Apologética – parte 4 – Cristianismo e a Bíblia

By | 5 de junho de 2015

Nos artigos anteriores, nós vimos alguns argumentos a favor e contra a existência de Deus. Vimos também como argumentar usando a razão e a lógica para deduzir e provar a existência de Deus. Na verdade, seriam preciso muitos livros para esgotar o assunto. Posso voltar a ele um dia, nada impede. Mas, no momento, é preciso seguir adiante, confiante de que foi possível provar o mínimo: que acreditar em Deus não é irracional; que o diálogo pode ser feito com caridade, mas com vigor e entusiasmo; e que não é preciso ter as regras do debate impostas por uma falsa autoridade, a do ateísta militante que pretensamente se arma com pseudo-razão e a ciência para tentar usá-las não como ferramenta, mas como princípio e fim do diálogo. Este texto tratará do cristianismo, sua base histórica, a formação da Bíblia, mais especificamente o Novo Testamento, e alguns mal-entendidos sobre os assuntos.

Um dos aspectos mais fortes do cristianismo é sua historicidade. Talvez por isso mesmo ela seja tão atacada. Em geral, inutilmente. Porém, é sempre uma oportunidade para se ensinar corretamente a história do cristianismo, e fortalecer a sua capacidade de explicar e defender sua fé. Depois dessa exposição, tentarei organizar em forma de tópicos cada assunto e questionamento. É mais fácil e divertido de se estudar e fazer apologética.

O cristianismo, e me desculpe pela obviedade, é a história de Jesus Cristo. Friamente descrevendo o fato histórico, é a história de um judeu palestino que deixou um legado religioso com o qual aproximadamente 2 bilhões de pessoas se identificam, de uma forma ou de outra, como seguidores. Quem poderia fazer algo assim, e como? Um fato que torna o cristianismo ainda mais impressionante é que Jesus jamais deixou nada escrito. Um ponto que lembrarei em outra oportunidade.

Para entender o cristianismo, é preciso se entender um mínimo sobre o judaísmo e a história de Israel antes de Cristo. Escravizados e conquistados diversas vezes, mas seguindo promessas e realizações de profetas que falavam com autoridade dada por Deus, os judeus da época de Cristo esperavam um messias. Só que o Messias, no entendimento deles, não viria para todo o mundo, e a libertação era um ato específico e físico. Ele viria para libertar Israel e colocá-los devidamente sobre as outras nações, como o povo escolhido. Todo cristão crê no Antigo Testamento, nas promessas de Deus, suas realizações e ensinamentos pelos profetas. A única diferença é a interpretação dos atos do messias, e como identificá-lo por isso. Mas é nesse ambiente de esperança da libertação dos judeus que nasce Jesus Cristo. Aos 30 anos, ele começa seu ministério, e aos 33 anos é morto pelas mãos das autoridades romanas por meio de crucificação. Depois de sua morte, o cristianismo deixa de ser um pequeno grupo de seguidores assustados para se tornar uma força que converte o Império Romano, se espalha rapidamente, produz mais obras e pensadores do que se pode contabilizar mesmo nos primeiros cinco séculos, e se torna a grande potência espiritual do mundo. Para desqualificar o cristianismo seria necessário, entre outras coisas:

1) negar a existência de Cristo

2) invalidar o testemunho de cristãos e até mesmo não-cristãos

3) ferir a incrível historicidade do cristianismo e a formação do Novo Testamento

4) invalidar o ato que faz com que alguns homens assustados se tornem incríveis pregadores, mártires e produzam uma religião que desafie o entendimento recorrente sobre multiplicação lenta e organizada de um suposto culto.

Negar a existência de Cristo não deve ser uma tarefa agradável, mesmo para os poucos que tentam. Poucos tentam com seriedade, a maioria em nível “popularesco”. Para tentar isso, você teria que negar muita coisa. Dos escritos até a tradição oral. E nenhum deles pode ser desconsiderado. Tradição oral ainda era muito forte na época, e a capacidade de propagação da informação deixaria qualquer pessoa da nossa era de queixo caído. Devemos muito à tradição oral, e dela tiramos muita coisa. Na época, era com essa tradição que muito do cristianismo, além de toda história, se espalhou. Mas, especificamente sobre o judaísmo e o cristianismo, há um detalhe importante. É uma tradição auto-corretiva! Em primeiro lugar, pelo valor que a tradição oral tinha. Era comum decorar enormes quantidades de texto, ou histórias. E a comunidade cuidava para que nada mudasse. Rabinos eram treinados para decorar a Torá inteira e, de fato, só podiam pregar depois que isso tivesse sido feito e testado. E mensageiros e contadores de história sabiam quantidades de páginas que encheriam volumes do que se lê hoje em dia. Ou mais, já que se lê tão pouco. E tudo isso, repito, numa sociedade acostumada a não aceitar diferenças, erros, na reprodução dessas informações orais. A parte escrita sobre a existência de Cristo é ainda mais difícil de ser refutada. Em primeiro lugar, suas biografias, os evangelhos. Acostumados com as biografias modernas, em que elementos freudianos são buscados na infância, e escândalos e outros elementos são a base, é difícil entender que os evangelhos são isso: biografias. A palavra evangelho significa “boa nova”. Eu comentei neste site como os cristãos pegavam nomes, datas e locais pagãos para fincar a Palavra de Deus e, com isso, corrigir os antigos erros. Em certos momentos, é quase uma provocação. No caso, toda vez que o imperador romano vencia uma batalha, conquistava um novo território, ou tinha algum novo tributo para lançar, ele o fazia por meio de emissários que anunciavam “a boa nova de César”. A idéia cristã, então, era dizer que “a boa nova” (euangelion, em grego, e evangelium, em latim), na verdade, não era de César, mas de Jesus Cristo. E o foco das biografias era apenas o tempo de ministério de Cristo, até sua morte e ressurreição. Mas, de uma forma ou de outra, os evangelhos são biografias. E mesmo antes de ser colocados no papel, já eram tradição aceita e inconteste dos fatos. Além do evangelho, temos fontes não-canônicas, e até mesmo não-cristãs. Essas são muito importantes. Judeus, romanos, e pessoas de toda nacionalidade e credo, vivendo na época de Cristo, e contando o avanço do que muitas vezes era até chamado de “abominação”, retratavam o cristianismo, e reproduziam histórias contadas tanto nos evangelhos, nas cartas que formam o restante do NT, como as fontes extra-canônicas. De fato, alguns historiadores demonstram que seria possível reconstruir os evangelhos e as cartas apenas com citações de autores não-cristãos. Tácito, Suetônio, Flávio Josefo, são alguns nomes mais famosos entre historiadores e fontes extra-canônicas. Além disso, é possível verificar todo personagem maior e confirmar sua presença e ação, como Pilatos, Herodes, e outros. Todos confirmam a existência de Cristo. Alguns são difíceis de serem ignorados exatamente por serem contra Cristo ou o cristianismo. No final, é simplesmente muita coisa para se negar a existência de Cristo por meio de fontes históricas. Seria preciso invalidar testemunhos tão diversos em suas fontes e opiniões, como as fontes não-cristãs.

Como um bando de homens assustados pode ter formado o cristianismo? É bom lembrar que os mais fiéis seguidores de cristo eram pessoas normais, judeus que acreditavam em Cristo, mas, na verdade, não entendiam perfeitamente o que ele vinha dizendo, nem em quê resultaria o seu ministério. Como eu disse antes, era natural que eles esperassem resultados concretos, como a libertação dos judeus, e o fim dos conquistadores romanos. Então seu mestre e senhor é preso e morto pelas mãos dos tais conquistadores, ajudados por alguns dos judeus que Ele deveria libertar? Some isso à perseguição por todos os lados simplesmente por ser um seguidor de Cristo, e é mais que justificável que mesmo seus mais fiéis apóstolos, os que haviam prometido morrer por ele, o negassem e voltassem às suas vidas como antes da pregação do Filho de Deus. Mas como explicar o fato de que, em alguns dias, esses homens assustados, divididos, sem entender o que estava acontecendo e o que Cristo realmente era, duvidando dele, perseguidos, se erguem e saem pregando não só as palavras de Cristo, mas afirmando que ele ressuscitou e com isso provou sua divindade? Não só isso, mas deixam de ser tudo aquilo descrito antes, além de largar o que tinham para não ganhar nada, perder tudo, sofrer as piores torturas, humilhações, dificuldades, ficar longe das famílias e, por fim, morrer aceitando livremente seu assassinato das formas mais violentas e nas mãos de seus inimigos? Apenas a ressurreição de Cristo, e testemunhada, não como boato, pode explicar isso. Apenas ver aquilo que é a base de todo cristianismo; a prova de tudo o que Cristo pregou; aquilo que explica o que até então não fazia todo sentido; o que une as pontas dos ensinamentos, as mudanças na Lei; a morte dolorosa do messias; a confirmação de todas as profecias e promessas de Cristo. Nada mais explica o início do cristianismo, que, como Cristo, parecia derrotado e fadado a ser apenas mais uma “boa mensagem” que pregou “paz no mundo”, e caridade. Não foi apenas por uma mensagem que o cristinianismo nasceu e frutificou. Se fosse apenas uma mensagem, não seria tão diferente ao ponto de causar uma mudança histórica sem precedentes. Mas porque algo concreto aconteceu. Algo que foi testemunhado e vivido. Algo que confirmava e explicava. Algo por que valia a pena perder a vida. Porque comprovava quem Cristo dizia ser, e dava a eles algo melhor no futuro.

Em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

P.S. – Continuo no próximo artigo com a apologética cristã, e passaremos a mais objeções e questionamentos, tanto históricos como teológicos, sobre o cristianismo e a Bíblia.

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