São João Paulo II contra o divórcio: a opção do amor

By | 2 de abril de 2018

Deus criou o homem com a única intenção de formar uma família. Do núcleo familiar até uma família universal, a Igreja Católica. Essa união é tão importante que foi o primeiro sacramento, que marcou a primeira grande Aliança da história, a Aliança de Deus com Adão e Eva.

Em todos os momentos da História da Salvação, vemos a família como o centro da Aliança divina e termômetro para a estabilidade do povo de Deus. A separação da família, começando pelos casais e as profundas marcar que essa separação deixa nos filhos, é a chaga dos piores momentos. Das famílias disfuncionais de Caim e Lamec; de Babel a Sodoma e Gomorra, Deus não via outra opção fora começar a criação do homem do zero. É a presença do Santo (sob a linguagem do Antigo Testamento, o justo), que se ergue de forma contracultural para salvar a situação, que impede que todos morram no grande dilúviu. Noé é a segunda grande Aliança porque ele é a segunda chance da humanidade. A sua família é a base para as novas famílias.

Como todas as famílias, no entanto, não demora para que algum elo fraco atenda aos apelos demoníacos e tente deturpar a família. Daí em diante, a História da Salvação nos confirma duas coisas:

– a prioridade da família e o esforço divino pela centralidade do casamento na vida do homem.

– a incapacidade humana de reverter sua condição pecadora sem ajuda. Seria preciso o sacrifício salvífico e a vinda de Deus feito homem.

Mesmo promovendo a maior demonstração de amor e poder do Antigo testamento, a libertação do povo do cativeiro egípcio, o povo logo volta a pecar. O que se segue é a sucessão de quedas e tentativas de resgate de Deus. Quando seus filhos não ouvem a voz do Pai; não se apegam mais à razão; não percebem o bem que lhes é dado gratuitamente nem mesmo com o Êxodo e o Maná do Céu, então só resta o ‘amor duro’. Amor duro é o amor dado por um pai de forma pedagógica. É a disciplina tão necessária para que se caia na real, acorde para o mundo real, e se dê valor ao que foi dado.

O ápice desse amor pedagógico é o livro do Deuteronômio. Nesse período, Deus parece mais distante. Não mais Ele fala diretamente, nem ao menos o vemos falando com Moisés. Sabemos que o profeta fala pelo Senhor, mas a distância não é para ser ignorada. Na verdade, nós é que nos distanciamos do Senhor. Como Pai, ele só tem duas opções. Ou ele respeita a nossa decisão, ou faz algo tão drástico como retirar o nosso livre-arbítrio. Sendo essa segunda opção uma negação do amor, Deus jamais a toma.

No período do Deuteronômio, o que vemos é uma série de exceções sendo abertas. Santo Tomás de Aquino, ao examinar o papel do juiz e do legislador, comenta que não se pode criar uma legislação impossível de ser cumprida pelo povo, e que um mal menor deve ser tolerado por um bem maior. Essa é a base do Deuteronômio!

Note que o divórcio NÃO era permitido até ali. Apenas em em ‘Dt 24,1-4‘ que vemos a autorização para que se produza uma ‘carta de divórcio’. Os comentários rabínicos e mais tarde dos pais da Igreja que os analisam são unânimes em apontar o assassinato de esposas como o ânimo por trás dessa decisão de caráter civil. Porém, todas as leis de pureza, sacerdotais e pedagógicas (do Levítico até o Deuteronômio) tinham um caráter estritamente TEMPORÁRIO. Quando chegasse o momento, e o Senhor julgasse que o homem estava preparado para viver a responsabilidade, o Rei deveria revogá-las.

Esse momento chega apenas mais de mil anos depois, com a Nova Aliança forjada em Jesus Cristo. Mas não foi algo sem prescrição ou profecia. Além das prescrições de revogação já previstas nas próprias leis, ainda tivemos as profecias. Especialmente o último dos profetas antes do ‘grande silêncio’, Malaquias.

Em ‘Ml 2,16‘, o Senhor diz através de Seu profeta: “Eu odeio o divórcio – diz o Senhor Todo poderoso – e aquele que cobra suas vestes com a violência . Guardai-vos, pois, no que diz respeito às vossas vidas e não cometas traição“.

Malaquias anuncia muito do que já vem chegando em Cristo. Todas as tentativas de reverter o quadro dramático da separação de Israel falharam. Metade do povo pereceu sob os Assírios, e a outra metade havia sido exilada na Babilônia. Agora viviam sob outros dominadores. Nesse sentido, as profecias de Malaquias têm o maior sentido de proximidade e de mudança de leis. O Senhor já vem, e tudo se cumprirá. Com isso, serão revogadas as leis antigas, só permanecendo as Leis Divinas e eternas, os Mandamentos.

Nas traduções que não erram completamente essa passagem, vemos a linguagem da época. O divórcio era chamado de ‘carta de repúdio’. O repúdio era o nome do divórcio. Não por acaso, será a linguagem usada por Cristo no momento da revogação do divórcio (Mt 5,32). Não fomos criados para aceitar tal prerrogativa maligna da separação das famílias. Ela está no cerne de todos os problemas modernos. Quando perguntam a Jesus se Moisés não havia autorizado o divórcio, Jesus está exatamente lembrando o caráter transitório das leis deuteronomistas. Cumpridas as profecias em Cristo, completado o tempo, o Messias, o Rei dos Reis vem para revogar as prescrições temporárias e restabelecer a ordem original do Pai, a única situação em que o homem pode crescer em família com dignidade.

Nos tempos atuais, vemos o mundo cometer os mesmos erros. Acreditando que a liberdade é na verdade a prisão, eles exigem o caminho que termina em servidão. No topo desse desastre está o divórcio. Destruída a família, o resto vem de forma galopante. E assim se fez na nossa sociedade.

Se alguém tem dúvida sobre a destruição da família e seus efeitos, se mesmo uma observação honesta não puder ser a constatação que alguns precisam, temos outras vozes se levantando contra isso.

Jordan Peterson é um psicólogo e professor universitário que vem ganhando espaço na imprensa, seja para que ele fale, ou para atacá-lo. Peterson é um ‘cristão cultural’, segundo ele. Alguém que acredita e testemunha a superioridade da vida cristã como modo de vida civilizacional, ainda que não como um fiel. Há quem diga que ele é um religioso discreto. Embora o cristão seja chamado a dar testemunho de sua fé ao mundo, há uma inegável vantagem na posição de alguém como Peterson. O mundo moderno repudia a tal ponto o que vê como a influência da religião que ignora a possibilidade de se perceber o mundo racionalmente, ou seja, pela filosofia como instrumento racional de experiência e análise da vida e do mundo. Dessa forma, Peterson é o tipo de pessoa que força o mundo a olhar outros tipos de evidência: as estatísticas e a análise psicológica.

Peterson tem como uma de suas grandes cartadas a análise em cima de dados concretos sobre os efeitos do divórcio1 e a responsabilidade dos homens nessa relação (mais um ponto muito parecido com a época Deuteronômica). Contrapondo a narrativa de guerra de classes, Peterson mostra os efeitos da destruição familiar. Quando um jornal tendenciosamente liberal como o New York Times publica um estudo sobre “crianças brancas que crescem em famílias ricas tendem a permanecer ricas, enquanto negros tendem a perder a condição social”, Peterson contrapõe com estudos em que crianças pobres, brancas ou negras, que crescem com pais em casa, tendem a desenvolver melhores condições de vida.

Esse tipo de fato, galgado em estudos, estatísticas e análises psicológicas, tem dado dor de cabeça aos que vêem no divórcio um caminho para a liberdade, pois os fatos demonstram que a base não é a condição sócio-econômica ou ‘oportunidades’ dadas pelo Estado, mas sim a família e o modo de vida cristão. Não por meio de fé ou mesmo da razão pura e simples, mas por dados científicos2.

O caminho do Dr. Peterson deveria ser o caminho de todo cientista e analista. Seja sociólogo, antropólogo, psicólogo, estatístico etc. Todos deveriam buscar na honestidade intelectual, e nas ferramentas da sua área,  uma forma de defender a família para além do bombardeio sentimental da modernidade.

A Igreja Católica não muda aquilo que Deus determinou. Uma vez entendido, a Igreja não muda o que faz parte do ‘Depositum Fidei‘, o Depósito da Fé. Quando o divórcio voltou a ser a grande exigência da sociedade, a Igreja foi mais uma vez acusada de obscurantismo e de ser ‘medieval’. Bem, se a Igreja fosse mesmo ‘medieval’, muito pior seria um mundo que luta para voltar a ser ‘deuteronômico’.

Tudo isso porque, conduzido por pessoas que odeiam a Igreja, o mundo voltou a um estado primordial em que a servidão parece a liberdade, e a (falsa) liberdade pressupõe a ausência de responsabilidade.

Quando São João Paulo II visitou os EUA, palco das grandes disputas pela ‘revolução sexual’ décadas antes, o Papa pregou uma homilia3 inesperada para os comentaristas não-católicos. Sua Santidade falava que apesar da grandeza dos avanços científicos e econômicos, o povo se encontrava mais infeliz e fugindo de sua responsabilidade. A solução, disse o Papa: seguir a Cristo!

Frente às fugas modernas para o sexo, os vícios, a tristeza, São João Paulo II disse: “Eu vos proponho a opção do amor, que é o contrário da fuga“. A centralidade da opção do amor está no casamento. Ele concluiu dizendo: “Siga Cristo! vocês que estão casados: divida o seu amor e também as dificuldades que carrega, respeite a dignidade humana do seu cônjuge; aceite com alegria a vida que Deus dá através de vocês; torne estável e seguro o seu casamento pelo bem dos seus filhos“. (tradução minha)

A opção do amor é sempre contracultural. O mundo pode rir ou ser violento em sua resposta. Mas temos não só a fé na Verdade, mas os dados concretos para mostrar. Acima de tudo, temos a alegria dos casais que vivem a vida cristã.

O Papa mais popular da história foi tratado por grande parte da imprensa com desdém. Para essa imprensa, o papa seria uma mistura inexplicável de alegria, popularidade e santidade em um reacionário e retrógrado. A verdade, no entanto, é que o mundo estava recuando para um tempo muito mais primitivo do que a Boa Nova de Cristo. Um tempo em que o divórcio foi a base para terríveis condutas e a destruição da sociedade. Em Cristo as palavras do Papa encontram a sua base. A opção do amor é a opção do Evangelho.

As famílias cristãs têm problemas como quaisquer outras, mas também são o espelho da solução para o nosso problema civilizacional: elas são o espelho da Aliança divina do Senhor, que criou o homem para ser uma enorme família na terra e nos céus ao lado do Pai.

No dia em que lembramos dos 13 anos da partida de São João Paulo II para o lado do Senhor, suas palavras ecoam com ainda mais urgência por um mundo que sofre como um filho sem seu pai. Mas basta ouvir as palavras do santo polonês, palavras por onde escorre o Evangelho, que vamos descobrir que o Pai jamais nos abandonou. Sigamos Cristo, pois Ele é o caminho, a verdade e a vida.

São João Paulo II, o Grande, apóstolo da família, rogai por nós.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

 

1– siga os links no twitter do Dr. Jordan Peterson:

 

 

 

 

2 – vídeo do Dr. Peterson sobre os efeitos do divórcio: https://www.youtube.com/watch?v=yMTqbc6L6BQ

3 – Homilia de São João Paulo II (tradução precária no site do Vaticano. A homilia original é em inglês e pode ser acessada no topo da página): https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19791001_usa-boston.html

2 thoughts on “São João Paulo II contra o divórcio: a opção do amor

  1. Antonio

    Novamente muito bom. VC poderia falar do Celibato, como aconteceu, qual a razão?

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    1. Papista Post author

      Eu pretendo escrever um artigo sobre isso. Obrigado pela lembrança.

      Fique com Deus!

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