O caráter sinfônico dos Evangelhos (parte 3): São Lucas e o Novo Moisés (e o médico)

By | 25 de novembro de 2020

O Evangelho segundo São Lucas possui muitas características distintas. Da muito bem construída narrativa histórica, montada com esmero alguém que não apenas possuía domínio da língua para ser um instrumento preciso da inspiração divina, mas um historiador de fato. Alguém atento à ordem dos eventos e aos detalhes. Um biógrafo fiel, um cristão temente a Deus, um companheiro e médico de almas.

Esse santo historiador nos deixou o maior relato da Boa Nova. Embora, mais tarde, tenha sido dividido em menos capítulos do que o Evangelho segundo São Mateus, seu relato é mais extenso (algo como mais de 1100 palavras do que o de São Mateus). Também possui muitas passagens únicas, como os relatos sobre a Virgem Maria e a narrativa da infância do Senhor. Além de muitas parábolas importantes que apenas São Lucas registra, como a do bom samaritano.

Entre tudo isso, no entanto, está a visão sinfônica que esta série de artigos quer demonstrar. Ou seja, passagens que estão nos relatos da Boa Nova dos outros evangelistas, mas que, uma vez unidas, expõe uma visão ainda mais rica do Mistério da Fé.

O relato da Transfiguração do Senhor talvez seja o melhor exemplo desse caráter sinfônico dos Evangelhos. Um que eu talvez retome para uma possível conclusão. São Lucas nos dá mais alguns daqueles “detalhes” que não estão presentes nas narrativas de São Mateus e São Marcos. “Detalhes” que são, na verdade, fundamentais.

O primeiro é a diferença entre as datas. Os três Evangelhos narram a Transfiguração como um evento ocorrido logo após o Espírito Santo fazer conhecer a natureza divina do Senhor, reconhecida por São Pedro, e a narrativa sobre carregar a própria cruz. No entanto, São Mateus e São Marcos dizem que a Transfiguração ocorreu 6 dias depois, enquanto São Lucas diz “pelo oitavo dia”.

Parece significativo que alguém tão atento a detalhes apresente uma datação diferente. Qual é a explicação? Infelizmente, não temos uma resposta definitiva. Algumas possibilidades: os apóstolos usavam calendários diferentes e, contando de trás para frente a partir de um evento importante, chegaram a diferentes conclusões. Temos evidências do uso de calendários diferentes, especialmente nas narrativas da Paixão, e sabemos que pelo menos os Essênios usavam um calendário diferente das outras tribos. Que evento seria esse? Pode ser a festa dos Tabernáculos, o que faz sentido pela fala de São Pedro sobre as “tendas”, cujo oitavo dia era destacado.

Também pode ser um recurso literário para destacar que era um domingo, já que a linguagem para o Domingo da Ressurreição era “o oitavo dia”, o dia depois do Sabá. Nesse caso, não haveria erro em nenhuma narrativa. São Lucas estaria apenas usando uma nomenclatura especial, “o oitavo dia”, para destacar que o dia em que os outros evangelistas narraram era um domingo e, com isso, fazer a ligação com a Ressurreição. Já que a Transfiguração é, de fato, uma prefiguração da Ressurreição. Essas são algumas possibilidades para um “detalhe” que já rende muito por si só.

Para além de qualquer dúvida, há outro “detalhe” na narrativa lucana que é, como sempre, mais importante do que parece. São Lucas relata que o Senhor subiu com os apóstolos para rezar. Note que São Lucas é o único que sempre mostra que o Senhor está rezando em momentos importantes. Isso não é mero detalhe. É fundamental para a nossa vida espiritual. Se o Senhor rezava frequentemente, como é que nós negligenciamos essa parte fundamental das nossas vidas?

São Lucas chama ainda mais atenção para outro “detalhe” só relatado no seu relato da Boa Nova: não apenas que Jesus conversava com Moisés e Elias, mas sobre o quê! São Lucas inclui essa passagem tão importante: “Vejam! Dois homens conversavam com Ele, Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória e falavam SOBRE O SEU ÊXODO, que ele cumpriria em Jerusalém” (Lc 9,30-31).

São Lucas nos mostra outra faceta fundamental para se entender o cumprimento messiânico: Jesus, o Novo Moisés. Ele que realizaria um Novo Êxodo, que cumpriria e elevaria infinitamente o antigo. Cumprido em Jerusalém significa a Sua morte de Cruz. Esse seria o Novo Êxodo: se antes, o sangue do cordeiro imolado seria o símbolo da Aliança da libertação do povo de Deus do Egito; a Nova Aliança, forjada com o Sangue do Cordeiro de Deus, seria a nossa libertação do pecado. Se a escravidão anterior era terrível, a escravidão do pecado é a pior possível. Essa é a verdadeira libertação. Não da escravidão das coisas do mundo, mas a escravidão do pecado.

Deixo um “bônus” mais descontraído sobre essas diferenças nas narrativas, para terminar em um tom mais leve. É dito que São Lucas era um médico. São Paulo assim o chama na sua Carta aos Colossenses (Cl 4,14) e São Lucas usa termos técnicos, como quando ele descreve um homem com “hidropisia”, também traduzido por um inchaço etc. Mas o termo é ‘hidrópikós’ (ὑδρωπικός), um Hápax Legómenon (um termo que só aparece uma vez na obra ou na época). Esse termo é encontrado exatamente em escritos hipocráticos, escritos médicos.

Pois bem, os Evangelhos sinótivos descrevem a passagem da mulher hemorrágica que toca a franja da roupa de Cristo e fica curada (Mt 9,18-26; Mc 5,21-34; Lc 8,43-48). Uma passagem curiosa é a da descrição da situação da mulher. São Mateus diz apenas que ela sofria de hemorragia há 12 anos.

A diferença real ocorre nos outros dois relatos. São Marcos oferece uma visão um tanto negativa da medicina a que ela foi submetida. Ela teria sofrido muito na mão dos médicos e gastado tudo nesse sofrimento. São Lucas nos oferece uma visão um pouco mais “positiva”, que parece nos dizer que ela gastou tudo, mas “mesmo assim”, ninguém conseguiu curá-la. Será um contraste proposital à narratica de São Marcos, jogando uma luz mais “positiva” sobre a sua profissão? Jamais saberemos, mas é interessante.

O que importa, mais uma vez, é notar quão rico o relato da Boa Nova fica se conseguirmos observar o caráter sinfônico dos Evangelhos. A Boa Nova toca a todos em qualquer uma das narrativas. Mas observá-la unida em seus vários aspectos torna tudo não apenas mais claro, mas mais próximo da Glória de Deus que ainda não conseguimos enxergar claramente, mas um dia, se Deus quiser, veremos face a face (1Cor 13,12).

São Lucas, Apóstolo e Evangelista, rogai por nós!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *