São Nicolau. Papai Noel vs Arius em Niceia.

By | 15 de dezembro de 2015

São Nicolau

             Quem foi o famoso São Nicolau? A resposta curta? Foi bispo de Mira, na Turquia. A resposta longa é bem mais curiosa. Nascido por volta do ano 270 d.C (algumas fontes dizem 280) em Patara, que era parte do Império Romano na Turquia. Como muitos de seu tempo, há pouca informação precisa sobre a sua vida. O que se sabe é o que ficou contado através de registros como hagiografias (biografias de santos) e histórias sobre o famoso Primeiro Concílio de Niceia. Alguns autores, mais tarde, como Simeão Metafrastes ou Metódio de Constantinopla (Santos da Igreja Ortodoxa), relembraram em escritos alguns fatos da vida de São Nicolau e sua importância para a Igreja. Mas esses autores relembraram o que, de fato, o povo jamais esqueceu e contava em um misto de folclore e memória histórica verdadeira.

                Nicolau era um homem gentil e dedicado à caridade. Seus pais o educaram como cristão e, pelo que se sabe, deixaram sua marca no jovem Nicolau educando-o para a caridade e o amor a Deus. Seus pais morreram cedo, e o jovem Nicolau foi obrigado a se tornar responsável e a procurar um rumo para sua vida logo cedo. Seu tio, então bispo de Patara, teria recebido o jovem e, após observar sua devoção, o ajudou a se tornar um padre. No entanto, a Igreja Ortodoxa conta que o jovem padre Nicolau, durante um tempo, viveu como um monge. Há que se lembrar que o monasticismo estava crescendo rapidamente na época, então isso não é de se estranhar. Após uma peregrinação até Jerusalém, e ouvir a voz do Senhor, Nicolau decide voltar para a vida de sacerdote e migrar para Mira, de onde nunca mais saiu, e por essa cidade ficou conhecido (São Nicolau de Mira).

                Muitos milagres e histórias curiosas são contadas sobre Nicolau pelo mundo todo. Há quem diga que se você fizer uma peregrinação por cidades por onde ele passou ou viveu durante um tempo, os moradores locais ainda terão histórias novas para contar. Os casos mais famosos são os mais simples e sem floreios, e costumam envolver sua caridade e profunda fé nas promessas de Cristo. Uma delas conta sobre um período em que a fome se abateu sobre sua cidade, e Nicolau foi informado que um navio ancorado próximo dali estava carregado de trigo. O santo, então, teria rezado e pedido para metade do trigo ser deixado na cidade. Os marinheiros teriam ficado em uma posição difícil, porque queriam ajudar, mas o trigo seria para o Imperador. Após intensa oração, Nicolau garantiu aos marinheiros que eles podiam, sem medo, deixar parte do seu trigo na cidade, que a quantidade encomendada pelo imperador chegaria ao seu destino. Os marinheiros, conhecendo a fama e impressionados com a fé de Nicolau, assim o fizeram. Nada faltou na chegada em Roma.

                Outro caso famoso é a das três filhas de um conhecido que era muito pobre. Por ser tão pobre, o pai das meninas estava numa situação muito difícil com três filhas chegando à idade adulta. Na sociedade e região da época, se ele não era capaz de produzir um dote para as filhas casarem, elas viveriam marginalizadas. É aí que a história nos lembra o Papai Noel como imaginado hoje, e provavelmente de onde veio parte da lenda. É dito que Nicolau usou parte do que restava da sua herança para, uma vez por ano, jogar para dentro da casa de seu amigo um saco de ouro para que uma de suas filhas pudesse se casar quando a idade chegasse. Seu amigo não aceitaria a ajuda, então Nicolau tinha que fazê-lo escondido. No terceiro ano, seu amigo já sabia a data que a entrega aconteceria. Reza a lenda que ele teria ficado esperando na janela para descobrir quem era o seu benfeitor. Para manter a descrição, Nicolau teria dado a volta e jogado pela chaminé.

                Lendas como essas são fartas sobre São Nicolau. Mas, se algumas são com certeza lendas, e outras são histórias consideradas verdadeiras mas com doses fortes de exagero, existem também alguns fatos dos quais se pode ter certeza sobre a sua vida.

