Tre Ore: os sete últimos ditos de Cristo – parte 1

By | 17 de abril de 2019

Os Evangelhos nos dão testemunho das últimas horas de Nosso Senhor Jesus Cristo até Sua morte na cruz. Os três primeiros Evangelhos, conhecidos como ‘Sinóticos’, nos dizem precisamente que esse período foi da ‘sexta até a nona hora’ (Mt 27,45-46; Mc 15,33; Lc 23,44). São João marca a hora do início da crucificação (Jo 19,14). 

            A ‘sexta hora’ é o meio-dia. A ‘nona hora’ é a expressão para às três horas da tarde (15h). Quem reza a Liturgia das Horas reconhecerá esses horários.

            Essas são três horas fundamentais na História da Salvação. A Tradição a separa para celebrações na sexta-feira da Paixão e dá o nome de ‘Tre Ore’, as três horas da agonia do Senhor. Durante esse período, a Igreja oferecia, antes da Missa, uma celebração em que homilias eram lidas com o tema das ‘sete últimas frases de Jesus na Cruz’ (ou as sete últimas ‘palavras’, mas seria mais apropriado os sete últimos ditos).

            Examinemos esses sete últimos ditos como uma reflexão para toda a família.

            1 – “Pai, perdoa-lhes; pois eles não sabem o que fazem” (Lc 23,34):

            A crucificação segue de perto o que foi prefigurado no Salmo 22 (21). Antes da última zombaria, do momento que pareceria a grande humilhação daquele que foi para alguns um profeta e para outros um arruaceiro, o Senhor os perdoa.

            A ignorância diminui a culpa, ensina o Catecismo (CIC §1860), refletindo o ensinamento de Cristo. Cabe uma reflexão sobre isso. A que tipo de ignorância se refere o Senhor? Se fôssemos todos ignorantes de nossos pecados; incapazes de sentir a presença de Deus; ou reconhecer os seus sinais; talvez não tivéssemos culpa. Porém, isso contraria diretamente a doutrina da Igreja:

            – Nossos pecados não são escondidos de nós. Temos plena noção dos nossos atos e dos seus efeitos. O que fazemos com essa consciência é outra história. Da mesma forma, podemos viver em negação ou varrer essa certeza para baixo do tapete sem que isso mude objetivamente a verdade.

            – Deus soprou em nós o Espírito Santo. Não podemos alegar incapacidade de sentir a Sua presença. As coisas do mundo podem nublar essa consciência e torná-la mero sentimentalismo. Porém, ela é um sentimento verdadeiro, o que Pascal chamou de “um vácuo em forma de Deus no coração1.

            – sinais são dados porque podem ser reconhecidos. Diz o Senhor: “[…] se os milagres feitos em seu meio tivessem acontecido em Tiro e Sidônia, elas teriam se arrependido há muito tempo” (Mt 11,21). A palavra ‘sinais’ é, de fato, uma expressão teológica usada por São João para descrever os milagres. Para São João, os milagres do Senhor são os sinais não apenas de Sua divindade, mas do cumprimento messiânico. O Senhor nos dá sinais variados até hoje. Pequenos ou grandes milagres em nossas vidas e outros tanto que presenciamos pelo mundo. O principal deles é a própria Eucaristia. Os olhos da fé enxergam mais longe e deveriam reconhecer os sinais sem se deixar enganar por obstáculos que se apresentam sob o disfarce de um racionalismo que cega ao invés de abrir os olhos.

            Com tudo isso, podemos concluir duas coisas:

            A primeira é o que disse o povo: “caia sobre nós e nossos filhos o seu sangue” (Mt 27,25). As palavras de perdão do Senhor não significam ausência de culpa da nossa parte. Todos nós condenamos o Senhor com os nossos pecados, pois Ele foi morto para retirar os pecados de todo o mundo, do passado, presente e futuro. Cabe a nós aceitar.

            A segunda coisa é que, tendo estabelecido a culpa dos nossos pecados, o Senhor demonstra ainda mais misericórdia! O perdão que Jesus clama é dirigido aos seus executores. Como vimos, seus executores somos nós. São os nossos pecados. No fundo, seria preciso que Ele derrotasse a morte em Sua Ressurreição para que, assim como os apóstolos, acreditássemos.

            Somos lentos para acreditar, e nem sempre colocamos nossa fé no lugar mais importante da nossa vida, tratando as coisas do mundo como primordias e a fé como secundária, esquecendo que é a fé que torna as outras válidas e proveitosas, assim como separa o joio do mundo do trigo de Deus.

            Nossa ignorância é parcial. Assim como as pessoas no tempo de Cristo, nós deveríamos entender melhor a Escritura e suas profecias e prefigurações cumpridas em Cristo. Deveríamos reconhecer Seu amor por nós e, se tudo o mais falhasse, os milagres abririam os nossos olhos. Infelizmente, às vezes nada disso funciona e o pecado nos domina.

            Essa ignorância criminosa foi perdoada por Cristo, apesar de toda a agonia e o sofrimento de ver aqueles que deveriam ser seus irmãos o abandonando. Seu amor é maior que qualquer dor, pois é maior até que os nossos pecados.

            Para uma vivência católica mais plena, São João Crisóstomo, nos diz em uma de suas homilias que, perdoando a todos no momento de maior agonia, o Senhor nos ensinou com atos, e não apenas palavras. Atos que seriam ecoados pela entrega de Santo Estêvão (At 7,60); e devem ecoar em todos os momentos das nossas vidas até o fim.

            Reflitamos sobre o perdão. Fomos perdoados quando menos merecíamos, quando viramos as costas sobre o Senhor que sobre as suas jogava os nossos pecados. Tal bênção não pode ser ignorada. Ela tem que ser vivida em ação de graças ao Senhor.

            Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

            um Papista

1 – Blaise Pascal – Pensées. Paráfrase.

2 thoughts on “Tre Ore: os sete últimos ditos de Cristo – parte 1

  1. Helio

    Muito obrigado por trazer toda essa reflexão no período quaresmal. E por trazer a “história de Jesus Cristo” de forma simples para próximo da Maria Clara.

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