Mentiras, malditas mentiras e estatísticas! – Parte 2

By | 11 de Março de 2015

No último artigo, falei um pouco sobre mentiras que se tornam verdades quando repetidas algumas vezes. Em especial, qualquer mentira contra a Igreja ganha seu status de verdade rapidamente. Expliquei ainda como o problema entre Galileu e a Igreja não tem nada a ver com ciência, e sim com teologia, e não pode ser evidência de que a Igreja é obscurantista e anticientífica.

Neste post, eu gostaria de focar em outras mentiras usadas facilmente contra a Igreja. Mentiras usadas com o intuito de fazer a Igreja parecer inimiga do conhecimento, obscurantista, opressora etc. Nada disso pode suplantar a verdade. Uma boa dose dos fatos sempre nos fará bem.

a acusação: a Igreja sempre tentou suprimir o conhecimento e o debate. Ela tinha medo da inovação, de que o conhecimento se espalhasse, e que o povo pudesse estudar e descobrir o que ela escondia.

os fatos: O que um dia foi chamada de “Idade das Trevas”, hoje não seria assim chamada por nenhum historiador. Não um sério, pelo menos. O período mais conturbado, logo após a queda do Império Romano, é causado pelas guerras. O barbarismo desenfreado arrasa cidades inteiras, e as constantes lutas sem um poder central, ou um foco, levam ao fim de civilizações inteiras. Nada com a Igreja. Pelo contrário, é um fato que a Igreja foi a grande mantenedora da cultura do ocidente. Principalmente pelos monges, esses heróis da civilização. Foram os mosteiros que evitaram algo como a “Idade das Trevas Gregas” (aprox. 1100 a 800 a.C.), quando a Grécia, após muitas batalhas, perdeu sua escrita e, com isso, grande parte da sua cultura. Já depois de Cristo, os monges evitaram isso ao reunir e copiar todo documento ou obra possível. O grande historiador Christopher Dawson dizia que você podia destruir 99% dos mosteiros junto com suas cidades ou estados, e a cultura poderia ser reconstruída a partir dos mosteiros que sobrassem. E assim foi.

Quando o Imperador Carlos Magno, após mais uma era de batalhas, percebeu que o ocidente estava à beira de mais um colapso cultural, pediu à Igreja, em especial aos mosteiros, que reeducassem o povo, abrindo escolas e distribuindo o conhecimento guardado pelos monges. Assim começa a era dos mais belos manuscritos já produzidos pelo homem, a iluminura, além da reprodução e o ensino do povo. Uma das outras grandes contribuições dos monges à cultura? A Minúscula Carolíngia! Antes disso, não haviam letras minúsculas, nem separação de palavras, ou mesmo pontuação. O que parece ser algo banal, é uma das maiores contribuições à cultura já feitas. É com a codificação de um sistema bem mais compreensível que é possível espalhar a cultura a todos, e não apenas aos nobres. A Renascença Carolíngia nos deu também um programa de estudos, desenvolvido primeiramente por Alcuíno de Iorque, um monge beneditino. No programa que seria a base do ensino daí em diante, o saber clássico seria passado por meio de sete artes. O Trivium, composto pelo ensino da gramática, retórica e dialética; e o Quadrivium, com o ensino da aritmética, geometria, astronomia e música! É um programa voltado tanto para as ciências como para as artes, algo que na época, ao contrário do que se diz sobre a Igreja, não ganhava uma distinção ignorante como a de hoje. Aliás, o programa de estudos ainda é muito superior do que nossos estudos atuais, com sub-cursos no lugar de seus cursos mais amplos, e alunos incapazes de raciocinar coerentemente tentando ser ultra-especialistas em algo. Mas, digressão à parte, se a contribuição da Igreja parasse nesse ponto da Idade Média (“das Trevas”), já seria muito. Mas foi muito além.

Após mais alguns séculos de batalhas, contra bárbaros de todos os lados, até Vikings com os simpáticos nomes de “Thorfinn Parte-Crânios”, ou “Eric Machado Sangrento”, o ocidente se vê novamente com problemas com sua cultura e o ensino da mesma. Como os nomes dos vinkings mostram, as batalhas e a violência nada tem a ver com a Igreja. Pelo contrário, é a ela novamente que é recorrido. E é ela novamente que nos presenteia com outro Renascimento, com trocadilho.

