Crítica textual: uma ferramenta

By | 26 de julho de 2019

O ramo da pesquisa bíblica chamado de ‘crítica textual’ é o estudo das variações nos textos, versões, fontes etc. Como todo estudo, ele é uma ferramenta. Podendo ser usada para se chegar mais próximo da verdade; para se entender melhor o processo histórico etc.

Infelizmente, como ferramenta que é, também pode ser usada como arma ideológica. Como isso se dá? Principalmente, por tirar dados de contexto ou um ‘efeito de espanto’. Quem é especialista nisso é o professor Bart Ehrman, talvez um dos mais desonestos estudiosos dessa área. Ehrman fez da mistura dessas duas coisas, a retirada dos dados de contexto e apresentação de números e fatos desconexos para causar espanto, uma arte.

Em seu livro, “Misquoting Jesus”, Ehrman apresenta números como “existem 400.000 variações de texto no NT”. Quem lê isso desavisado dificilmente escapa de se espantar. A conclusão de Ehrman, junto com esse tipo de ‘bomba’, parece inevitável para muitos: “o texto que conhecemos como o NT não pode ser confiável pela quantidade de variações”.

A verdadeira pesquisa, no entanto, demanda que isso seja contextualizado. O que Ehrman ‘esquece’ de comentar, por exemplo, é que a maior variação das fontes do NT é que o nome ‘João’ aparece às vezes como Ioannes, em outras como Ioanes, com apenas um ‘n’. Qual é a relevância disso para o estudo bíblico ou mesmo para a atestação histórica? Nenhuma! Mas o estrago já foi feito pelos números e dados sem contexto.

Você sabia que existem mais de 400 maneiras (por baixo) de se dizer algo simples como “Jesus disse: Pedro você me ama?” em Grego bíblico? Especialmente se você levar em conta a evolução da língua em fontes posteriores. Cada uma delas, é claro, conta para catalogar as variações. São números expressivos, sim, mas sobre algo que diz a mesma coisa.

Se você simplesmente apresentar os números, eles parecem engrossar os problemas de variação e confiabilidade. Mas, se você for honesto e explicar as inúmeras variações, verá que elas não são tão relevantes assim. Veremos mais sobre isso abaixo.

Eu já comentei neste apostolado (postagem “eram os Evangelhos anônimo”, ou algo assim), como Adolf von Harnack, um estudioso bíblico do século XIX, desenvolveu uma hipótese (só isso, uma hipótese) em que ele, inconformado porque os fatos não se harmonizavam com suas idéias, disse que os textos bíblicos só começaram a ser nomeados séculos depois da sua autoria e, se encontrassem documentos mais antigos, eles certamente não teriam os nomes dos autores (como “segundo João”, “segundo Mateus” etc).

Pois bem, isso era apenas um chute, na melhor das hipóteses. A mera repetição símia de um academicismo tolo transformou isso em uma verdade incoteste. Todos nós já ouvimos sobre “os Evangelhos serem anônimos, os nomes foram acrescentados mais tarde”. O fato é que novas descobertas de textos mais próximos dos evangelistas acontecem todos os dias desde a metade do século XX. O que descobrimos? É que NENHUMA fonte antiga é anônima! Nenhuma! Isso nunca impediu gente como Ehrman de repetir o mantra dos ‘evangelhos anônimos’. O que antes era uma hipótese fraudulenta, agora é pura mentira!

Da mesma forma, quando se olha a crítica textual, a pergunta deve ser: mas alguma variação relevante em pontos fundamentais da doutrina? Algo que mudaria fundamentalmente a teologia? Algum discurso fundamental de Cristo é totalmente diferente ou ganha outro sentido com as tais variações textuais?

NENHUMA! Não há qualquer passagem relevante afetada. Não há qualquer variação que mude a interpretação bíblica.

Existem algumas variações relevantes em outros sentidos? Sim. Por exemplo, algumas fontes não contém ‘Mc 16,9-20’, encerrando no versículo 8. Isso é muito importante, claro, porque é um grande pedaço da Bíblia. Não mudaria nenhuma doutrina, mas se perderia muito. Porém, não há qualquer indicação que essa versão menor seja mais próxima do original.

Outra variação é o famoso ‘número da besta’. Algumas fontes trazem um 616 no lugar do 666 (também já mencionei isso mais detalhadamente pelo apostolado). Isso é especialmente relevante para as visões preteristas ou futuristas da visão apocalíptica de São João. Tanto para quem acha que o número identifica algum vilão da antiguidade, como quem acha que o número identificará alguém no futuro. Essa, na minha opinião, é mais relevante porque muitos pais da Igreja eram preteristas ou futuristas em sua interpretação do Apocalipse. Mas nada definitivo também.

O fato é que o uso de dados e retórica para causar um espanto tal que a pessoa duvide de sua fé é muito eficaz. Se não fosse, anticristos como Ehrman não teriam ficado tão famosos ou seriam tão socilitados, tampouco teriam causado o estrago na fé que causaram.

Ehrman e tantos outros omitem os aspectos relevantes e apostam no ‘fator espanto’; há dois séculos que se instituiu a farsa de que os antigos eram ignorantes e seu testemunho não podia ser levado em conta; nisso, eles praticamente descartaram o testemunho da Patrística, gente que fazia análise histórica muito melhor que Ehrman e tantos outros. Um olhar sobre a Patrística e você vê tantas fontes relevantes que décadas de trabalho não chegaram perto de conseguir catalogar tudo. No entanto, com uma apresentação bombástica e muitas aparições em ‘talk shows’, Ehrman e outros, como um mágico que desvia o seu olhar para onde nada acontece, conseguiram relegar os fatos para uma posição secundária.

Vou dar um exemplo de como é extensa a atestação bíblica patrística. O projeto que eu citei antes tem um discreto site para consulta pública sobre citações bíblicas pelos Pais da Igreja. Tamanho é o trabalho, que hoje ele só conta com citações do Ato dos Apóstolos.

Clique aqui: http://intf.uni-muenster.de/patristik/index.php

Escolha o livro, o capítulo 1 e o versículo 1 e aperte ‘go’. Veja quantas centenas de citações já foram catalogadas nesse sistema apenas do primeiro versículo de um dos livros. Você não terá problema em entender quando eu repito o que muitos pesquisadores afirmam: se perdêssemos todos os manuscritos, poderíamos reproduzir a Bíblia apenas com as citações dos Pais da Igreja.

Enfim, volto a falar disso em outro momento. Aspectos como a datação e a falta de critério objetivo dos críticos quando se fala das fontes cristãs.

Conhecer é criar filtros contra essas afirmações ‘bombásticas’ que “vão estremecer os alicerces do cristianismo” (típica chamada sensacionalista de ‘novidades’ nada novas contra Igreja). Todo esse trabalho custa mais do que acreditar em erros reunidos em poucas obras. Custam tempo, investimento e esforço. E precisamos de centenas de textos como esse para que algumas pessoas deixem de acreditar em erros, mas bastou uma aparição do Ehrman em um ‘talk show’ para causar um estrago gigante.

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Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

2 thoughts on “Crítica textual: uma ferramenta

  1. Fabio Grana

    Vc merece um programa de rádio, amigo. Obrigado pelas informações preciosas.

    Reply

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