Apologética – parte 1 – a existência de Deus, via Santo Anselmo.

By | 18 de maio de 2015

Começo neste artigo uma série sobre apologética cristã. Como responder a certas perguntas, refutar falácias e explicar a fé com fatos e caridade.

A primeira pergunta para qualquer religioso tem que ser a existência de Deus. Algumas religiões ou credos não necessariamente se preocuparam com isso. O Budismo, por exemplo, em sua origem, é agnóstico. Para o Buda, Deus era irrelevante, e sua busca era da iluminação pessoal. Embora o budismo tenha se desenvolvido em formas e vertentes diferentes, o ponto aqui é apenas ilustrar que a pergunta principal para tantas religiões, não é fundamental para todas. Assim como não é para o Espiritismo no Brasil, senão na teoria, mas na prática. Já para o cristianismo, a pergunta e a relação pessoal com Deus são a base de tudo. Essa relação é tão importante que o cristianismo baseia sua existência em um ato único, com o criador entrando na história como criatura, e assim sendo capaz de executar um sacrifício provisional, deixando ao homem sua salvação em potencial. É uma visão única e especial, que coloca Deus não mais distante e ocasionalmente se chocando com o homem, muitas vezes visto antes do cristianismo apenas como um Deus apenas interessado em punição ou atos aparentemente gratuitos. A visão cristã é de um Deus que, respeitando o livre-arbítrio do homem, se importa tanto com ele que está o mais próximo possível. O amor de Deus é a proximidade que respeita a liberdade de escolha do homem. O caminho para a salvação é o ato de aceitar o convite de Deus e a provisão de salvação deixada por ele em seu sacrifício na cruz. Essa mesma liberdade é tão sagrada que o homem pode escolher não aceitar esse amor, ou mesmo abusar dele.

É a escolha de tantos não acreditar em Deus, tentar diminuir a capacidade do homem de entender e se relacionar com seu criador, e até mesmo humilhar ou criminalizar as religiões ou a fé. Se o ateísmo sempre existiu, sua cara atual é mais feia do que nunca. O ateísmo militante é responsável pelos maiores massacres da história. Nenhum século matou diretamente como o século XX, e por trás de cada tragédia dessas estava intimamente ligado ao seu motivo um ateísmo ferrenho que, na verdade, não estava nem um pouco camuflado. Os ateístas atuais tentam empurrar crimes bárbaros para a conta das religiões, mas sua própria conta tem mais sangue que qualquer outra. Mais de 120 milhões de pessoas assassinadas apenas no século XX pelo comunismo, nazismo e suas diversas facetas não deixam dúvidas sobre o ódio e o rastro de morte deixado por ideologias que propõe o afastamento e até mesmo a proibição da religião e a propagação de uma pretensa “cultura da razão”. A própria idéia de razão foi mesmo sequestrada pelos ateístas, que inventam um novo sentido para o termo, e dizem possuir monopólio da mesma. Essa mentira não passa nem perto do crivo da história e da lógica, mas isso não os impede de tentar e repetir ad nauseam tal mentira. Não é de hoje que eles sabem que repetir uma mentira muitas vezes pode fazê-la ser verdade em mentes inocentes ou maliciosas. Seus filhotes principais, como o materialismo dialético, dependem disso.

O chamado “Novo Ateísmo” tem caras novas, mas raramente tem algo realmente novo para mostrar. A maioria dos seus agentes, como Dawkins, Hitchens, Harris etc, apenas requenta velhos argumentos e os coloca em roupagens novas. Foram-se os dias em que Frederick Copleston debatia com ateus como Bertrand Russell. O que nos restou é muito menos sofisticado, mas em uma roupagem moderna e atraente. Vendido barato e rápido, num formato que não exige muito esforço ou estudo. Isso é facilmente observado pelos milhares de “guerreiros do teclado” que postam vídeos ou comentários em sites pela internet. No fundo, o falecido Christopher Hitchens conseguiu parte do seu objetivo. O homem que era um comunista ferrenho, um radical que militou a vida toda pelo leninismo, pelo trotskismo, e suas demais vertentes, treinou uma geração de militantes para mentir e repetir chavões pegajosos como os de campanhas políticas. Exatamente para tornar o ateísmo mais palatável do que antigamente, em que a pessoa teria que ler Russell, Nietzche e outros. De fato, a idéia era evitar o estudo da filosofia ou, no fundo, evitar que a pessoa estudasse. A idéia foi tão bem recebida que chegaram a cunhar frases como “a filosofia morreu, e foi morta pela ciência”. De nada adianta apontar para a pessoa que isso é um argumento filosófico, apenas possível de ser debatido filosoficamente. Seria inútil apontar o non sequitur mais tacanha que há nessa frase. A intenção é exatamente não pensar. Apenas repetir e substituir a verdade à força. É essa mesma repetição que faz com que tantos prontamente aceitem passar pela ridícula cena de dizer que a religião é baseada na ignorância. É realmente curioso que gente que repete frases com a intenção de jamais estudar tente falar na proliferação da ignorância como objetivo dos outros. “Acuse-os do que você faz” não se tornou um mantra dessa gente à toa. Acusar o cristianismo, com sua riqueza teórica e provavelmente a maior produção literária (em todas as disciplinas e estilos literários) da história, de propagar a ignorância; quando não é feito por simples ignorância e papagaísmo, é sinal de profunda desonestidade intelectual.

Pelo que é possível perceber do Novo Ateísmo, seus apreciadores acreditam que a Igreja jamais lidou com gente como eles, ou nunca discutiu esses assuntos. O que, por si só, mostra quem são os ignorantes nessa história. A Igreja sempre lidou com esses assuntos. Até mesmo quando não era necessário para sua “defesa”, mas apenas para enriquecer sua fé e seu conhecimento. A Igreja sempre pregou que a ignorância e ausência de estudo eram falhas graves. A fé deve ser rica e frutífera, e o estudo é o caminho para uma fé sólida e para a verdadeira caridade, que consiste em se poder discutir afetuosamente, mas com pontos sólidos, sobre Deus e Sua vontade. É difícil achar algum momento em quase 2000 anos de cristianismo sem alguma produção relevante sobre o tema, algum autor do maior calibre, ou mesmo uma discussão da Igreja sobre o assunto. Dos grandes Padres da Igreja ainda nos primeiros séculos, até tantos grandes filósofos, teólogos, historiadores ou escritores que lidaram com os temas ainda hoje discutidos. Vou tentar apontar momentos especiais na rica história da Igreja em que a existência de Deus foi discutida. Momentos que todos deveriam conhecer, e argumentos que todos podem usar, não sem antes estudar para entender. É fácil para alguns tentar desmerecer esses argumentos, ou repetir que eles foram facilmente refutados. No entanto, dos mais simples aos mais complexos, esses argumentos ainda carregam o peso que apenas uma investigação profunda, e não vídeos com 2 minutos de pirraça, podem confrontar em verdadeira discussão. É como se iludir pela aparente simplicidade de sua formulação, se esquecendo da profundidade que apenas um entendimento amplo pode trazer.

– O Argumento Ontológico de Santo Anselmo:

Santo Anselmo foi um monge beneditino de Aosta, na Borgonha (Itália). Ficou conhecido por sua vida na Cantuária (Inglaterra), aonde veio a falecer. Sua vida foi marcada pelas disputas com o poder do Estado, além de sua magnífica produção intelectual. É considerado um precursores do escolasticismo, embora o nome só tenha realmente vindo com as universidades, algum tempo depois. Mas foi sua busca filosófica que ajudou o movimento a se desenvolver. De toda a sua obra, foi seu argumento ontológico que o tornou conhecido até hoje. Ontologia é o estudo filosófico do ser, da existência, da realidade. Só isso já nos dá uma pista da forte reação que esse tipo de argumento pode causar em um mundo em que a própria existência é relativizada, e qualquer tipo de prova, que não seja contra o modernismo, é tida como impossível exatamente porque, bem, aparentemente, tudo é relativo, menos o relativismo. Pois bem, Anselmo formula seu argumento se baseando no fato de que você pode deduzir a existência de algo de sua própria definição. Isso acontece da seguinte forma:

Imagine que, independente de sua crença (ou ausência dela), podemos concordar que a idéia de Deus seria um ser perfeito, em que todos os aspectos da sua existência são perfeitos. Nada pode ser maior ou mais perfeito do que Deus. Algo existir é mais perfeito que apenas imaginário. Um ser absolutamente necessário existe necessariamente. Logo, Deus existe.

Bem, você pode ver um certo “salto” na conclusão do argumento. Mas, rapidamente, podemos entender a base do argumento da seguinte forma. Digamos que, como eu, você adore comer queijo. Você acha mesmo que queijo é o alimento perfeito, e nada pode ser melhor que ele. É melhor esse queijo no seu prato do que na sua mente. Logo, o queijo tem que existir para ser perfeito. E existe! Se aceitarmos que uma das qualidades da perfeição é existir, que Deus é perfeito, e é mais perfeito existir do que ser apenas imaginado, Ele tem que existir! Quer dizer, de sua definição nós tiramos sua existência. Parte de sua natureza é necessariamente existir! Como eu disse antes, se pela lógica ele é absolutamente necessário, ele existe necessariamente. Muito mais lógico do que o queijo, aliás. A grande questão do argumento não é sua aparente simplicidade, ou meu exemplo tacanha. É a questão de ser válido como discussão. É muito fácil se livrar do argumento apenas com duas pirraças e uma colagem de internet. Mas, se você quiser ser sério sobre isso, tem que olhar para um fato. Por que o argumento ontológico até hoje é discutido em nível acadêmico e considerado válido por alguns? René Descartes e Gottfried Leibniz, por exemplo, se esforçaram para comprovar que a idéia central do argumento ontológico, a perfeição, e daí a existência de Deus, eram coerentes e racionais. Sim, até mesmo Descartes, com toda confusão que seu pensamento trouxe depois. William Marra, político libertário e defensor da vida, e professor de filosofia de Fordham, defendia o argumento ontológico em trabalhos e debates. O matemático Kurt Godel, autor de muitos trabalhos importantes da matemática moderna, inclusive colega e debatedor das idéias de Albert Einstein, publicou a “prova ontológica de Godel”, baseado no argumento de Santo Anselmo como examinada por Leibniz. O filósofo Alvim Plantinga propôs novas soluções sob a lógica modal para dúvidas matemáticas sobre o argumento.

Você pode não concordar, ou não gostar do argumento ontológico como você o entende. Mas não pode, sob o perigo de passar ridículo em sua chacota infantil, rejeitar o argumento como discussão profunda e válida. Há gente o suficiente, ainda hoje, discutindo seriamente o argumento e suas consequências.

Curiosamente, quem primeiro rejeita o argumento ontológico como prova ideal é exatamente Santo Tomás de Aquino. Embora respeitasse o argumento, e certamente jamais o trataria com desprezo sem base, ele apenas não o achava forte e convincente o bastante. Mas esse era uma opinião embasada e sem pirraça. Para Santo Tomás, não bastava refutar argumentos contra a existência de Deus. Ele criaria objeções que nem haviam sido pensadas, para também refutá-las. Acompanharemos os argumentos de Santo Tomás de Aquino no próximo artigo. Por hora, é fundamental deixar claro que a importância dessa argumentação é, obviamente, promover provas racionais da existência de Deus. Mas também deixar claro o que se tenta negar hoje em dia: que é possível, sem uso da bíblia ou algo aceito como “sagrado” (e que causa automaticamente aversão em alguns), unir fé e razão para descobrir coisas tão profundas como a existência de Deus. Razão, sim! Também é usada para isso, como eu mostro nesse primeiro momento, tanto com o argumento de Santo Anselmo, que não tem nada de “supersticioso” contido nele; como pela lista de pessoas, filósofos, matemáticos e cientistas, que usaram e ainda usam a razão como instrumento de análise e demonstração do que, para alguns, é apenas questão de fé cega. Não se engane, o mundo moderno e os ateístas militantes não têm o monopólio da razão. Por mais que alguns façam pirraça por isso. Eu e tantos outros não temos fé o suficiente para esnobar argumentos como esse e acreditar cegamente que eles são inválidos ou idiotas. Isso sim é fé cega. Fé em um relativismo que não aceita ser relativizado, e em um mundo em que a verdade absoluta não existe ou não pode ser objeto de busca. Menos, é claro, a verdade segundo eles, a de que não existe verdade. Não aceitamos isso, e não aceitaremos essa imposição de quem nos acusa de fazer o que eles fazem. Vamos em frente, refletindo sobre o uso da razão na busca por Deus. É a busca que faz, literalmente, toda e mais perfeita diferença do mundo.

em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

One thought on “Apologética – parte 1 – a existência de Deus, via Santo Anselmo.

  1. Marcelo Massao Osava

    Excelente artigo, parabéns! Aguardando ansiosamente a continuação, sobretudo a abordagem sobre as “Três Vias” de Santo Tomás de Aquino.
    “A mesma santa mãe Igreja sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas”
    (Concílio Vaticano I – Constituição Dei Filius)

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