrás de pessoas de rua, doentes e crianças abandonadas. Quando seu longo dia de trabalho e oração terminava, muitas vezes ela saía novamente pelas ruas nas madrugadas, levada por um sentimento de dever que nunca poderia ser explicado sem o impulso místico. Ela viveu o amor de Cristo na Cruz como poucos viveram. Ela viveu o que acreditava, e isso é mais do que a maioria de nós pode afirmar que faz. É apenas natural que seu discurso fosse uma amostra da sua alma e de seu viver cristão.

No discurso, a primeira coisa que Madre Teresa faz é propor uma oração! Na ONU? Quem é essa senhora para propor uma oração em um local em que, em primeiro lugar, poucos acreditam em Deus; em segundo lugar, a idéia de separação de Igreja e Estado é levada às últimas consequências, como hoje em dia o é praticamente em qualquer lugar? Quem convidou essa senhorinha vestida de forma engraçada?, devem ter pensado os dignatários presentes. Mas já era tarde. Ela tinha muito o que dizer.

Deus nos deu Cristo para morrer na Cruz pelo grande amor por nós. Ele o fez por mim, por você, pelo leproso, pelo doente, pela pessoa morrendo de fome, pela pessoa sem roupas não só nas ruas de Calcutá, mas na África, em Nova Iorque, em Oslo“, disse a albanesa, fazendo corar os que não querem ouvir que, na verdade, eles passam por Jesus Cristo todo dia nas ruas perto de casa e sequer o vêem. “São João nos diz que você é um mentiroso se você ama a Deus mas não ama seu próximo“. Você com certeza já poderia ver gente se mexendo nas cadeiras do auditório, com desconforto, enquanto essas palavras eram ditas. Logo para eles? Oração e caridade? Logo ali, um lugar em que as pessoas juram que estão resolvendo os problemas do mundo com canetadas, debates sem fim, grandes gestos e muito barulho?

A pequena freira albanesa estava só se aquecendo. O estrondo viria ao encarar os maiores representantes progressistas do mundo e dizer: “O maior destruidor da paz, hoje, é o aborto! Porque é uma guerra dirigida, um assassinato realizado pela própria mãe! E nós lemos nas escrituras, e Deus é claro nisso: ‘mesmo que uma mãe se esqueça do seu filho, Eu não o esquecerei. Eu o esculpi na palma da minha mão’ […] e se nós estamos aqui, é porque nossos pais nos quiseram. […] Se uma mãe pode matar o próprio filho, o que resta é que eu possa te matar e você a mim. Não há meio-termo“.

Madre Teresa seguiu essa bomba de bom senso e amor discursando sobre Planejamento Familiar Natural (PFN), um planejamento eficaz e cristão, como descrito na “Teologia do Corpo” de São João Paulo II, e exaltando o sucesso do método entre os mais pobres e ignorantes da Índia. Tudo o que a ONU não queria ouvir. Planejamento familiar cristão não envolve gestos chamativos e, na prática, inócuos, como distribuir preservativos e anticoncepcionais abortivos, ao mesmo tempo em que os burocratas têm a oportunidade de gritar contra a indústria farmacêutica e o “big business”. PFN seria um desastre para a ONU! Imagine se a experiência cristã em Uganda, a redução drástica da AIDS, fosse repetida? Bem, quando um especialista de Harvard (surpresa!) disse que o Papa Bento XVI estava certo ao comentar que a distribuição de preservativos não ajudava (http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/03/27/AR2009032702825.html), seu projeto foi fechado e os liberais provaram que sua intenção é apenas aprofundar uma ideologia perversa, não a saúde e bem-estar das pessoas, e muito menos as famílias! Pois bem, Madre Teresa levou esse aviso aos ouvintes da ONU. Foi um estrondo que voltou a ser sentido na citada declaração do Papa. E, infelizmente, apenas em outros poucos momentos. Foi a coragem de uma diminuta freira, vinda da maior pobresa de Calcutá, que soou mais alto! Foi na ONU que Madre Teresa colocou o dedo na cara dos burocratas que posam de representantes de toda a raça humana para lhes dizer que enquanto eles brincam de discursar, as piores feridas na humanidade permanecem intocadas e infeccionando rapidamente. O aborto é a pior delas!

