Do alto da Cruz: a mãe de São João e o caminho cruciforme da salvação.

By | 5 de abril de 2021

Na sinfonia formada pelos Evangelhos, existe uma diferença na narrativa sobre o momento em que é solicitado a Nosso Senhor Jesus Cristo que São João e São Tiago se sentem à direita e à esquerda de Jesus no Reino. São Marcos descreve como sendo um pedido direto dos dois apóstolos (Mc 10,35-45), enquanto São Mateus descreve a cena como um pedido da mãe deles.

Essa diferença, que não é o foco deste artigo, é explicada pela tradição como tendo sido os dois que, sem coragem, encaminharam o pedido através da mãe. Como era um pedido dos dois, São Marcos (que escreve o Evangelho como contado por São Pedro), narra como sendo diretamente deles. Afinal, é o mesmo evangelista que mostra a irritação dos outros apóstolos com eles (v.41). Então, seria fácil de imaginar São Pedro narrando a situação através da intenção dos dois apóstolos e evitando a crítica a mãe deles.

São Mateus, ao contrário, narra o episídio mais literalmente, mas deixando claro que Jesus sabia que era um pedido deles através da mãe, pois o Senhor se vira imediatamente a eles para perguntar se eles estariam preparados para beber do mesmo Cálice que O esperava.

O que escapa a muitos comentaristas é a grande ironia da situação.

Antes de tudo, é preciso dizer que o pedido é claramente para que os dois apóstolos ocupem lugar especial no Reino de Deus. Naquele momento, é seguro dizer que eles esperavam um reino na terra. O pedido deles ecoa o pedido de Betsabé ao Rei Davi, quando a Rainha-Mãe pede ao rei para que seu filho, Salomão, seja coroado (1Rs 1,15-21).

As expressões usadas no AT (LXX) e no NT são as mesmas: “prosekúnese” (προσεκύνησε, que vem de προσκυνέω), para a ação de se prostrar, ajoelhar, adorar; e “kathésetai” (καθήσεται) e “kathízo” no NT (καθίζω) para a ação de “se sentar no trono”, uma expressão para a “entronização” requisitada ao lado do Rei.

Para não haver dúvida sobre como isso deve ser entendido teologicamente, São Mateus começa essa passagem com a expressão “Tóte” (τότε), que quer dizer “então”, ou “naquele momento”, logo após o terceiro anúncio da Paixão (Mt 20,17-19). Um estudo mais próximo mostra que “tóte” é uma das expressões favoritas de São Mateus (ele a usa 90 vezes. São Lucas usa 15 vezes no Evangelho e 20 nos Atos. A diferença é gritante). Em contexto, ele usa essa expressão deliberadamente para demonstrar a ligação teológica de dois momentos: “naquele momento, tal coisa aconteceu”. Observado de perto, é um sinal gritante da ligação de duas coisas na narrativa.

Naquele momento, os dois apóstolos queriam ser entronizados ao lado do Senhor em um reino deste mundo, conquistado pelo poder avassalador de Deus contra os impérios que impediam o cumprimento das profecias sobre Israel. Eles ainda não haviam compreendido o que era o Reino ou o caminho para lá se chegar. O Senhor tenta explicar, mas seria necessário ver. Como sempre acontece, os apóstolos e discípulos não entendem até ver o exemplo do Senhor, o Servo Sofredor a que Ele tanto se refere, mas eles só entenderiam testemunhando o sofrimento do Servo.

Também é possível que São Mateus tenha feito questão de identificá-la para contrapor a narrativa da outra mãe que pede algo ao Senhor, a Cananéia que pede pela filha (Mt 15,21-28). Uma (e uma Cananéia!) pediu com fé e recebeu. A outra, pediu glória no mundo e teria que passar por um grande choque para se tornar uma santa e receber algo além deste mundo.

A Sagrada Tradição identifica a mãe dos dois apóstolos como Santa Salomé, pois, unindo as narrativas dos dois Evangelhos (Mt e Mc), ela só poderia ser a mulher que São Marcos identifica como Salomé. Como eu disse no começo, há uma grande ironia na sua presença na crucificação do Senhor.

Do alto da Cruz, o Senhor viu um mundo hostil que se revoltava contra a inevitável vinda do Reino. Mas também viu Sua Mãe; o apóstolo São João; a outra Maria, mãe de Tiago e José; Santa Maria Madalena e a “Mãe dos filhos de Zebedeu” (enquanto São Marcos diz apenas “Salomé”). A identificação é proposital. São Mateus deseja que entendamos quem é a mulher e por que ela está ali.

Ela que pediu para que os dois filhos fossem “entronizados” à direita e à esquerda do Senhor em Seu Reino, viu que à direita e à esquerda de Cristo estavam dois homens sendo crucificados. É de se imaginar que, em algum momento, o Senhor olhou para ela e “ela entendeu”, como aconteceu em outros momentos a outras pessoas. Só é possível imaginar o choque, o frio na espinha que sentiu Santa Salomé ao entender que o que ela pedia era mais do que uma mãe poderia suportar. Mesmo assim, lá estava a Virgem Maria assistindo à entronização do filho da maneira mais dolorosa possível.

Nesse momento, Santa Salomé deve ter entendido que o caminho para o Reino dos Céus é cruciforme. O caminho demanda a entrega total; demanda que peguemos nossa cruz e sigamos o Senhor até o fim; demanda que estejamos prontos para beber do Cálice da Consumação. Ninguém está realmente pronto até que entenda o que a Virgem Maria passou. E quem pode entender? A menos que vivamos o Evangelho; a menos que nos esvaziemos de nós mesmos para que Deus ocupe nossos corações (Fl 2,6-11); a menos que sigamos o Senhor até onde não queremos ir; não há como!

O nome “Salomé” vem de “Shalom”, paz. Não qualquer paz, mas a Paz que vem de Deus, a Paz de Cristo! Santa Salomé teve paz quando olhou e entendeu, assim como todos nós só teremos paz quando entendermos que a Cruz não é um sinal apenas de dor, mas é o único caminho para a verdadeira paz. Uma que o mundo não pode oferecer.

A nós será oferecido um caminho cruciforme. Não é qualquer morte que nos salva, pois um dos ladrões crucificados recusou a salvação. É a fé em Cristo que faz da Cruz um sacrifício de Ação de Graças (Eucharistia). É a entrega total que faz do caminho da Cruz o caminho seguro. Não fácil! Não sem dor! Mas o caminho que leva ao Reino dos Céus!

Do alto da Cruz, o Senhor nos viu perplexos, tristes, sem entender. Ele nos vê como nós somos, mas também vê o que podemos ser, como os apóstolos provaram após a Ressurreição. Do alto da Cruz, o Senhor nos vê como Sua família e espera por nós. Que possamos olhar para a Cruz e, finalmente, entender e nos preparar para pegar nossas cruzes e O seguir. Que nossas vidas sejam testemunho do nosso amor cruciforme.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

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