Maria. Quando Eva escolhe o Senhor.

By | 12 de outubro de 2015

Nossa Senhora Aparecida

Um dos mais fascinantes estudos teológicos é o da “tipologia bíblica”. Tipo vem do grego “typos“, e indica uma marca, um selo, um padrão gravado em algo. A tipologia é o estudo a partir de um padrão que se repete. Na tipologia bíblica, isso é o estudo de um padrão em forma pessoal; uma figura, uma pessoa que é reconhecida em diversas passagens. Isso é parte fundamental da “Teologia da Aliança” (ver artigos anteriores2), já que só é possível reconhecer essa aliança ao reconhecer os tipos bíblicos. Assim sendo, fica claro que a Bíblia é, no final das contas, um livro sobre a história da salvação do homem. Para ser mais exato, é um livro sobre Jesus Cristo. Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo. Como ensinou Santo Agostinho, o Novo está contido no Antigo, e o Antigo é revelado no Novo. Toda a história da salvação é um crescendo até se consumar em Cristo. Ele está prefigurado no Antigo Testamento. Cristo é o novo Adão, que vem corrigir o que foi feito e oferecer em sacrifício o que o homem escolheu livremente ferir, a união, o amor de Deus. São Paulo, em uma das grandes passagens teológicas de sua magnífica Epístola aos Romanos, nos ensina sobre o princípio de “morte através de Adão, vida através de Cristo”. São Paulo mostra que a escolha do primeiro homem trouxe a morte, resultado da separação de Deus. Mas que a vida eterna, a salvação prefigurada no Antigo Testamento, é realmente Jesus Cristo. Cristo é o novo Adão, que vem possibilitar ao homem, que de livre escolha se separou de Deus, também por livre escolha viver eternamente com o Senhor.

Se Cristo é o novo Adão, Maria é a nova Eva. Enquanto Eva disse ‘sim’ ao demônio, permitindo ao pecado entrar no mundo através do homem, Maria disse ‘sim’ a Deus através de outro anjo, Gabriel, permitindo a salvação entrar no mundo através dela. Se antes uma escolha desastrosa arriscou a condenação de todos, em Maria, uma escolha amorosa e devotada permite a todos trilhar o caminho da salvação em Jesus Cristo.

Sim, Maria está no Antigo Testamento. De volta ao livros do Êxodo, vemos Deus entregar a Moisés seus mandamentos. Porém, os mandamentos são uma base moral pela qual viver, uma lei indispensável para o caminho do homem, mas é um caminho, e não o fim. Ao fim, Deus comanda Moisés a construir um tabernáculo, e lá as doze tribos de Israel se reuniriam para louvar a Deus na forma da Arca da Aliança, de onde viria o caminho para a salvação (Ex 23 a 25). Nessa passagem temos muitos elementos tipológicos. Os mandamentos eram o caminho, e Cristo é o caminho (Jo 14, 6). O tabernáculo uniria as doze tribos de Israel. Sem contar o fato óbvio do sinal dos doze apóstolos, a união do povo para viver e louvar a Deus, unidos e jubilosos é um sinal da família. A união em volta da mesa, do amor, da Eucaristia como o centro de tudo. O que guardaria o caminho, protegeria, e seria honrada por todos? A Arca da Aliança. O que faria tudo isso por aquele que é o caminho e nossa salvação? Maria! A Arca da Aliança é a prefiguração de Maria. Honrada por todos, e que protegeu o Verbo. Antes, o Verbo nas tábuas da salvação. Depois, o Verbo feito carne.

Outro incrível paralelo nos é dado no fim do livro do Êxodo. A apoteose da história lá contada se dá com Deus enchendo de glória o tabernáculo onde a Arca contém a salvação. A glória entra fisicamente no mundo como uma nuvem que paira e protege a Arca. No Evangelho de São Lucas, o arcanjo Gabriel explica para Maria que Deus enviará o Espírito Santo, e que uma nuvem (ou sombra, em algumas traduções) a envolverá (Lc 1, 35). Em hebraico, a palavra usada nas duas situações é “Shekinah“, uma palavra raramente usada, e que é tanto ligada ao Espírito Santo, como para a glória do Senhor em forma visível, como a nuvem, ou sombra. Uma presença visível e permanente. O que é outro fator a ser considerado quando se fala da Glória do Senhor que envolveu Maria. Glória essa que, por definição, não é momentânea.

É bom lembrar que a Arca não guardava apenas as tábuas da lei, mas também o maná do céu1. O alimento que sustenta o povo de Israel em seus momentos de maior sofrimento, um indicativo do amor divino e de um futuro melhor, da salvação. Maria, a nova Arca da Aliança, carregou depois o maná vivo, Cristo Jesus, nossa salvação no caminho para a terra prometida a todos os homens, a eternidade ao lado do Senhor.

É Maria, com seu ‘sim’ ao Senhor; com a escolha do amor divino; a entrega absoluta; que reflete a luz do Senhor em cada ato e palavra, nos permitindo, assim, a conhecer seu filho, nosso salvador. Maria jamais pode ser considerada uma devoção de senhoras ‘beatas’, como se diz pejorativamente mesmo em igrejas. Maria não é uma devoção ultrapassada, uma inutilidade para o homem moderno, homem esse que se pensa capaz de se ‘iluminar’ sozinho, ou construir sua salvação em atos e política. Maria é o instrumento de Deus para que, através dela, Cristo esmague a cabeça da serpente. A interpretação Mariana em nada deve ser anulada ou contrasta com a Cristológica. É Maria a mesma portadora da aliança usada para derrubar os muros de Jericó, algo que parecia tão impossível quanto é para o homem vencer o pecado em si mesmo. Maria é uma força poderosa de amor infinito a Deus, e por sua proteção e devoção Deus pôde nos dar Seu Filho.

Se você não acredita, leia o livro do Apocalipse! São João descreve o retorno da Arca da Aliança, perdida desde a destruição do Templo de Salomão. E ela tem a forma da mulher (Ap 12). É Maria, que carrega o Filho de Deus, único responsável pela derrota final do mal. Nada relacionado ao livro do apocalipse deveria ser entendido como devoção de velhas senhorinhas, que com doçura contam suas décadas de alguma ‘antiga superstição’, como o Rosário. Nenhuma visão do apocalipse pode refletir algo assim. Maria é uma incansável guerreira pela verdade e o amor, e nenhuma devoção mariana é inócua ou ultrapassada. Pelo contrário! É a hora de espalhar a todos que ela carrega nossa salvação! É Maria que reflete o Senhor. É a Rainha dos Céus, coroada por Deus para continuar em sua missão pelas almas dos homens. E apenas uma arca pura e brilhante como o ouro da antiga aliança, pura e imaculada, poderia carregar o maná vivo. A Shekinah que antes purificava e protegia a antiga aliança, depois criou e manteve Maria, através de seu ‘sim’ verdadeiro e vitorioso, pura e imaculada para sempre. É ela que pode interceder pelo homem diretamente ao seu Filho, nosso único salvador.

Ignorar Maria é ignorar a Bíblia. É ignorar as claras referências e promessas divinas sobre o seu papel em nossa salvação. Ainda que nossa salvação seja unicamente em Cristo, é por ela que Ele veio, e por ela que Ele virá novamente no fim dos tempos. Ignorar Maria é ignorar quem o anjo afirma ser “cheia de Graça“, e a quem a Shekinah divina protege e torna parte do projeto divino. Ignorar o papel de Maria em nossas vidas é virar as costas para a Mãe de Deus, nossa mãe. É ir contra a vontade divina. É negar tudo o que está claramente inspirado por Deus em Sua palavra.

Maria, que apareceu para os homens em tantos momentos, seja em Lurdes, em Fátima, ou mesmo em Aparecida, nossa devoção mariana mais próxima. Maria, que prometeu que seu amor para com seu Filho, juntamente com seu imaculado coração, jamais permitiriam que os homens que a ela recorressem ficassem desamparados, sem o amor de seu Filho, nosso Senhor. A devoção mariana é mais do que uma superstição, e de forma alguma deve ser considerada não-bíblica, ou dispensável. É necessária! É a segurança que só uma mãe carinhosa pode dar aos filhos. Ouça sua Mãe! Seja no Santo Rosário, seja em oração, seja da forma que for. Ela sabe o que é melhor para você. Ouça sua Mãe!

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós.

Em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

1 – além do cajado de Aarão. Cajado esse, aliás, que tipologicamente é um símbolo da sucessão apostólica, preservada para sempre para ser passada adiante pelo maná vivo ao seu sumo-sacerdote e seus sucessores. Mas isso é para outro artigo.

2 – Artigos: “Recompensa Infinita”, e outros, podem ser encontrados pela busca no site. Link: http://papista.com.br/2015/08/23/recompensa-infinita/

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