Apologética – parte 2 – Santo Tomás de Aquino e a existência de Deus.

By | 20 de maio de 2015

No artigo anterior, vimos o famoso “Argumento Ontológico de Santo Anselmo”, e a importância da investigação filosófica de Deus utilizando a razão. Eu sintetizei o argumento e espero ter despertado um desejo de investigação mais profunda em meus poucos leitores. Também demonstrei como a Igreja, e seu constante questionamento, não deixam dúvidas sobre sua busca pelo conhecimento e aprofundamento intelectual como forma de se encontrar e entender o melhor possível a Deus. Uma outra prova desse aprofundamento é exatamente a relação de Santo Tomás de Aquino com o argumento ontológico de Santo Anselmo. Santo Tomás tinha todo o respeito por Anselmo e sua investigação. Ele apenas era honesto o suficiente para, depois de longo estudo, afirmar que não achava o argumento forte e convincente o bastante. Santo Tomás, então, parte para usar a razão para trazer à tona novos questionamentos e argumentos para tentar explicar a existência de Deus. Seu trabalho se chama Quinque Viae, “as cinco vias”, ou “cinco provas” como também as chamam. São cinco argumentos contidos em sua magnum opus, a Suma Teológica. Não ouso aqui dizer que eu esgoto a questão, ou me aprofundo suficientemente. Pretendo apenas apresentar os argumentos de forma a comprovar o mínimo: que eles são absolutamente racionais e válidos para uma investigação filosófica honesta e potencialmente satisfatória para se aceitar a conclusão.

– O argumento do movimento, ou do “primeiro motor”: é um argumento que começa com a simples observação de que as coisas se movem. Tudo o que se move, se move por algum motivo. Por “se mover”, devemos considerar movimento, transformação etc. Se refizermos uma cadeia causal, veremos que antes de cada movimento, existe algo para mover essa coisa, e assim por diante. A questão se dá exatamente nesse ponto. Não é possível que o movimento seja infinito. Ele tem que ter começado em algum momento, por algum motivo. Esse motivo tem que ser, necessariamente, algo que não se moveu por outra força exterior. É a relação de potência e ato. Potência sendo aquilo que é movido, e ato aquilo que o move. E é por essa relação que não se pode ir ad inifinitum em potência. Esse “primeiro motor”, ou o motor que não se move, tem que estar fora da linha normal do movimento, ou seja, além da natureza. Esse “primeiro motor”, esse primeiro dominó a empurrar todo o resto, é Deus.

Algumas objeções ao argumento, e como entendê-las e respondê-las. A primeira objeção é que, segundo a física mais avançada, nem tudo tem explicação para o seu movimento. Mas isso, primeiro, não sginifica que ela não se move e, pior, não prova nada. No máximo, prova que a ciência, nesse ponto, ainda tem que avançar. É presunçoso julgar um argumento pelo conhecimento científico atual. Se assim fosse, a própria ciência não avançaria, pois ela mesmo avança trazendo novas teorias a serem provadas. A segunda objeção é que a conclusão estaria desligada do argumento. Por que “Deus” seria a conclusão, e não outra coisa, como algo como o “coelho gigante roxo”? Essa é uma questão curiosa. Para fazê-la, precisamos entender algumas coisas que o proponente mesmo não se tocou. Em primeiro lugar, para chegar a essa pergunta, ele tem que admitir que o argumento é correto e não só racional como provou seu ponto. Depois, é essa argumentação que necessita de uma conclusão, e não o argumento de Santo Tomás. Afinal, para esse primeiro movimento acontecer, é necessário algo. O que nos leva ao próximo argumento, mas não sem antes lembrar o que o grande filósofo Ralph McInerny disse. Se Tomás acreditou que o argumento de Anselmo não era bom o bastante, ele sentiu a necessidade de provar seu ponto. A honestidade intelectual coloca o dever de se provar nos ombros do cético. Nesse caso, não faltam explicações sobre o que Santo Tomás quer dizer, e seus motivos. Cabe ao cético provar o que ele diz não ser verdade se ele assim quiser.

– O argumento da causa primária, ou causa eficiente: tudo o que existe no mundo tem uma causa eficiente; nada pode ser a causa primária de si mesmo; não é possível que se volte infinitamente em causas eficientes; logo, existe uma causa primária, Deus.

Novamente surge a pergunta. Por que Deus? Porque tem que ser algo além do primeiro movimento, do primeiro instante. A Teoria da Relatividade de Einstein diz que o tempo é relativo à matéria. Quer dizer, não existia tempo antes da matéria. E o Big Bang prova que toda a matéria teve seu início. Ou seja, todo o tempo teve o início, e algo fora do tempo e do espaço tem que ter provocado o início. Essa é exatamente a definição de Deus. Lembro também que antes do Big Bang ser comprovado, o universo era tido pelos cientistas como infinito, e o Big Bang e uma origem definida do universo eram considerados pseudo-científicos, conceitos teológicos criados por malvados religiosos que queriam dominar o mundo com ignorância. Depois disso, vimos livros como o do físico Stephen Hawking, em que seu prefácio é quase solene, apresentando rapidamente uma desculpa prévia para o Big Bang, que seria discutido no livro. Algo como: “OK, então o Big Bang é verdade, mas isso não quer dizer que Deus existe blablabla”. O que se pode dizer disso, senão que se os papéis fossem invertidos, e a Igreja tivesse defendido que os outros são ignorantes que precisam ser “iluminados”, e que de repente muda seu conceito mas continua chamando os outros de ignorantes que precisam ser “iluminados”, ela certamente seria chamada de hipócrita. Mas é melhor varrer isso para baixo do tapete e continuar com os argumentos. No fim das contas, a ciência pode perfeitamente vir com mais e mais descobertas maravilhosas e explicações para certas causas, suas causas anteriores e as anteriores etc. Mas o ponto do argumento de Santo Tomás é que, pela lógica, a causa primária está além do mundo físico “natural”, ou seja, está além do alcance da ciência. Isso, para alguns, é uma grave ofensa. Mas não deveria. Existem muitas coisas que a ciência não explica, e nem precisaria tentar. Como arte, matemática, filosofia etc. Quando tenta, costuma ser problemático, para não dizer embaraçoso.

– o argumento do ser possível e do ser necessário (suficiente), ou, a via da contingência: tudo o que existe pode existir ou não, ou seja, são contingentes. Se tudo fosse contingente, nada poderia existir, ou nada existiria. Se nada existiu em algum momento, tudo não poderia ter surgido sem algo existir antes. Mas tudo existe, então tem que haver um “ser” que não é contingente como todo o resto. Esse “ser” é o que chamamos de Deus.

Esse argumento de contingência é até hoje um dos mais utilizados na cosmologia, e foi de grande interesse de Leibniz, que formulou o simples questionamento: “Por que existe algo e não nada? A razão suficiente está na substância que é um ser necessário, e que carrega as razões de sua existência nele mesmo”. Santo Tomás ainda explicava que apenas causas incidentais podem ser infinitas, mas não causas essenciais. Uma famosa formulação é o argumento cosmológico descrito simplesmente como: “(1) Tudo o que tem uma origem, tem uma causa; (2) o universo teve uma origem; (3) Logo, o universo tem uma causa”. No argumento de Santo Tomás, é necessário que essa causa seja além do que é contingente. Algumas objeções famosas vão desde o “multiverso”, como a identidade da causa primária. O multiverso continua parecendo para muito o mesmo que aconteceu com o Big Bang. Antes do que parecia ser uma tentativa desesperada de ignorantes religiosos ser comprovado, muitas alternativas foram criadas. O multiverso parece ser apenas mais uma delas. Imagine se fosse um religioso acreditando em infinitos universos para fugir de uma prova científica? Que escândalo. De qualquer forma, a teoria do multiverso só avança o problema um pouco. Ainda que existissem milhares de universos, eles também teriam um início, e esse início seria como um Big Bang para todos. Sobre a identidade da causa primária, voltamos ao desafio de McInerny. Se tudo foi considerado verdade até esse ponto, a outra opção sobre a identidade da causa primaria recái necessariamente sobre quem a propõe.

– O argumento dos graus de perfeição: o homem tem a inata noção de que existem graus de perfeição. Todo entendimento do homem, em todas as áreas, sempre se baseou em graus de perfeição. Seja arte ou ciência, uma coisa mais próxima da perfeição para se alcançar um resultado sempre substituiu outra menos perfeita. Existe uma graduação de perfeição, mas também existem diferentes interpretações. O que é claro é que nada na terra é infinitamente perfeito. Cada coisa tem diferentes atributos ou graus de perfeição. Mas como poderíamos ter essa noção (ou afeição) sobre a perfeição, se não houver algo perfeito? Esse ser perfeito em todos os graus, perfeição absoluta, é Deus.

Esse argumento, curiosamente, é um dos primeiros argumentos que toda pessoa sente sobre Deus. Mas não é um argumento fácil de ser intelectualmente apreciado. Ele vem desde Aristóteles, e é pouco debatido mesmo depois de aprofundado e popularizado por Santo Tomás. Curiosamente, mesmo por ateístas. Talvez por ser sensivelmente complicado de ser desmentido, ou talvez porque não é realmente apreciado suficientemente como argumento racional. De qualquer forma, um dos problemas seriam as definições de necessidade metafísica apresentadas depois da época de Santo Tomás. Embora Plantinga e outros ainda defendam a teoria, outros apresentam objeções ao argumento, indicando haver possibilidade dele ser falso, o que seria um obstáculo para a necessidade metafísica do mesmo.

– O argumento teleológico; do “design”; da finalidade: observamos seres e objetos não inteligentes, como corpos celestes, que se movem ou dirigem para uma finalidade. Todos têm sua função, e o acaso não explica suficientemente essa organização, apenas eles terem sido desenvolvidos assim. Se o design sugere um designer, existir ordenadamente com uma finalidade sugere uma inteligência em ação. Logo, existe um ser que ordenou tudo no universo. Esse ser é o que entendemos por Deus.

