Oitenta anos sem Chesterton.

By | 29 de maio de 2016

Chesterton 3

Há cento e quarenta e dois anos, nascia o gênio inglês de visão e clareza sem iguais. Na sua maneira, ele creditava tudo o que escrevia a Deus e aos gigantes que antes dele deixaram sua contribuição. Acima de tudo, Chesterton demonstrava que de Deus vinha o bom senso, o senso comum, uma força irresistível que o homem deveria lutar para assimilar, e mais ainda para não ignorar! O senso comum, o bom senso, seria uma pista que Deus nos deixou para, ouvindo de tudo, possamos distinguir entre o bom e o mau caminho. Como a maioria dos nascidos na Inglaterra daquela época, Chesterton cresceu Anglicano. Mas foi a própria capacidade única para o bom senso que fez Chesterton se converter ao Catolicismo. Desde antes de sua conversão, ouso dizer conversão “oficial”, Chesterton já escrevia abundantemente sobre a Igreja Católica como se dela fizesse parte. Pela fé, e por uma honestidade intelectual sem igual, em 1922, G.K. Chesterton finalmente entra em comunhão absoluta com a Igreja Católica. Não é nenhum absurdo dizer que Chesterton sempre foi um católico em seu coração. Não é o desejo deste artigo discutir essa tese, mas apenas dizer que o escritor inglês se tornou um católico exatamente por perceber a Igreja como a guardiã do bom senso! Aquela instituição única e divina cujas palavras demandam atenção e são carregadas com o aroma do sagrado. A instituição que carrega em si mesma a chave para a eternidade, provada por sua longevidade entre tantos séculos de ataques, e por jamais ter alterado uma vírgula sobre sua doutrina sagrada, apenas a esclarecido. Chesterton via a Igreja como a chancela do senso comum, o olhar dirigido ao infinito com uma palavra de consolo para o presente, e guardiã da história sagrada do passado. Ela é a incarnação divina do bom senso, sua fonte e mantenedora. Era apenas natural que o gigante inglês a defendesse e com ela flertasse desde cedo, mesmo ela sendo vista com tanta desconfiança na Inglaterra da época.

A obra de Chesterton é vasta como foi o homem. Apesar de se dizer sempre um jornalista, que de fato ele o foi de mão cheia, Chesterton passeou, com a autoridade que só a verdade pode oferecer, pela história, filosofia, teologia, poesia, literatura, e muito mais. Seu livro sobre Santo Tomás de Aquino foi descrito por luminares do Tomismo, como Anton Pegis e Étienne Gilson, como o melhor livro sobre o Doutor Angélico. Seu livro “O Homem Eterno” converteu milhares (C.S. Lewis entre eles), e mudou a face da apologética cristã. Sua magnum opus, “Ortodoxia”, engloba praticamente tudo o que foi citado antes de forma magistral. Na ficção, entre outas coisas, criou o Padre Brown, o padre detetive que cativou gerações de leitores. Na poesia, destaco seu poema épico “Lepanto”, sobre a batalha que salvou o ocidente de se tornar parte de um califado. Batalha essa que deveria ser lembrada ainda hoje.

Um debatedor nato, Chesterton debateu com algumas das melhores mentes de sua época, como seu amigo George Bernard Shaw, H.G. Wells, e Bertrand Russell, sendo considerado vitorioso em todos. Russell, aliás, forte influência no relativismo moderno, propunha que pais não cuidassem das crianças, mas que deixassem seus filhos em creches. Parece familiar, mas, na verdade, Russel não falava em necessidade e trabalho, mas porque, segundo Russell, os pais não são capazes e nem devem cuidar dos filhos. Chesterton encurrala Russell em pelo menos dois momentos do debate. Quando demonstra que Russell, um ateísta ferrenho, apenas substitui Deus e a família por um paganismo moderno. Uma tendência que poderia ter parado ali mesmo, se a feia máscara de Russell, derrubada por Chesterton, tivesse recebido a atenção que merecia. O segundo momento é quando Russell, apelando para ataques tolos, alega que a crença de Chesterton levaria crianças a serem enforcadas. Ao que o gigante gentil rebate deixando claro que é exatamente o modernismo que prega a morte de crianças e termina por “enforcar a pessoa errada”.

