Apologética – parte 7 – “sola scriptura”, apenas a bíblia?

By | 16 de julho de 2015

O princípio de sola scriptura, como adiantei no último artigo, é o princípio formal da reforma protestante. É o princípio pelo qual os reformadores enraizaram seus questionamentos. Incorformados com os rumos do catolicismo na época, só lhes restava tentar retirar o que eles chamavam de “o poder temporal da Igreja”, fazendo assim com que a Bíblia fosse a única fonte de revelação divina. Na impossibilidade de cortar livros que tornavam suas novas doutrinas quase impossíveis, só restou aos reformadores construir explicações aparentemente complexas para justificar seu movimento. Entre elas, a de que a bíblia é formalmente suficiente para qualquer doutrina e prática cristã. Ou seja, apenas o que está na bíblia é válido. Veremos como esse princípio é um castelo de cartas pronto para cair. Além de ser um princípio que apenas causou desunião, e não a união requerida por Cristo em sua Igreja. Mais uma vez, no formato de diálogo. Na esperança de ajudar aos que querem encontrar a verdade na Igreja Católica mas ainda têm dúvidas, e ajudar os católicos a fortalecer a sua fé e a defendê-la. Vamos à apologética.

“Eu acredito que a bíblia é a palavra de Deus e é inspirada por Ele.”

– Que bom! Eu também! Assim como qualquer católico ou cristão, seja ele de que denominação for. Nenhum católico debate isso.

“O pastor da minha igreja disse que a Igreja Católica não segue a bíblia, e que só o que importa a vocês são tradições dos homens.”

– Seu pastor está enganado, ou mentindo para você. Prefiro crer que ele está enganado, e que isso é ignorância pura, ou está repetindo o que gente mal intencionada ensinou a ele. Algo que, infelizmente, continua sendo repetido. Na verdade, a Igreja é a única responsável pela existência e preservação da bíblia. Não só é tratada pela Igreja como inspirada por Deus, como aceita como infalível. Quanto à tal “tradição do homem”, isso é outro engano. A Igreja acredita que as escrituras são parte da Sagrada Tradição, e que essa Tradição é bíblica e fonte de autoridade. A Tradição (em maiúsculo quando se trata da Sagrada Tradição) engloba fontes orais, tanto da transmissão do que seria a bíblia depois, além de ensinamentos extra-bíblicos que formam a sucessão apostólica e indicam autoridade. Autoridade essa, tanto na formação da Igreja e da bíblia, quanto interpretativa. Tudo isso pode se verificar nos primeiros passos da Igreja, no tempo de Cristo, e ainda nas páginas das escrituras.

“OK, então vocês se interessam pela bíblia. Você diz que sua “Tradição” é bíblica. Pode me dar um exemplo?”

– Com prazer. Na Segunda Epístola aos Tessalonicenses, São Paulo diz: “Portanto, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, SEJA POR PALAVRAS, seja por carta” (2Ts 2,15). Além de 2Ts 3,6. Ou 1Cor 11,2 : “Eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as tradições como eu as transmiti“. E muitos outros.

“Eu li um site protestante que disse que vocês tiram esses versos do contexto.”

– Muito curioso ler isso de um protestante. Afinal, o literalismo e tudo fora de contexto é uma constante na apologética protestante. Quer dizer que, quando interessa, o contexto aparece? OK, então lhe digo que isso é um engano. Todo contexto foi respeitado. No caso da carta aos Tessalonicenses, São Paulo falava de falsas mensagens passadas à comunidade, e como reconhecer os corretos ensinamentos. O problema é que isso de forma alguma anula o fato de que ele confirma a transmissão oral como uma fonte de Sagrada Tradição. Mesmo quando ele alertava sobre falsas mensagens, ou falava em outro contexto, ele ainda deixava claro que a tradição apostólica, mesmo por via oral, valia. E o ponto importante é que em todos esses casos, ele assegurava que existia uma interpretação correta vinda da sucessão apostólica pela sua própria autoridade. Essa autoridade na sucessão apostólica é o Magistério. Se o exegeta protestante começa a falar em contexto, a coisa não melhora para ele. Por isso, talvez, seja tão raro. Esse argumento, no fim, apenas aponta para uma autoridade oral, confirmada pelo contexto, muito mais que as citações.