                Nicolau era um homem de profunda fé e ortodoxia. Um de seus maiores desgostos era a heresia ariana, que crescia perigosamente movida pela eloquência de seu principal expoente, Arius (Ário), padre de Alexandria. O elemento principal da heresia ariana é o subordinacionismo, uma doutrina que nega a Trindade como ensinado pela ortodoxia católica. Para a Igreja, o Filho é consubstancial ao Pai. Ou seja, são da mesma essência, e são co-eternos. Arius defendia que o Filho é subordinado ao Pai, e seria uma criação Dele. Isso vai contra a teologia da “homoousios“, a consubstancialidade, que diz que Cristo é da mesma substância do Pai e eterno como Ele. Arius foi chamado a se explicar no famoso Concílio de Niceia, que foi convocado com a ajuda do imperador Constantino.

                É um bom momento para refletir aqui sobre um erro tão repetido. Constantino não ditou teologia, e nem mesmo se envolveu no Concílio. Ele apenas queria quebrar um ciclo de violência que parecia apenas aumentar a gana dos cristãos (lembremos a frase de Tertuliano: “o sangue dos mártires é a semente da Igreja“). A idéia era promover uma paz com a Igreja e permitir um grande concílio que, finalmente, não seria feito quase secretamente para evitar prisões e mortes de cristãos. Nicolau mesmo havia sido preso e torturado pelo antecessor de Constantino, Diocleciano. O que Constantino fez foi apenas tornar um concílio da Igreja um ato legal no Império. Outro fato importante é que nenhuma teologia foi ali inventada. O entendimento trinitário existia desde o começo do cristianismo. As únicas reais novidades eram as heresias! A Igreja usa seus concílios, também, para dialogar e definir mais claramente o que já é de seu entendimento. Isso cria, automaticamente, doutrina e Tradição. Com isso, o que for contrário ao entendimento comum da Igreja, com base nas escrituras e na Tradição, se torna, por definição, heresia. Ver mais no artigo “Apologética – parte 5 – Mais Cristianismo e a Bíblia” (http://www.papista.com.br/2015/06/10/apologetica-parte-5-perguntas-e-respostas-sobre-cristianismo-e-a-biblia/ ).

                O que isso tem a ver com São Nicolau? O que é seguro dizer é que Nicolau esteve presente no Concílio, e teria confrontado Arius. Apesar de (algumas) hagiografias por vezes serem recheadas de exageros ou floreios, os fatos narrados costumam ter alguma base verdadeira, ainda que às vezes recontada em tons de folclore. Pois bem, Nicolau não era um teólogo, o que nos faz pensar que se ele confrontou Arius, é porque a discussão havia chegado em um ponto insuportável, e Arius provavelmente já havia partido para a blasfêmia ou ofensas diretas aos membros e à memória dos santos e estudiosos sobre os quais a Sagrada Tradição é entendida. Quer dizer, Nicolau ou foi ofendido diretamente, ou viu Arius protagonizar um verdadeiro show de horrores e ofensas a homens que ele respeitava. Alguns provavelmente tinham sido santos conhecidos seus. É aí que a parte curiosa da história acontece. Muitas hagiografias de São Nicolau dizem que ele, sem conseguir mais se conter, soca a cara de Arius, que cai estatelado no chão. Nicolau então teria sido preso pela agressão, e sua Bíblia e Pálio retirados pelos demais bispos. Na prisão, o santo recebe a visão da visita de Cristo e Maria Santíssima, que lhe entregam uma Bíblia e um Pálio, símbolos de seu bispado e dignidade episcopal. Ao ver Nicolau de novo com sua autoridade episcopal, os bispos decidem que os atos do santo foram justificados (ou perdoados), e é a vontade de Cristo que sua dignidade episcopal não seja questionada. É por isso que você vê muitos ícones de São Nicolau com Jesus e Maria lhe entregando uma Bíblia e um Pálio (como no topo deste artigo).

                Entre tantos fatos contados sobre a vida de São Nicolau, pode-se dizer que ele era, sem dúvida, um grande homem, e um defensor ferrenho da Igreja e sua Tradição. Viveu para a caridade e para pregar o amor de Deus e Sua Igreja. Se o homem que mais tarde teve sua imagem usada para o personagem mundialmente conhecido como Papai Noel viveu assim, e até mesmo chegou a socar um herege descontrolado para defender seus amigos e Sua Igreja, eu prefiro esse bom velhinho, e não o que supostamente viaja por aí de trenó.

                São Nicolau, olhai por nós! Que sua ortodoxia, defesa da Tradição e vida de fé e caridade sejam um exemplo para todos nós em mais um Natal e para sempre.

                Em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

                um Papista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *