Amor como arma política, a moral, e o futuro.

By | 28 de junho de 2015

Guard rail 2

Pouco importou se a Suprema Corte americana virou um STF brazuca e atropelou o legislativo. Tampouco se esse processo é totalmente irregular, ainda que isso coloque qualquer país em uma cilada perigosa, já que agora o processo formal virou farra, e nada impede o total colapso de um sistema inteiro, ou mesmo da república. O que deveria causar pânico em qualquer cidadão, tanto lá como aqui, causou apenas festa (até mais aqui do que lá). Afinal, se sua ideologia foi vitoriosa, não importa se foi por trapaça ou se o precedente é potencialmente devastador até para o mais legalista dos observadores. Venceu um tal ‘amor’. Amor, nesse caso, é um ato político, e nada tem a ver com o sentimento.

Há 100 anos, G.K. Chesterton, discutindo o que se achava que seria a próxima grande heresia, disse que seria a imoralidade sexual, e que o perigo vinha de Manhattan, e não da Rússia. Profecia cumprida, resta a quem não tem a visão de um Chesterton tentar enxergar no horizonte qual é a próxima.

Se o amor é sem limites, a poligamia está pronta para recolher o seu quinhão. Como eu discuti em outro artigo, “O Próximo Passo” (http://papista.com.br/2015/01/13/o-proximo-passo/ ), a morte de crianças, o ‘aborto pós-parto’, está na fila. Só restará definir a idade. De forma cientificista, e não exatamente científica, deverá ser definida uma idade como 6 anos, e será definida, como já é, como ‘a idade da razão’. Antes disso, será liberado matar seu filho se a presença dele atingir a sua liberdade (na lamentável definição modernista, como algo sem a contrapartida da responsabilidade). Não haverá outro instrumento senão o que uns chamam erradamente de ‘razão’, nem outra ferramente senão a ciência para esse ingrato trabalho de definir os limites. Afinal, como dizem, passamos do tempo em que ‘superstições’ como a moral eram levadas em conta.

Do outro lado, a pedofilia. Partidos pedófilos já existem. Na Holanda, paraíso dos liberais, o partido avança exatamente sob essa pergunta: “por que não?”. Ora, se o amor é livre e absoluto em seu impulso, e as antigas ‘superstições’ foram deixadas de lado, só nos resta recorrer novamente aos instrumentos citados. Pesemos o fato de que limites anatômicos não são hoje impedimentos sexuais, e é fácil entender que, obviamente, eles não serão no futuro. Dessa forma, só nos restarão novamente as ferramentas já citadas. Ou seja, a idade da razão. Definida como 6 anos, por exemplo, o pedófilo (logo seremos chamados pedofilofóbicos por chamá-los assim, então use a palavra enquanto pode) poderá se casar com seu filho de 7 anos se assim tiver construído uma relação em sua creche ou escola. Seu filho, convencido de que o ama, não poderá ser impedido de se unir ao pedófilo numa sociedade que luta pelo ‘amor livre’ e já nos vê como um fósseis moralistas e qualquer-coisa-fóbicos.

Teremos várias ‘idades da razão’ para evitar isso? Gradações bem definidas por psicólogos, sociólogos e engenheiros sociais das mais diversas áreas? Até os 6 anos você pode ‘abortar’ seu filho, mas apenas aos 10 você pode casar com seu pedófilo travestido de namorado de 40 anos? No fundo, você não pode definir uma e reclamar da outra depois. Você abriu a porteira e derrubou o limite. Quando isso acontecer, viva com isso, se puder!

Apenas uma barreira existe entre tudo isso e a realidade. E é a barreira que hoje não pode ser usada: a moral! O problema não é se a moral existe, mas que moral? O que é moral? De onde ela vem? E aí começa a impossibilidade lógica e o quid pro quo liberal. É impossível se apelar para a moral a menos que você se convença de que existem absolutos. Se existem absolutos, não é tudo relativo. Mas se é tudo relativo, a moral não é mais medida, e apenas essas gradações pseudo-científicas restam para o uso.

Se a moral é a mesma de sempre, falamos da moral cristã, esse palavrão medieval em tempos modernos e liberais. Não é possível ser seletivo com algo baseado em absolutos. Ou será que nem isso o liberal é capaz de entender? Incapazes de fugir da lógica, ou mesmo da confusão em suas mentes, ao liberal só resta, com o perdão da redundância, liberar tudo e gritar “seja feliz como quiser” e, como Pilatos, lavar suas mãos enquanto permite que o que é bom e moral seja morto. Ou procurar as mais bizarras explicações para o inexplicável.

Sejamos claros, se você for capaz. Nada tenho contra a pessoa que vive como gay se ela assim desejar. Ainda que sejamos contra um princípio, temos que amar a pessoa. Apenas saiba que assim como eu tenho meus limites, você tem os seus. Não queira ser papai se você é mamãe. Assim como meus atos geram consequências e me impedem de ter acesso a certas coisas, os seus também têm que ter as mesmas consequências. Eu aceito isso! Passou da sua hora de aceitar a sua parte nos deveres e parar de pedir tudo para o governo. E aceitar as consequências e parar de ‘liberar’ tudo para jamais ouvir um ‘não’. O não da moral é, na verdade, um ‘sim’. É um sim libertador e protetor. É o ‘guard rail’, a barreira de proteção da vida. Te protege contra quedas possivelmente fatais, e te permite prosseguir na estrada da vida. Ninguém pode ser contra um ‘guard rail’, ou achar que a proteção é um limitador, algo que restringe seus direitos e sua liberdade. De qualquer forma, ele tem que existir para todos. Você tem o livre-arbítrio, uma capacidade de ir contra qualquer coisa. Porém, não é possível fugir das consequências. Nem a força da lei dos homens pode fazer parecer que não existem consequências, assim como descriminalizar as drogas não as fariam menos mortais. Se você passa do ‘guard rail’, abrace o abismo. E quando vale tudo, mesmo a farsa da quebra das leis, do processo jurídico, da ditadura do relativismo, da criminalização do contraditório, da imposição sobre as instituições religiosas, é porque a barreira de proteção já ficou pra trás faz tempo, e realmente só resta o abismo.

Uma nota para todo cristão, religioso ou quem acredita em princípios absolutos e na moral cristã: a guerra cultural estava perdida muito antes da decisão da Suprema Corte americana, das cortes brazucas ou qualquer outra. Não houve batalha, na verdade. Os cristãos aceitaram os termos da modernidade, e se apequenaram no debate. Quando não estavam celebrando a paz inexistente, ou lutando por mais heresia, como marxismo na Igreja, estavam com medo de expor seu pensamento e ser chamados de ‘qualquercoisofóbicos’, ‘medievais’, ‘inimigos do progresso’, ou qualquer uma dessas besteiras. A lição tem batido na nossa cara e nós não aprendemos. A hora do debate vai passando, e o que resta para o cristão será a vida como um pária. Marginalizado, vivendo e praticando sua fé escondido ou envergonhado, o cristão será um cidadão menor, aceitando uma vida marginal em uma sociedade que não se importa em fazer tal injustiça com quem não concorda com ela. Afinal, preconceito é apenas o que se faz contra eles. Se for praticado por eles, é ‘libertação’. Ou o cristão, atrasado como está, estuda, reza, e vive uma vida de exemplo e debate franco, ou não há a menor esperança para nossa sociedade.

Mas o que isso importa? O ‘amor’ venceu, não? As leis foram quebradas, os processos destruídos, e as barreiras caíram. Tudo como o liberal mais gosta. Revolução e caos. Só não se espante se outras formas de ‘amor’ vencerem em seguida, levantando o seu exemplo como bandeira. Espero que você e seus filhos vivam bem com a pedofilia, a poligamia e o ‘aborto pós-parto’. Isso é o que o seu ‘amor’ vai nos deixar.

O amor que eu acredito, o amor de Deus, é tão grande que é capaz de dizer NÃO aos seus filhos quando algo está errado. É capaz de colocar um ‘guard rail’, uma barreira, para nos proteger, ao mesmo tempo em que nos dá o livre-arbítrio para nossas escolhas. Deus sabe e já nos disse o que está certo e o que está errado. Todos sabemos de uma forma ou de outra, até mesmo pelo senso comum. Mas fique à vontade com sua tal liberdade, seu cientificismo, ou seu medo de ser taxado de medroso (qualquercoisofóbico) num grupo de luminares liberais (SIC) e, com tudo isso, definir o indefinível. Só não reclame depois, quando houver apenas choro e ranger de dentes. Nenhuma sociedade relativista sobreviveu. Se essa for a nossa escolha, a nossa também não sobreviverá.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

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