O próximo passo.

By | 13 de janeiro de 2015

Carta de uma filha para sua mãe em 2025.

“Oi, Mamãe! Tudo bem? Eu e o Carlos estamos bem. Aqui neva muito, e o Carlos sente falta da praia. Mas eu gosto. Acho que finalmente o Carlos vai conseguir a promoção que a gente esperava, e as coisas vão melhorar. Poderemos viajar mais, e comprar uma casa num lugar melhor.

O Pedrinho está bem. Ele não está se adaptando muito bem ainda. Ficou doente algumas vezes, e tudo foi muito diferente para ele. Não se deu bem com a creche daqui. Mãe, é sobre ele que eu queria falar com a senhora. Ele tem sido um fardo muito grande sobre a gente. É um bom garoto, mas nós éramos muito novos quando decidimos tê-lo. Não imaginávamos o que seria isso, ou o que iríamos perder. Ainda temos muito o que curtir, muitos lugares para conhecer, e não é a hora de abrir mão de tudo isso para cuidar de uma criança. Eu sei que no seu tempo você ainda lutava pelo aborto, e o ‘aborto pós-parto’ ainda é estranho pra você, mas espero que você entenda que é a mesma causa. Devíamos tê-lo abortado como os outros, mas agora podemos corrigir isso.

Os cientistas decidiram agora que a idade da razão é aos 6 anos, e que antes disso ele não é diferente de um feto. Então ainda está em tempo de terminar o Pedrinho. Não dói. Ele dorme e não acorda. Falamos pra ele que semana que vem ele vai tomar uma vacina.

Eu sei que você está ficando velha e caindo nessa de religião, mesmo proibida publicamente. Você não pratica, mas lê que eu sei. Mas não quero discutir com você sobre isso. É ciência. São fatos. Não é mais discussão se um feto é um ser vivo na concepção ou depois de 24 semanas. Se não está na idade da razão, não é alguém ainda. E não há motivo para não fazê-lo. É uma escolha minha. Lutamos por nosso direito de escolher, mãe, lembra? É a minha escolha, e de mais ninguém. Já lutamos contra quem nega esse direito às mulheres. E contra quem falava em absolutos e moral. Não estamos mais na idade média, sabe?

Bem, achei que era melhor te avisar por carta. Também é por isso que não te visitamos faz tempo. Não quero que ele veja uma possível discussão sobre isso. É a minha escolha, meu direito, e o melhor pra mim agora, Mãe. Espero que você me apoie.

Nos vemos quando passarmos por aí nas nossas férias. Mal posso esperar pra passar aí e ir direto para praia. Beijos.”

 

Esse texto é uma adaptação de uma versão americana que eu li anos atrás. Nunca me saiu da cabeça. Espero que você esteja sentindo repulsa depois do que leu, e que também não esqueça disso. A idéia é essa!

Infelizmente, não vejo esse tipo de coisa não estar ao menos sendo discutida daqui a alguns anos. Na verdade, a discussão já está bem encaminhada. A tentativa de dar um critério exclusivamente científico à vida está a todo vapor. Junto com o relativismo ganhando mais e mais espaço, tanto nas universidades como no dia-a-dia das pessoas, não é de se estranhar que cientistas sociais, (pesudo) filósofos como Peter Singer, e tantos outros, já estejam advogando esse tipo de mentalidade. Se por enquanto eles se escondem por trás da defesa de que isso é apenas conjectura, algo acadêmico, seus efeitos já não podem ser negados.

A defesa do utilitarianismo é obviamente a última saída se você decidiu que não existe verdade, não existe absoluto, e que não existe bem ou mal. Se não há um padrão comum, uma crença de um absoluto moral, só nos resta o utilitarianismo, ou a anarquia, ou o uso da força para decidir uma questão. Se tudo é apenas ‘minha opinião’, e ela não pode ser melhor ou mais correta que a sua, então só nos resta o quê? Viver felizes cada um com a sua opinião? E quando elas forem contrárias e uma invadir o espaço da outra? Podemos nos entender? Como, se não há base para nada? Vamos concordar em discordar? Mas como, se a questão afetar a liberdade ou a vida do outro? Nesse momento, inevitavelmente, só haverá o uso da força para decidir qual opinião é a ‘melhor’, ou qual é ‘válida’. Nenhuma sociedade assim sobreviveu. Com a nossa não será diferente se seguirmos esse caminho.

Hoje o que vemos é qualquer bestialidade que a vontade de fazer sexo puder inventar ganhando força e apoio. Nada guiou o relativismo atual como o direito de fazer sexo como quiser, sem questionamento. Aborto é sexo sem responsabilidade. Afinal, como querem que você acredite: responsabilidade é algo relativo, ou existe apenas a de você ser feliz. E no mundo moderno, ser feliz é fazer sexo sem responsabilidade.

Amanhã será o “aborto pós-parto”, ou alguma linguagem cretina como essa. E depois que todos acreditarem que não há mesmo nenhuma base moral ou absolutos, teremos apenas a guerra. Se sobrar algo, o ganhador decide nosso destino, goste você ou não. Nesse ponto, como disse um dos teóricos dessa lambança, Thomas Hobbes, ainda que em outro contexto: “Então só restará a guerra, e a guerra proverá a todos”.

Eu espero estar morto antes de ver o mundo discutindo a implementação de coisas como “aborto pós-parto”. Mas até lá, ou se Deus quiser que eu viva para ver isso, só resta lutar. Começo por lhe dizer sem medo que apenas a moral cristã pode nos salvar. Vou lhe dizer, enquanto você perde tempo lutando comigo, que só existe uma grande instituição no mundo que ainda é contra o aborto, e que ainda prega a moral cristã sem modificações, adaptações, exceções etc: a Igreja Católica! Se por tudo isso ela for taxada de ‘retrógrada’, ‘machista’, ‘patriarcal’, ‘relíquia da Idade das trevas’ e muito mais, sem problema. Eu serei tudo isso com ela!

Não se iluda. Não é apenas uma questão entre muitas. É uma questão sim, mas é também um termômetro. É o indicativo da mentalidade do ocidente. Parece uma questão isolada, mas é muito mais. É sobre nossa sociedade, nosso futuro, e sobre algo muito mais importante ainda, a sua alma.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista!

P.S. – Dedico este artigo ao Beato Paulo VI, que tanto sofreu por nos presentear com a encíclica sobre a beleza do amor e do sexo (ou como alguns querem entender, “contra o direito de usar métodos contraceptivos”): “Humanae Vitae“. E a São João Paulo II, que depois nos deu o mapa para sairmos dessa confusão, na forma de seus discursos reunidos na obra-prima “A Teologia do Corpo”. Olhai por nós!

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