“Mas se a bíblia não é a única fonte, não ocorre o perigo de falsa interpretação? Me parece perigoso acreditar na transmissão oral.”

– É exatamente o contrário! Em primeiro lugar, eu repito, a bíblia continua sendo fonte insuspeita de transmissão da vontade de Deus. Segundo, é a ausência de uma transmissão apostólica segura e imutável que impede (impede!) uma interpretação coesa e constante das escrituras. A maior prova disse é o protestantismo em si! Ora, se a incapacidade de concordar com uma interpretação provocou a multiplicação acelerada de denominações protestantes (alguns dizem até 30.000 denominações!!!), como pode isso ser elogiado? Deus nunca disse: “vá e interprete como quiser, e provoque a desunião do povo de Deus.” Ao contrário! E o protestantismo em si é a prova da necessidade do Magistério da Igreja, a âncora que impede que a barca seja levada para uma direção qualquer, sem rumo; e o Papa no trono de Pedro, a rocha que garante uma sucessão visível e coesa. A visibilidade da sucessão petrina é algo muitas vezes ignorado. Não devia. Não é possível esconder uma cidade sobre um monte, nem se acende uma vela para pôr debaixo de uma vasilha (Mt 5,14).

“Mas a Igreja é formada por pessoas. Pecadores como eu e você. Por que eu acreditaria neles, e não nas escrituras?”

– De novo, não existe essa separação. Não existe “ou a Igreja, ou as escrituras”. Existe um Magistério (professorado) que está ali para transmitir, tornar claros, traduzir os ensinamentos bíblicos. Jamais ir contra, ou mesmo dizer algo contraditório. Jamais aconteceu. E é exatamente por isso que é confiável. A Igreja é formada por pecadores, mas isso não impede que, para transmitir as verdades de Deus, Ele a reforce e proteja contra erros. Ou seja, mesmo que tenham existido papas ruins, e existam membros da Igreja ruins e de atitudes lamentáveis, nenhum deles jamais mudou uma vírgula do que foi transmitido pelos apóstolos em declarações oficiais e formadoras da Tradição. E é exatamente isso que deve ser levado em conta. Há que se perguntar o porquê! Como uma igreja que teve seus capítulos ruins jamais alterou a Palavra de Deus?, ou não publicou qualquer doutrina ou explicação doutrinal que contradissesse a bíblia ou a Tradição? Isso é um ponto tão positivo da Igreja que merece a sua reflexão. De fato, o que é dito nas escrituras foi confirmado. Mt 16, 18, por exemplo. “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela“. E assim o é! E Mt 7,25 explica essa intenção: “Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos, e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada sobre a ROCHA“. A rocha é Pedro. E por mais que problemas aconteçam; por pior que sejam alguns membros da Igreja, ela está protegida pela promessa de Cristo e, como prova, nada jamais mudou no conteúdo da transmissão da Palavra de Deus.

“O protestantismo não tem nada contra os grandes pensadores e exegetas católicos, apenas acreditamos que a bíblia é ‘formalmente suficiente’ em si mesmo para a interpretação bíblica e a vida cristã.”

– Que tal um pequeno exercício de interpretação? O grande autor e apologista Patrick Madrid formulou um simples exercício que pode nos ajudar a entender o problema. Olhemos a frase: ‘eu nunca disse que você roubou dinheiro’. Parece simples, mas o que será que o autor quis dizer de verdade? Qual dessas opções você pode afirmar como única e verdadeira:

EU nunca disse que você roubou dinheiro’. Não fui eu, foi fulano.

