Otimismo cristão

By | 2 de fevereiro de 2016

              Imagine que um dilúvio de proporções apocalípticas aconteça, e enquanto você está segurando no telhado de uma casa para não ser arrastado, seus olhos percebem seu vizinho segurando no telhado da casa ao lado com uma mão, enquanto segura um barril de cerveja com a outra. Você grita para ele largar o barril para poder se segurar melhor. Ele te responde: “se esse dilúvio passar, eu preciso dele para comemorar!”

                A anedota mostra um otimista incorrigível ou um tolo? Deixo a resposta para o leitor. O que eu quero falar aqui é sobre o otimismo cristão, e como você pode usar bons exemplos para entender e manter o otimismo na melhor tradição cristã.

                Em primeiro lugar, por que isso importa? Porque o cristão, acima de tudo, deve se manter um otimista. Também porque existe uma mentira sobre o cristão ser um pessimista, levado a isso por uma doutrina que prega uma vida amarga e um comportamento corriqueiro de total e torturante abnegação forçada. O cristão, é verdade, deve levar uma vida de vigilância. Mas uma vida de vigilância é, antes de tudo, uma vida de equilíbrio. Se você leva uma vida de torturante abnegação e amargor com tudo e com todos, como se você não fosse do mesmo mundo que os outros, ora, você já não precisa mais da vigilância. Só precisa de vigilância quem vive no mundo, e sabe que seu papel é fazer parte dele e não seguí-lo, mas sim seguir o Senhor. O Reino dos Céus não é desse mundo, mas nós somos. Pelo menos por enquanto. O homem é chamado para viver no mundo, para levar a palavra de Deus e com isso mudar o mundo. Só se pode fazer isso inserido no mundo de todas as formas possíveis. Assim, o cristão não pode ser uma força distante, antagônica, amargurada e incapaz de se comunicar com o mundo. Seria romper com as órdens de Cristo para Sua Igreja, Seu corpo no mundo. De um jeito ou de outro, o cristão mantém os pés no chão, mas o espírito no céu. Seu otimismo deve ser inabalável. Se não com os caminhos do mundo, mas com o seu próprio caminho junto com a Igreja de Cristo até o próximo mundo!

                A lição de Cristo, tão repetida em seus santos, e por eles tão bem interpretada, é óbvia. Nós temos que aprender a viver com menos, dividir mais, e querer menos. Mas vamos diferenciar uma coisa! Abandonar os desejos, as emoções, e mais um isolamento físico, mental e espiritual é uma meta apenas do budismo, e não do cristianismo. Num mundo em que ecumenismo é confundido com gnose ou uma colcha de retalhos sem forma ou teologia, é fácil misturar doutrinas, distorcer o pensamento cristão (e até mesmo, em alguns casos, de outras religiões) e sair sem uma coisa ou outra. O cristão precisa dos seus sentimentos, ou não é possível amar a Deus e expressar o amor divino na sua forma principal, a caridade. E caridade é amor. O cristão precisa aprender a controlar seus sentimentos e submetê-los à vontade de Deus. Isso em nada tem a ver com uma impossível e vazia “iluminação” que, na melhor das hipóteses, esvazia o homem e o deixa longe de Deus, na pior, é como uma lobotomia que anula os sentimentos e deixa o homem, ainda que por puro fingimento, uma pessoa alheia ao mundo. O homem está inserido no mundo para viver o amor de Deus. Amor esse que se manifesta e deve ser manifestado por nós em todos os seus aspectos, sejam eles a dureza e a dificuldade, seja na alegria e amor. Perceba que isso parece muito com o que é dito no rito da união em matrimônio. Não é à toa. O casamento é exatamente o microcosmo dessa relação do cristão com o mundo. E é por relações como a do casamento que se experimenta tudo isso e assim se muda o mundo. O isolamento e a busca por uma “iluminação” que torna a pessoa alheia só pode destruir as relações e encerrar o contato com Deus.

