São João Crisóstomo e o jejum

By | 2 de Março de 2017

O que é o jejum? São João Cristóstomo nos diz: “o jejum do corpo é o alimento da alma”.

Jejuar não pode jamais ser visto apenas como uma penitência, ou de forma ainda mais mundana, como apenas se abster de alimento. Para o católico, o jejum é uma oportunidade. É uma benção de Deus que deve ser aproveitada com sabedoria.

Na liturgia da Quarta-feira de Cinzas, Jesus nos ensina que o jejum deve ser algo íntimo, uma prática entre nós e Deus. Não deve ser alardeado, nem muito menos pode ser uma oportunidade para se ganhar simpatia ou pena. Não é necessariamente secreto, mas é uma prática pessoal, algo feito com uma finalidade espiritual, e não um regime físico com ganhos mundanos.

Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (Mt 6,16-18)

Durante a Quaresma, devemos fazer pequenos sacrifícios pessoais. Não para sofrer, mas para assim nos lembrarmos do sofrimento de Cristo no deserto, enquanto se preparava para o Seu ministério terrestre, os três anos que culminaram no Seu sacrifício na cruz e na Sua ressurreição no domingo de Páscoa. Tais sacrifícios visam não só a lembrança por si só, mas uma memória orante, uma participação.

É a oportunidade para usar o jejum como uma forma de cooperar mais profundamente com a Graça de Deus. Através dele, refletimos na vida do Senhor e a grandeza do Seu sacrifício salvífico. Somos chamados a levar normalmente as nossas vidas enquanto jejuamos, para que as nossas vidas sejam exemplo da nossa melhora espiritual durante esse tempo e reflexão.

Como podemos usar essas bençãos? São João Crisóstomo, nunca tímido com as palavras, nos diz:

O valor do jejum não consiste na abstinência de alimento, mas em evitar o pecado; pois aquele que limita o seu jejum apenas à abstinência de carne, ridiculariza o jejum.

            Você faz abstinência? Então me dê provas disso com as suas obras! Que obras?

            – se você vir um pobre, mostre misericórdia para com ele!

            – se você vir um inimigo, se reconcilie com ele!

            – se você vir um amigo sendo bem sucedido, não tenha inveja dele!

            – se você vir uma mulher bonita, passe direto!

            Que não seja apenas a boca que jejue, mas também os olhos, ouvidos, os pés, as mãos, e todos os membros do seu corpo” (São João Cristóstomo: Homilias sobre as Estátuas*; homilia 3).

O grande arcebispo de Constantinopla nos explica aquilo que o Senhor nos ensinou. A Quaresma é o tempo em que os sacrifícios, como o jejum, devem nos conduzir ao Senhor. Conduzindo ao Senhor, não é possível que a nossa vida permaneça igual a antes. Se realmente cooperarmos com a Graça Divina; se realmente jejuarmos para sofrer com Deus e com Ele entrarmos em comunhão; então, a consequência inevitável é que o resultado seja visível em nossas vidas! Dos maiores aos menores gestos! De evitar a fofoca e as palavras duras ao nosso próximo, passando pelas obras de caridade, até a evitar qualquer coisa que nos exponha ao pecado, como a sensualidade sem limites a que somos expostos na TV, filmes, internet etc.

O grande Doutor da Igreja, que recebeu o apelido de Crisóstomo (chrysostomos = boca de ouro) por sua inigualável pregação, vai sempre na raiz do problema. E a raiz do problema humano é o pecado! De nada adianta jejuar ou fazer sacrifícios se nosso olhar não estiver todo voltado para Cristo; se não estivermos dispostos a refletir e a cooperar com as bençãos de Deus.

Na Quaresma, que nossos sacrifícios nos levem à oração, ao contato direto com o Senhor, e que isso resulte em obras! Não pensemos em coisas grandiosas e chamativas, mas nas que são fundamentais para nós e para o mundo: evitar o pecado, ser caridosos em todos os sentidos, e amar a Deus sobre todas as coisas.

Que o jejum seja realmente o alimento das nossas almas.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

 

* as “Homilias Sobre as Estátuas”, de São João Crisóstomo, não foram publicadas no Brasil, o que não é novidade. Durante seu período em Antioquia, o santo presenciou uma revolta popular causada pelo aumento drástico de impostos cobrados pelo imperador Teodósio. O povo derrubou e quebrou todas as estátuas do imperador e sua esposa, Élia Flacila, o que era uma afronta ao falso poder divino atribuído ao imperador. A resposta romana foi violenta. O sofrimento do povo foi marcado pela perspectiva da cidade inteira ser destruída. A vida espiritual dos cidadãos de Antioquia caiu ao ponto mais baixo do desespero e do pecado. São João Crisóstomo, através de suas homilias, convocou o povo a refletir sobre as causas de tudo o que vinha acontecendo, e a retirar disso uma oportunidade para o engrandecimento espiritual e a santificação. Seus sermões tiveram tamanho impacto no povo, que centenas de pessoas se converteram; a paz voltou a reinar; e quando chegou a hora do Doutor da Igreja ser transferido para Constantinopla, onde foi consagrado Arcebispo, teve que sair escondido de Antioquia por medo do povo não permitir. São João Crisóstomo, rogai por nós.

3 thoughts on “São João Crisóstomo e o jejum

  1. Alan

    ótimo texto, explana de forma simples e direta o significado do jejum, ou seja, um esforço a fim de nos aproximarmos ao Senhor.

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  2. Pingback: A Quaresma e as Virtudes Teologais – Papista

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