‘Eu nunca DISSE que você roubou dinheiro’. Eu não falei. Eu pensei, ou só escrevi para um amigo, de forma privada, na dúvida.

‘Eu nunca disse que VOCÊ roubou dinheiro’. Eu disse que fulano roubou, não você.

‘Eu nunca disse que você ROUBOU dinheiro’. Eu disse que você pegou emprestado, não roubou.

‘Eu nunca disse que você roubou DINHEIRO. Eu disse que você roubou um palito de dentes, e não dinheiro. Claro que isso não é um grande problema, não?

Enfim, a mesma frase pode ser interpretada de formas muito diferentes. E nem sempre o contexto ajuda. Quem terá, então, a interpretação correta? Se todos têm a sua interpretação, quem pode dizer o que realmente Cristo disse? Note que as diferentes denominações protestantes não diferem apenas em detalhes. Elas diferem em coisas fundamentais, como o batismo! Isso não é um mero detalhe! É fundamental para a vida cristã! E se elas divergem nisso, e muito mais, como pode isso ser bom, ou estar correto?

É exatamente nesse momento que o Magistério é essencial. É a Igreja, através do testemunho apostólico por ela mantido (graças apenas à Igreja!), que lhe dirá não só o contexto, como a verdadeira intenção do autor ao descrever a Palavra de Deus. É apenas pela linhagem jamais quebrada, visível e inequívoca da Igreja que a interpretação, diretamente dos apóstolos, existe. E apenas ela carrega o Depósito da Fé, pelo qual se garante a segurança das interpretações. E é aí que a longevidade e ausência de mudança em dogmas e na transmissão apostólica entram como credenciais confiáveis.

Eu li um apologista protestante explicar que a bíblia equipa todo homem para saber tudo o que é necessário, sem a ajuda externa de um tal magistério. Como alguém receber um carro já montado, com todos os acessórios e peças necessárias para se andar.”

– Quem gostava muito desse exemplo era o pastor James White, participante de centenas de debates, em que ele destilava todo seu ódio e sujeira contra a Igreja. Mas, como argumento, é válido e merece ser examinado. Porém, esse exemplo saiu pela culatra quando Patrick Madrid lhe perguntou: ‘e quem ensina a dirigir esse carro?‘. White não se deu por vencido, e deu outro exemplo similar: ‘então seria como o soldado equipado com tudo o que ele precisa para vencer a batalha’. Ao que o apologista católico retrucou: ‘de novo, quem treina o soldado para usar esse equipamento?‘. E deu no que deu.

No mais, o protestante está se utilizando de uma passagem da Segunda Epístola a Timóteo (2Tm 3, 15-17) em que São Paulo explica o valor das escrituras. O problema é a péssima (e conveniente) interpretação protestante. De novo, estar perfeitamente equipado não lhe garante o conhecimento e devida interpretação para uso do tal equipamento. E há outros problemas, como o fato de Paulo dizer “Toda Escritura é inspirada por Deus…”. O que ele queria dizer? Até aquele momento (e até muito depois), não havia a bíblia. Existiam os livros do AT, e os livros que ainda vinham sendo escritos pelos autores do NT. Ele queria dizer então que qualquer livro seria suficiente para equipá-lo para tudo? Ou que os livros até ali seriam, mas os próximos, incluindo os seus mesmos, não seriam? Ora, claro que não. Ele realmente queria dizer que cada livro inspirado por Deus seria útil para certas questões, mas todos sagrados. Mas, pela interpretação protestante, as interpretações erradas não podem ser descartadas por si mesmo. Elas não podem ser garantias de si próprias, e falta a palavra definitiva para interpretá-las. E ser útil e equipado para a batalha não significa esgotar as demais fontes. Ou seja, não há motivo para acreditar que os apóstolos quiseram passar que um livro que não existia seria a única fonte. Não quando isso contradiz o que foi dito também na bíblia, como visto antes. A única conclusão coerente, e que impede a idéia de que existem contradições na Palavra de Deus, é a de que os protestantes estão errados, e que essas passagens, como 2Tm 3, 15-17 não indicam a bíblia como única fonte.

