Crítica textual: fontes tardias?

By | 7 de agosto de 2019

Uma das acusações mais comuns contra a validade do texto bíblico é a de que as fontes são tardias. Mas, tardias em relação ao quê? Em comparação com o quê? O principal: esse é o mesmo critério de avaliação histórica usado para todas as obras antigas? Vejamos!

No fundo, esse é um dos piores argumentos possíveis contra a historicidade da Bíblia. Antigamente, era comum aceitar algumas das piores datações para os Evangelhos e as cartas. Hoje em dia, no entanto, nenhum pesquisador sério leva em conta uma hipótese sobre uma data para a autoria no século II. Todos os livros do NT foram compostos ainda durante a vida dos apóstolos. Na pior das hipóteses, enquanto São João ainda estava vivo (o apóstolo faleceu provavelmente em 99 ou 100AD).

Um número cada vez maior de pesquisadores aceita que as datas de composição dos Evangelhos e as cartas paulinas e petrinas eram anteriores (no caso, antes da destruição do Templo), e não posteriores, o que as coloca ainda durante a vida dos apóstolos. De fato, apenas o livro do Apocalipse e algumas cartas joaninas ainda encontram muitos (possivelmente a maioria) pesquisadores atestando sua datação tardia.

Me atendo apenas à data, dentro desse panorama vemos a composição dos documentos décadas depois dos acontecimentos descritos nos Evangelhos. Segundo alguns, isso cria dificuldades para a aceitação da historicidade bíblica.

A segunda coisa é a atestação e data das fontes sobreviventes. Ou seja, temos documentos de séculos depois dos acontecimentos. Fragmentos e papiros do século II, e códices aproximadamente do século V. Para muitos, elas são tardias e problemáticas para a validação histórica de seu conteúdo ou testemunho.

A questão é: tardio em relação a quê? Em primeiro lugar, sabemos pelo testemunho patrístico que as cartas originais de São Paulo ainda estavam preservadas e podiam ser consultadas no século II. O que faz com que os documentos mais antigos que temos sejam possíveis cópias diretas dos originais.

Sobre composição dos originais e testemunhas:

Sabemos que os livros sagrados do NT foram escritos ainda no tempo dos apóstolos e temos milhares de citações para reconstrui-los se fosse preciso. Outra religião que tem uma autoria relativamente próxima aos acontecimentos é o Islã, mas mesmo a composição de seus documentos sagrados são de pelo menos (aceitando relatos duvidosos) 100 anos depois dos fatos supostamente relatados por Maomé.

Fora o cristianismo, nenhuma religião tem uma composição de testemunhas oculares e seus discípulos. Mesmo assim, não se vê um movimento acadêmico ou popular questionando o Islã sobre isso. Se os mesmos critérios fossem aplicados, ninguém afirmaria que Maomé existiu, muito menos historiadores ou estudiosos da religião.

E manuscritos?

Como vimos, além do que pode ser recriado pela Patrística, nós temos acesso a fontes até o século II. E os livros de filosofia e literatura antigos?

  • o manuscrito mais antigo que nós temos de um dos livros de Aristóteles sobre biologia é do século IX. Outro é do século XII. Do século XII também são os nossos manuscritos mais antigos da sua Metafísica e Ética a Nicômaco. São pelo menos 1200 anos depois da morte do filósofo para a nossa fonte mais antiga e pelo menos 1500 anos para a maioria das outras!
  • Neste link (https://www.amazon.com/gp/product/B002RI9CWK/) você pode comprar a ‘Hellenica’, uma obra do historiador e filósofo grego Xenofonte (431-354a.C.) sobre as guerras gregas. Uma obra fundamental da história grega. Recomendo! O problema é que o manuscrito que nós temos da obra é de 1800 anos depois de sua composição! Repetindo: 1800 anos! Todo o resto é o relato de algum autor.
  • A Ilíada, de Homero, provavelmente do século VIII a.C. Seu manuscrito mais antigo é do século X AD, também pelo menos 1800 anos entre a composição e o manuscrito que nós possuímos.

Poderíamos escrever livros sobre isso. Aliás, eles estão sendo escritos por muitos cristãos em resposta às acusações mais absurdas. Por quê? Pelo simples fato de que se usassem o mesmo critério para outras religiões, ou a literatura ou mesmo importantes obras sobre a história antiga, seríamos obrigados a afirmar que nada disso é legítimo ou válido como fato histórico ou digno de estudo filosófico etc.

E alguma coisa dessas é realmente falsa? Claro que não! Possível que existam diferenças? Sim, mas, aparentemente, ninguém cogita anular toda a filosofia ocidental porque não temos manuscritos da época dos grandes filósofos da antiguidade. Ou ignorar as grandes obras da literatura porque elas podem não ser nada disso. Como saberíamos, se os manuscritos são de mais de um milênio depois? A história não existiu?