Inspirados pela encíclica “Rerum Novarum“, do Papa Leão XIII, Chesterton e seu grande amigo, Hilaire Belloc, aprofundaram o pensamento do Distributismo. Chamado normalmente de uma ideologia econômica, o Distributismo seria melhor classificado como um modo de vida. Uma teoria sócio-econômica baseada na propriedade privada, subsidiaridade, guildas e, principalmente, tendo a família como centro, causa e finalidade da atividade humana.

Sua visão sobre o mal da Eugenia é ainda hoje fundamental na luta pela vida e contra o aborto. Luta essa que deve muito a Chesterton, sua visão histórica, e seu bom senso.

O “gigante gentil” de Beaconsfield foi absolutamente fundamental ao conservadorismo. Chesterton diferenciava Tradição de Tradicionalismo ao mostrar que a Tradição é a “democracia dos mortos”, um respeito ao pensamento perene e inerente aos homens, que só pode ser ignorado em uma revolta do homem contra si mesmo, arcando ele com suas terríveis consequências. Tradicionalismo como ideologia seria, por outro lado, a tirania do passado. Ou seja, seria também ignorar o bom senso e não distinguir entre o que é Tradição, e o que é dar ao passado como um todo uma autoridade moral simplesmente porque a modernidade é aparentemente ruim de tudo. O homem, no fundo, vive da eternidade. Dessa forma, ele carrega durante toda a história um sentimento (e dignidade) que reflete a vontade divina e é facilmente notado em qualquer momento. Porém,  viver da eternidade não é nem viver do presente, nem do passado. É acreditar que esse fio condutor, essa ligação divina e respeito à Tradição (o bom senso na história), pode ser sempre localizado, mas está além de um momento específico.

Nesses oitenta anos sem G.K. Chesterton, boa parte do mundo não atentou para as suas palavras e perdeu demais com isso. Perdeu porque suas palavras são um eco do senso comum. Perdeu porque a clareza do seu pensamento é única na história. Perdeu porque esqueceu de prestar atenção na eternidade e é um escravo do tempo. Perdeu porque separou o pensamento em matérias escolares e especializações, sem se preparar para uní-las de novo, tornando-as desconexas e perversas.

Nesses oitenta anos sem Chesterton, o mundo ganhou toda vez que redescobriu seu pensamento, sua visão, seu humor, seu bom senso acachapante, seus paradoxos que mostram como nós pensamos de cabeça para baixo. Ele apenas revirava os argumentos de cabeça para baixo para que nós pudéssemos enxergá-los. Ganhamos quando algo como a Corporação Mondragon mostrou ao mundo que o Distributismo não só era possível, como é real e funciona em larga escala. Ganhamos com as milhares de pessoas convertidas ao cristianismo por causa da fé e clareza de Chesterton.

São oitenta anos saudosos, mas de profunda gratidão. O mundo seria melhor se Gilbert Keith Chesterton fosse amplamente difundido; se sua obra fosse parte da nossa literatura desde a mais tenra idade; se nós pudéssemos subir em seus ombros e tentar enxergar onde sua visão alcançava. Uma missão muito difícil para qualquer um, mas que é impossível sem ele. Ouso dizer que ninguém viu tanto do mundo e das pessoas com tamanha clareza e os diagnosticou com tamanha precisão. Porque Chesterton via o mundo o homem com os olhos da eternidade. Ele os via de joelhos, em oração. Ele os via com os olhos da misericórdia e do amor ao próximo em toda a sua dignidade. Ele os via sem medo de dizer onde erravam e como melhorar. Ele os via com Cristo e Sua Igreja como o caminho, a verdade e a vida.

Já escrevi alguns artigos sobre Chesterton, e eles podem ser lidos neste site. Mas ainda é muito pouco! Pretendo escrever algumas séries de artigos sobre as obras, mas nunca será demais comentar sua vida e o presente que é sua obra.

Rezo para que a canonização de Chesterton seja intuída pela Igreja, e sua santidade seja comprovada. O mundo precisa de Chesterton. Além de sua obra, o mundo precisa do seu exemplo.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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