David Hume tinha uma crítica curiosa sobre esse argumento. Ele dizia que era ousado, já que não se poderia conhecer tão profundamente os motivos, as razões para as coisas do universo. É uma crítica fraca. Na verdade, é quase uma crítica à ciência também, por sua incapacidade de chegar à solução definitiva. Se isso está correto, e a verdade está além da nossa capacidade de conhecê-la, então eu diria que isso é um problema maior para a ciência do que para a filosofia, que vê isso como uma comprovação da existência de Deus, e não um problema. Kant dizia que isso provaria a existência de um “grande arquiteto do universo”, mas não de Deus, um ser perfeito. Curiosamente, a descrição de Kant é exatamente como a maçonaria interpreta o que outros chamam de Deus. Além disso, mais uma vez, essa objeção leva em consideração todo o argumento como verdadeiro, apenas a conclusão sendo diferente, e apenas em definição. No caso de Kant, outra definição rasteira, muito aquém da grandeza de um Tomás de Aquino.

Esses argumentos são a base de muito o que se discutiu e discute até hoje sobre Deus. Sua grandeza não é devidamente reconhecida por seus críticos. Keith Ward, filósofo inglês de Oxford, comenta que muitos críticos ateus, como Dawkins, Dennett, Freud e Marx, não fizeram outra coisa senão descrever o mundo e o homem em seus próprios termos, dependentes de suas disciplinas e, com isso, reduzindo-os a meras peças em um limitante jogo de poder. Algo que jamais permite ao homem analisar corretamente os argumentos sobre Deus em sua luz e totalidade. O filósofo americano Edward Feser, por sua vez, me parece acertar na mosca quando diz que a maioria desses críticos jamais examinou os argumentos profundamente, ou em seu devido contexto, ou seja, sobre a metafísica de Aristóteles, e os outros escritos completos de Santo Tomás. Isso me parece difícil, senão impossível, de ser refutado. Que a maioria desses críticos jamais leu Tomás de Aquino me parece possível. Que alguns deles apenas leram o trecho que queriam refutar, me parece inquestionável. Com isso, não só eles ergueram apenas espantalhos para bater e dizer que refutaram a existência de Deus derrubando um falso amontoado que eles chamaram de “argumentos de Tomás de Aquino”, como eles falharam no mais básico da honestidade intelectual: estudar o que se quer refutar, e se aprofundar no assunto para lhe tratar com justiça e assim, quem sabe, propor opções. Curiosamente, é o contrário do que Santo Tomás fez quando teve oportunidade. Ele fez o possível para dialogar em alto nível, e até mesmo propor refutações aos princípios cristãos.

Praticamente tudo o que se vê contra esses argumentos hoje em dia, como eu disse antes, é pirraça. É o caminho para se jogar fora a oportunidade de descobrir a grandeza de Santo Tomás de Aquino, suas idéias, e como entender e atestar a existência de Deus. Isso não é pouca coisa. Para muitos, é uma terrível falha intelectual. Mas pode ser ainda uma falha pior. Explico abaixo.

O Tomismo, sob a face do “Neotomismo”, foi massacrado por um movimento que tinha gente igualmente genial, como Hans Urs von Balthasar, Henri de Lubac etc. Todos geniais e, não tenho dúvida, bem intencionados. Mas no caminho para trazer a patrística, a arte e uma teologia vibrante e bela para todos, praticamente soterraram o Tomismo. Tomismo que outros gigantes, como Garrigou-Lagrange, lutaram tanto para difundir. Infelizmente, isso é natural do homem. Quando vemos um caminho novo que parece válido, largamos tudo atrás dele. Até o que já era bom. O filósofo Edward Feser (e, ainda bem, não só ele!) tem uma receita que me parece absolutamente necessária para um futuro intelectualmente rico, e fundamentalmente belo. É exatamente a união dessas duas correntes, o que se chamou de Neotomismo – mas temos que chamar apenas de Tomismo para evitar rancor – e a Nouvelle Theologie. Uma filosofia sistemática, ensinada com bases sólidas e facilmente difundida academicamente, mas sem esquecer do papel da beleza, da literatura, de uma relação íntima com Deus e sua Igreja. Negar isso me parece ser a nossa principal falha filosófica atual. Uma falha que pode nos custar descobrir o amor de Deus, Sua Igreja e Sua Salvação.

em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

One thought on “Apologética – parte 2 – Santo Tomás de Aquino e a existência de Deus.

  1. Sérgio

    Sobre o “coelho roxo” e outras besteiras que já li, penso o seguinte: o argumento se refere a um ser absolutamente atual, porém um “coelho”, um “demiurgo” ou o que quer que seja, não corresponde a essa definição, pois são apenas relativamente atuais. Ponto. Ou seja, a pura atualidade não pode ser outro ser que não Deus.

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