Ora, nós sabemos porque há atestação histórica de diversas fontes. O que estamos falando aqui é de um falso critério histórico usado apenas para o cristianismo. Nada mais na história recebe esse tipo de crítica ou é invalidado. Sendo que para cada manuscrito solitário de algumas das mais importantes obras da história, temos, literalmente, milhares de cópias antigas das Sagradas Escrituras.

Em grande parte, o que temos de registro histórico antigo, mesmo de filosofia ou literatura pagã, vem do interesse e o esforço de católicos para preservá-los, como as obras da filosofia grega que foram preservadas no medievo, pois as grandes mentes da Igreja os preservaram para estudá-las, para o horror de um mundo que chama tudo isso de “idade das trevas”.

Ou seja, de acordo com os critérios usados com o cristianismo, o que pensar da história, filosofia ou literatura antiga? Tudo mentira, se usássemos os mesmos critérios.

Enfim, se a historicidade da Bíblia é duvidosa, todo o resto da nossa história não pode ser considerado mais que pura fantasia; algo incapaz de ser provado; com fontes tão tardias que não merece crédito.

Os cristãos salvaram o registro histórico e cultural do ocidente. Não queremos nada demais por isso. Fizemos porque o cristianismo busca o conhecimento para, desenvolvendo seu intelecto, consigamos entender melhor a Revelação.

Tudo o que queremos é que usem os mesmos critérios conosco. O único problema é que terão que admitir que não existe nada próximo da comprovação histórica do cristianismo. É um risco que eles vão ter que correr, porque nós não cansaremos de lutar pela verdade, e a verdade é Jesus Cristo.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

4 thoughts on “Crítica textual: fontes tardias?

  1. Gabriel

    Olá! Acabo de ler seu artigo. Sinto o dever de parabenizá-lo por dar argumentos sólidos contra essa enxurrada de contestações tipicamente modernas e vazias (pleonasmo).

    Gostaria de uma resposta, se possível…
    Qual edição da Bíblia Sagrada você recomendaria para quem está começando os estudos? “Bíblia de Jerusalém”? “Bíblia da CNBB”?

    Parabéns e muito obrigado.

    Reply
    1. Papista Post author

      Oi, Gabriel. Tudo bem? A Paz de Cristo!

      Agradeço pelas palavras.

      Toda tradução tem problemas. Especialmente notas e introduções. Mas, em termos de texto em si, eu recomendo a nova tradução lançada pela CNBB: https://www.edicoescnbb.com.br/produto/biblia-sagrada-%E2%80%93-traducao-oficial-da-cnbb-70797

      É o melhor texto que nós temos, hoje, no Brasil. As notas e introduções têm problemas e eu recomendo cautela sobre elas, mas, repito, em termos de tradução do texto sagrado, eu considero a melhor atualmente.

      De novo, obrigado. Fique com Deus!

      Reply
      1. Gabriel Brüning

        Olá! A Paz de Cristo!!!

        Muitíssimo obrigado pela pronta resposta!

        Comprei essa edição no mês passado, fiquei um pouco assustado quando me deparei com um erro ortográfico no meu livro do AT preferido (Eclesiastes). Deparei-me com a palavra “proza”, erro rudimentar…

        Porém, como você disse, é necessário cautela com as introduções e notas…

        Com o aval de um especialista fico mais tranquilo! 🙂

        Achei seu canal no Youtube. Mais uma vez parabenizo pelo excelente trabalho.

        Gostei muito do vídeo onde você explana a Teologia da Aliança…creio que está sob o título de “A Bíblia é chata?…”.

        Enfim…ganhou um inscrito.

        Tomei conhecimento de seu curso e fiquei muito interessado, pois como leigo que as vezes sente medo de ler alguma passagem errada, creio que seu curso seria muito útil. Pretendo adquirí-lo em breve…(provavelmente final de novembro).

        Agradeço novamente a ajuda!
        Obrigado e parabéns!
        Que Deus o abençõe!
        Salve Maria!

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        1. Papista Post author

          Salve Maria!

          Agradeço muito. Espero que goste do apostolado. Na minha página do Facebook (www.facebook.com/umpapista), eu comentei longamente sobre essa tradução ainda no ano passado. Acho até que fui um dos primeiros, senão o primeiro, a alertar para o erro inaceitável da primeira edição: faltava uma parte do livro do Gênesis. A segunda edição ainda contém erros, mas coisas menores, como ortografia. Um dos Salmos também está com um erro em sua descrição. Mas, fora isso, ainda é a melhor edição que nós temos.

          Você será muito bem-vindo no curso. Não deixe de aproveitar as ofertas pela página do facebook e meus outros cursos e o e-book sobre o Santo Rosário. Fique com Deus!

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