                Quando falamos em abnegação cristã, voltamos ao ponto do controle e da vigilância. Abnegação é entender uma coisa muito simples. Há pouco tempo eu vi uma foto que circula pela internet, de crianças pobres que catam coisas em “lixões”. Na foto em questão, as crianças estão sentadas em um sofá lá deixado, se divertindo ao ler gibis velhos por lá encontrados. Você pode se ater aos aspectos sócio-políticos da situação, mas é importante ir além para não esquecer o lado espiritual. Importa perceber que essas crianças são capazes de se divertir com tão pouco, deixado para trás por gente como nós, com melhores condições. Aí entra um ponto importante da abnegação cristã, e que remete às reflexões do estudo dos primeiros doutores da Igreja para os artigos anteriores. São idéias que vem de Cristo, explicadas por eles, e se mantém em voga na filosofia cristã (a que não foi poluída pelo marxismo) até hoje. São João Crisóstomo dizia para seus colegas que também viviam em pobreza evangélica: “vocês são pobres, mas existem pessoas mais pobres que vocês. Vocês têm comida para dez dias, mas outros têm apenas para um dia. Então, por que não dividir?“. Quantas vezes palavras como essa soam como algo inalcançável para nós? Frequentemente! Exatamente porque não temos desapego. Essas palavras não precisam ser tomadas literalmente para o cristão. Elas são a base, até mesmo, para a Doutrina Social da Igreja. No fundo, eles indicam que o homem precisa saber abrir mão. Ele precisa passar pelo fundo da agulha (Mt 19, 24). Isso não quer dizer que ele não deve ter sentimentos, sentidos, ou não viver mais entre os homens. É o contrário!

                A felicidade do cristão vem de Deus. Apenas quando o homem almeja a Deus, e o reino que não é deste mundo, ele é realmente feliz. Nesse momento ele é otimista. Essa felicidade é “a fé que anima a nossa Igreja”. Reflitamos sobre isso. Antes de tudo, a fé vem de Deus. A fé vem do amor de Deus, tangível para todos como um rastro de seu amor na criação. Esse amor pode ser recusado, mas não ignorado. Desse ponto em diante, a fé cristã possui duas característimas marcantes. É uma fé consciente, refletida, e culta. É dever cristão estudar e ter respostas para os difíceis testes que podem abalar a nossa fé. O outro lado é uma fé missionária, uma fé intimamente ligada à criação, em especial, ao próximo. É uma fé que vive o mundo e o amor de Deus nessa relação, que é a caridade. Então, a fé que anima a nossa Igreja, repetido sempre na missa, se é antes de tudo um reflexo eucarístico em nós, é depois uma reflexão sobre a fé em ação em nós. E quando descobrimos pelo menos essas duas características da fé, somos felizes. Felizes podemos ser otimistas.

                Não é o mundo, o material, nossas parcas e falhas virtudes que nos garantem o otimismo. Por outro lado, é a fé em Deus, inserida nesses elementos materiais da nossa vida, que produzem em nós otimismo infinito, um sentimento que tem que ser, parafraseando Thomás à Kempis, uma imitação de Cristo (1Cor 11,1 e Ef 5,1). Inserida porque apenas essa fé nos permite não enlouquecer em um mundo que insiste em tentar fazer isso conosco. Porque é apenas vendo o reflexo dessa fé no mundo é que se pode ver, de verdade, a grandeza da Palavra de Deus. Se ela não se reflete no mundo, ela não vale: “Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes acreditar em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim, e eu no Pai” (Jo 10, 37-38).

                O cristão é um otimista porque vê Deus como sua alegria e fonte para uma fé rica em espiritualidade e obras. Sem isso, não há otimismo, e sem esse otimismo… bem… é provável que isso seja um sintoma da falta desses elementos que formam o otimismo cristão, elementos de salvação. O remédio? A bíblia, a eucaristia, a oração, e as obras. Sob o acompanhamento dos Doutores da Igreja e o Magistério. É infalível!

                Talvez a anedota do homem segurando o barril para depois comemorar não seja tão ruim assim…

                Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

                um Papista.

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