Poucos atos foram tão corajosos como o da pequena freira, dizendo tudo o que não se queria ouvir. Para ela, foi tão natural quando rezar. Para quem viu, não há como negar a coragem do ato e sua necessidade de reflexão. Há que se perguntar se nem o discurso; nem a situação em si, com uma diminuta freira recebendo um prêmio e falando aquilo que seus convidados não queriam ouvir; ou se a própria santidade irradiada como um clarão da pequena freira; se nada disso nos faz refletir como deveríamos? O mundo ignorou o aviso de Madre Teresa! O ano era 1979. Saíamos de duas décadas da mais pesada campanha pela irresponsabilidade sexual do século XX, só igualada pelo começo do século XXI, com a relativização absoluta do sexo. Mas um não existiria sem o outro. Era o momento-chave para uma profunda reflexão. Não poderia ser melhor do que vindo de quem tinha incontestável autoridade moral! Não é à toa que o que se viu depois foi, ao invés de reflexão, uma parte da mídia liberal iniciar uma campanha contra Madre Teresa. Como sempre, basta plantar a semente da discórdia e da difamação. O resto a mídia faz sozinha. Embora não tenham conseguido fazer com ela o que fizeram com tantos outros, a distração funcionou! Não prestamos atenção a um dos grandes avisos do século XX!

Madre Teresa entendia de amor. O amor de Cristo era seu combustível, o amor puro em sua plenitude. Viver e refletir esse amor deixou sem saída os abortistas. Seus pretextos foram para o espaço, já que é impossível se esquivar de um amor que diz: “No começo do ano eu disse; em todo lugar eu falei: façamos deste o ano em que cada bebê, nascido ou ainda não nascido, será querido. E hoje se completa esse ano. Nós fizemos essas crianças se sentirem queridas? Eu vou dizer algo que vai assustá-los. Nós estamos lutando contra o aborto através da adoção; nós salvamos milhares de vidas; nós pedimos a todas as clínicas, aos hospitais, delegacias de polícia: por favor, não destrua a criança! Nós cuidaremos das crianças!

Algumas pessoas não têm condição, mas têm filhos? Qual a solução? Esterilizá-las? Acabar com o seu livre-arbítrio e dizer quem tem direito à vida e quem não tem? Essas são algumas soluções do mundo moderno! Um mundo sem amor, que procura a solução rápida contra quem já está abandonada à própria sorte! Madre Teresa disse: “Nós estamos fazendo outra coisa que é muito bonita. Nós estamos ensinando a nossos mendigos, nossos leprosos, nossos favelados, nossa população de rua, o Planejamento Familiar Natual“. Não importava se era pobre ou ignorante. Assim como em Uganda depois, esse exemplo funcionava e era uma prova de amor!

A ONU e o mundo moderno não queriam ouvir nada disso! Mas uma santa disse isso a eles! Por que nós não a ouvimos? Por que permitimos que praticamente um quarto de nossas crianças sejam assassinadas, mesmo depois de presenciar o exemplo da santidade que dizia que nós podíamos cuidar das crianças; podíamos fazer mais; e podíamos executar um Planejamento Familiar Natural? Por que permitimos que mais e mais pessoas sejam esterilizadas; que a idéia de esterilização forçada crescesse; e as únicas soluções aceitas fossem as mais destrutivas e antinaturais, tanto para o indivíduo quanto para as famílias?

Esse foi o segundo sinal que ignoramos, do qual eu tento nos lembrar. Pedimos as orações de Santa Madre Teresa de Calcutá. Haja amor para nos dar ainda mais! Ela já fez tanto. Tenho certeza de que ainda faz e fará. Mas chega de ignorá-la e aos grandes sinais do amor de Deus! Ela não era apenas uma figura querida por um trabalho distante de nós. Nem foi só um exemplo. Ela foi um sinal de Deus! Prestemos atenção!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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