– As Universidades: a Escolástica é um movimento difícil de ser definido, e difícil de ser colocado na linha do tempo. Alguns pensadores que não ensinaram em universidades foram depois considerados parte da escolástica, ou precursores da mesma, como Santo Ancelmo. Porém, a definição mais simples seria dizer que é um movimento de ensino crítico iniciado ou ampliado nas universidades, por “acadêmicos”. Ou seja, é o período de outra grande contribuição católica, a universidade. Como vimos antes, centros de ensino haviam sido reorganizado no renascimento carolíngio. Mas do século XII em diante, esses centros são ampliados e transformados em universidades. Enormes centros de estudo construídos, primeiramente, como expansão de um mosteiro, ou catedral. O modelo é o que hoje se finge seguir. Quer dizer, naquela época, uma pessoa dedicaria anos ao estudo do ensino clássico, e se realmente se interessasse pelo ensino, teria o apoio da universidade para dar continuidade aos estudos e o ensino. Isso inclui a vasta gama de conhecimentos contidos em uma universidade, custos e, mais que tudo isso, a liberdade para tal. As universidades eram grandes expoentes do debate. Aliás, é aí que surge a idéia da disputatio, um debate com regras formais para se melhor compreender os assuntos estudados. Muito mais amplo do que uma banca examinadora atual, as diputationes da escolástica eram promovidas em auditórios com dezenas de professores e estudantes, e muitas vezes com visitantes ou convidados de outras universidades. É desse tipo de modelo que se desenvolve o trabalho de quem é, provavelmente, o maior modelo e exemplo para o pensamento acadêmico na escolástica, Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás escrevia sempre no formato de afirmações contra suas posições, com o intuito de refutá-las. Essas afirmações eram muitas vezes vindas da disputatio acadêmica, bem como de correspondência e até mesmo criadas pelo próprio Tomás, o que mostra sua honestidade ao procurar argumentos contrários mais fortes do que já haviam sido imaginados.

Não é apenas o ensino e o debate. Mas a liberdade era tão grande, que a Igreja passou a garantir, pela primeira vez na história, que um professor poderia ensinar em outros países, outras universidades. O que parece óbvio hoje, não era na época. Para garantir o ensino e a ortodoxia, era comum que o ensino na antiguidade fosse sempre feito por pessoas ensinadas nos mesmos centros. A Igreja então cria o que é, sem dúvida, a primeira comunidade internacional de acadêmicos. Alguém com um título de “mestre” ou “doutor” em uma universidade, poderia lecionar em qualquer outra da Europa. Além disso, o estudante podia viajar pelas universidades e aprender não só no mesmo nível, como ver outros aspectos do pensamento, com a garantia de que não estaria perdendo o longo tempo da viagem. Santo Tomás de Aquino mesmo se deslocou para estudar, e depois para ensinar em países que, antes, jamais permitiriam algo assim, ou não com facilidade. O próprio método de debate existente hoje é fruto da escolástica. Os pontos de debate, formulados em frases, ou definições, eram chamados de sententiae, e daí se partia para a dialética (o debate com a exposição dos diferentes lados da discussão), análise filosófica e lógica. O rigor determinava que deveriam ser eliminadas quaisquer hipóteses que se mostrassem ilógicas, e por aí vai.

É nesse ambiente de ensino, debate e vigor acadêmico que algumas das grandes obras da humanidade foram escritas, assim como surgiram os grandes pensadores. Seria tolo pensar que a vasta cultura de Dante, Chaucer, e mais tarde Shakespeare, apareceu do nada, ou que estava à disposição de qualquer um, como a informação aparenta estar hoje em dia. Do quase colapso cultural, tivermos um método e uma recuperação cultural excepcionais, graças aos cuidados e da importância dada pelos monges da Igreja, assim como também à escolástica e sa criação das universidades.

Alguns séculos depois do começo da escolástica, mas exatamente por causa dela, se inicia o que se chamou de “Renascimento”. Porém, hoje, é tratado como deve ser: apenas um renascimento entre tantos! Polímatas como Leonardo da Vinci e Michelangelo misturam conhecimentos que seriam impossíveis de serem aprendidos por meio de tutores ou mesmo sozinhos se não fossem os monges que várias vezes salvaram a cultura ocidental, bem como copiaram e repassaram o conhecimento; além das universidades, que ajudaram a aprofundar e espalhar o conhecimento que, alguns séculos depois, já era tão mais simples de se conseguir.

Seja nos primeiros séculos de sua existência, com seu estudo amplo como o dos Pais da Igreja, que usavam toda e qualquer fonte de conhecimento para tentar aumentar seu entendimento de Deus e do mundo; seja ao longo dos séculos com a preservação de nossa cultura, algo repetido muitas vezes pela Igreja (muito desse crédito é devido aos monges), além do desenvolvimento e difusão maciça do ensino; a Igreja Católica, como vimos, jamais poderia ser acusada de obscurantismo, ou de ser inimiga do conhecimento, pesquisa etc. No entanto, é exatamente essa acusação que ainda persiste nas mentes e lábios de tantos. Uma dose maciça de estudos é sempre recomendável, mas é sempre importante lembrar que é preciso também a reflexão e meditação, em busca de uma honestidade intelectual que nem sempre vem fácil. Não é fácil largar anos de mentiras acumuladas, nem as posições sociais que elas nos ajudaram a chegar. Quem não tem famílias ou amigos que, com você, já se divertiram muito zombando a Igreja e espalhando essas mentiras? O custo, eu repito, é alto. Mas honestidade intelectual consiste, antes de tudo, em seguir a verdade. Seguir os fatos, mesmo que isso lhe traga olhares estranhos, zombaria etc. Se isso significa não mais repetir que a Igreja é inimiga do conhecimento e do debate, que assim seja.

em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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