O martírio de São João Batista

By | 29 de agosto de 2017

No drama da História da Salvação (o Theo-Drama), São João Batista ocupa um lugar especial. Para entender a grandeza desse momento, se faz necessário voltar ao  drama de Israel no Antigo Testamento que, cumprindo seu papel de povo primogênito de Deus, nos mostrou o caminho para o Senhor.

Depois da glória do Reino de Davi, vemos a inacreditável queda que se deu com a dor da discórdia entre as tribos irmãs, reis corruptos e idólatras, terminando com o exílio babilônico de um lado, e o aniquilamento do Reino do Norte do outro. Perdido, o povo de Deus começa a tentar entender o que seus profetas haviam dito e ninguém ouviu. Alguns profetas ainda tentavam ser ouvidos durante o exílio. Coube a Israel refazer parte de sua literatura, desenvolver uma forma de orar sem o Templo para não perder sua fé, e começar uma longa espera pelo que foi profetizado.

Entre seus profetas, Isaías disse que antes do Messias viria uma voz abrindo caminho pelo deserto (Is 40,3-5; Lc 3,4), anunciando a chegada do Senhor. Seria o sinal inequívoco de que a hora chegou e a Revelação chegaria ao seu climax com o anúncio do Reino de Deus. Isaías não foi o único, como veremos mais adiante, mas foi o grande alerta no pior momento de Israel. Do anúncio de Isaías até o cumprimento messiânico seriam longos 700 anos.

São Lucas é quem melhor descreve o cumprimento messiânico a partir do sinal de João Batista. Em seu nascimento (Lc 1,5-25), ele é descrito como um parente1 de Cristo. Ele seria confirmado pelo Senhor como aquele de quem Isaías falava e Malaquias havia lembrado mais tarde (Ml 3,1; Mt 11,10); aquele que o Senhor confirma como o maior dos profetas (Mt 11,11), “o Elias”2 que voltaria para anunciar o Messias (Mt 11,14).

João Batista nasce demonstrando que nada é impossível para Deus (Lc 1,36-37) e os homens deveriam acreditar nas profecias dos antigos e nos sinais de hoje. É João Batista quem anuncia que Jesus é o “Cordeiro de Deus” (Jo 1,35-37), mostrando que nós devemos fazer o mesmo que os apóstolos fizeram, seguir o Senhor, o Cordeiro imolado pelos nossos pecados, que cumpriria sua prefiguração como a nossa Páscoa, o Êxodo que liberta não de uma terra hostil, mas dos grilhões do pecado.

Em uma homilia em 2012, o Papa Bento XVI nos lembrou do tempo de João Batista no deserto. O deserto é sempre uma imagem de provação espiritual. O papa nos lembra que esse desafio é o confronto com a própria e absoluta pobreza. Não apenas a material, do despojamento absoluto, mas da pobreza espiritual do desalento, que nos força a largar todo o resto e entender, de uma vez por todas, que nosso único e real caminho é seguir o Senhor. Nada mais nos satisfaz. João Batista é um guia pelo deserto da alma, e quando o evangelista Lucas descreve o pedido dos discípulos para que Ele lhes ensine a rezar, ele lembra: “Senhor, ensina-nos a rezar, como João (Batista) ensinou a seus discípulos”.

São João Batista é um guia por entre a nossa própria pobreza espiritual até Jesus Cristo. Da nossa infidelidade para a fidelidade; da falta de fé para a entrega absoluta; para a falta de amor para a caridade da vivência cristã que aceita a tudo até o fim.

São Beda, o Venerável, disse em uma homilia que João Batista não morreu porque o mandaram negar a Deus, mas porque queriam que ele se calasse. Mas a verdade de Deus tem que ser proclamada, mesmo que isso custe as nossas vidas. E assim fez João Batista, fiel até o fim.

Que o exemplo de São João Batista, a voz que clama no deserto da nossa alma, nos guie em definitivo para o amor de Cristo. Que o Evangelho ocupe totalmente as nossas almas, e nosso Batismo, o símbolo daquele que anunciou a chegada da Verdade, seja respeitado como o sinal de nossa fidelidade e amor.

São João Batista, rogai por nós.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

1 – algumas vezes a expressão de parentesco usada em Lc 1,36 é traduzida por ‘prima’. Não é o correto. Primo seria ‘anepsios‘ (ἀνεψιός), usada em Cl 4,10 para descrever “Marcos, primo de Barnabé”, por exemplo. A palavra usada para descrever o parentesco de Isabel e a Virgem Maria é ‘suggenes‘ (συγγενής), que é uma forma indefinida de parentesco. O correto é traduzir como ‘parenta’, como as boas traduções o fazem. Ou seja, não há um parentesco definido entre São João Batista e Nosso Senhor Jesus Cristo. Sabe-se que eram parentes, muito embora alguns autores tratem isso como uma relação não sanguinea como ‘primo de consideração’. Tradicionalmente, a Igreja trata como um parentesco legítimo.

2 – Elias foi o grande profeta do seu tempo. Entre seus feitos, ele mostrou aos pagãos a força da fé no Deus verdadeiro (1Rs 18), e depois foi arrebatado aos céus num turbilhão (2Rs 2,1-11). Mais tarde, o profeta Malaquias anuncia que Deus enviará novamente Elias antes da vinda do Senhor (Ml 3,23). Essa espera pelo profeta foi entendida literalmente pelos Israelitas no tempo de Cristo (já que ele não morreu, mas foi arrebatado por Deus aos céus), deu abertura a muitas interpretações escatológicas, e muitas seitas e religiões não-cristãs viam isso como um sinal da possibilidade de reencarnação. Para dissipar qualquer dúvida doutrinal, nós testemunhamos na Transfiguração do Senhor a impossibilidade da reencarnação de Elias, que aparece junto com Moisés ao lado de Cristo para confirmar a Sua divindade (Mt 17,1-9). Em seguida, Jesus diz sem meias palavras que São João Batista é “o Elias” que deveria vir e abrir os caminhos para Ele. Ou seja, a profecia de Malaquias se utilizava de uma alegoria que deveria ser entendida e confirmada tipologicamente em Cristo e seu profeta João Batista (Mt 17,10-13).

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