“Ainda não sei. Não tenho confiança nas pessoas. Acredito que só o que está na bíblia é necessário para nossa salvação”.

– OK. Então me diga aonde isso aparece na bíblia? Afinal, se essa declaração não está na bíblia, por que você acreditaria nela? A menos que você, no fundo, não acredite nisso, e sim em uma tradição de fora da bíblia, mesmo que ela seja alimentada e alimente a bíblia. Não existe passagem que diga isso, e as outras nós já vimos que não servem para justificar a doutrina de sola scriptura. Isso se chama a “falácia lógica da incoerência auto-referencial”. Falácias lógicas são erros ou distorções em uma proposição lógica. Elas podem fazer erros parecerem verdades, ou apenas jogar fumaça em uma questão, para que o debatedor não perceba a verdade por trás da falácia. Nesse caso específico, a pessoa recorre a uma declaração que, quando colocada contra si mesmo, se mostra incoerente. Por exemplo, a declaração óbvia da epistemologia relativista de que “eu não acredito em verdade absoluta porque a toda verdade é relativa”. Basta perguntar: “você tem certeza absoluta disso?”, e o argumento cai por terra e a falácia se mostra. Quer dizer, você não pode propor um argumento sobre a não existência do conhecimento sem usar o conhecimento. No caso bíblico, você não pode dizer que só o que está na bíblia é necessário para a nossa salvação se tal afirmação não existe na bíblia. Isso só mostra que você está apelando para uma tradição externa enquanto demanda que nenhuma seja usada. Ou seja: sola scriptura não é bíblico!

“Ainda que isso faça sentido, você tem exemplos de tradição oral e extra-canônica válida na bíblia?”

– É um pedido curioso, e ainda dentro da exigência tola de tudo estar presenta na bíblia quando nem essa exigência existe. Mas, quer saber? Tenho exemplos sim! E até mesmo nos quatro evangelhos. Agradeço aqui ao apologista Dave Armstrong e seu livro “100 biblical arguments against sola scriptura” (100 argumentos bíblicos contra sola scriptura). No evangelho de São Mateus (Mt 2, 23) está escrito: “e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumpra o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno“. Ora, essa referência à afirmação dos profetas de que Jesus Cristo seria chamado de Nazareno (Jesus de Nazaré) não existe no Antigo Testamento! Exatamente! Ela não existe nas escrituras antes da citação do evangelho! Ou seja, ela era uma tradição oral e extra-canônica. Ou seja, os apóstolos jamais pregaram sola scriptura, nem a seguiam. Se assim fosse, esse fato seria uma contradição, ou o evangelho estaria errado (e com isso todo protestante que diz “Jesus de Nazaré”). Como nenhum cristão pode afirmar que existem erros na bíblia, ou que determinada passagem não é inspirada, ou não é a Palavra de Deus, só resta a ele aceitar que sola scriptura é uma contradição, não é bíblico, e não deve ser pregado.

Enfim, não existem motivos para crer que sola scriptura, a outra ponta da frágil base do protestantismo, seja verdade. Retirando do caminho o princípio de sola scriptura, só nos resta admitir que existe uma Sagrada Tradição (como vimos no caso do parágrafo anterior), e que existe um Magistério (idem). Esse Magistério, como foi afirmado antes, pode ser visto e identificado além de qualquer suspeita pela longevidade, vitalidade, e pela imutabilidade dogmática da Santa Igreja Católica. Apenas ela é Mater et Magistra, Mãe e Mestra. Apenas ela vem diretamente dos apóstolos em uma linhagem ininterrupta. E apenas ela pode dizer exatamente como ler e interpetar a vontade de Deus nas Sagradas Escrituras.

em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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