O fim da solidão.

By | 15 de fevereiro de 2017

Reflexões sobre uma homilia do então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI), em 2004, sobre a Solenidade da Santíssima Trindade. A primeira reflexão do que eu espero ser uma longa série de homenagens ao maior teólogo do último século.

 

O mundo moderno acredita no que Sartre disse, que negar a existência de Deus é o pressuposto para o livre pensar, para o próprio existir filosófico, porque a existência de Deus seria contrária à liberdade humana.

Essa idéia personifica a evolução do pensamento modernista, encontrando seu apogeu no século XX. De acordo com esse pensamento, Deus tinha que ser retirado de cena para que o homem pudesse florescer e demonstrar a sua grandeza. Deus ou era um ditador celeste, cujos caprichos guiavam os passos do homem, ou era uma presença vigilante que, espiando todo o tempo sobre os nossos ombros, não nos dava espaço para pensar por nós mesmos.

Se o século XX foi o século do salto tecnológico, por outro lado, basta uma passagem de olhos sobre a história do século passado que veremos também um tempo sangrento, um tempo de ideologias que aprisionam o corpo e a alma, como o Marxismo e sua maneira de enxergar (ou não enxergar) a história e o homem, e uma busca desenfreada por prazer que relativiza a própria vida.

Identificar Deus como um ditador celeste foi a desculpa para retirar a autoridade final dos princípios morais que regem nossas decisões mais importantes. Culpá-Lo por falta de espaço para pensar e agir foi a saída para fugir da responsabilidade dos nossos atos.

O resultado é o século da destruição; das chagas do nazismo e do comunismo; do relativismo; da revolução sexual, que nada mais é do que retirar a responsabilidade da equação da felicidade na terra; e do pensamento circular, que impede qualquer conversa de chegar a conclusões, seja no nível da conversa entre amigos, ou mesmo no trabalho acadêmico.

O século XX é o século do fim da dignidade humana, e não o século da grandeza do homem sem Deus. Nenhum aspecto aparentemente positivo do feminismo tira o fato de que mulheres, sob o pretexto de ter “controle” sobre o próprio corpo, se tornaram cada vez mais um mero objeto de prazer e ridicularização, assim como perderam aquilo que as exaltava, a maternidade e o respeito próprio. As próprias mulheres se tornaram um instrumento da destruição ao se entregar ao sexo irresponsável com a possibilidade não da gravidez, mas do assassinato do próprio filho.

O que se viu foi o surgimento de uma brutal solidão. Uma dor tão brutal que culpa a família, ou qualquer coisa que antes era nossa proteção. A única coisa que não se culpa, é a própria falta de responsabilidade ou respeito próprio. Culpar a Deus é apenas a sequência lógica nessa ilusão.

A vida se tornou pretexto para o avanço de ideologias. A única coisa que não pode ser impedida é o sexo! Através da elevação do sexo ao patamar mais alto da nossa sociedade, o que antes era a apoteose da dignidade humana, um casamento que gera uma família e luta pelo amor, deu lugar à ausência de responsabilidade, amor, carinho, e respeito ao próximo.

A verdade não dita nos tempos modernos é que há uma imensa solidão nos corações. Uma solidão que não pode ser preenchida por nada a não ser Deus (Deus caritas est = Deus é amor). A rebeldia que nos afasta de Deus é um retorno à adolescência humana. O resultado é um vazio que se tenta preencher com uma sequência de eventos e ações que não cumprem o que prometem.

Nada no mundo moderno secularizado dá ao homem o senso de completitude que ele tanto deseja. Como consequência, assim como a inveja de Caim (http://www.papista.com.br/2017/01/06/a-marca-de-caim/ ), a única solução para quem não quer ceder às investidas do amor  em sua plenitude é destruir o que não se tem.

Deus não nos pede para entendê-lo, mas para vivenciá-lo. Tentar entender não é ruim. Pelo contrário! É pra isso que existe a teologia. Ou melhor, ela existe para continuar desvendando e elaborando os efeitos do amor de Deus em nossas vidas, como eles se refletem em nossa razão e coração, e como podemos viver esse amor em comunhão com o Senhor e a Sua Igreja. Dessa forma, a teologia é um reflexo divino apenas quando bem enraizada mas não é estática, e quando forma laços com Deus e a Sua Igreja. No momento em que ela se desvia desse caminho, se torna parte do movimento moderno que acredita que “Deus e Sua Igreja estão tolhendo a minha liberdade e a possibilidade de grandeza do meu pensamento individual”. A teologia se torna mero exercício especulativo, e Deus se torna mero experimento acadêmico em busca dos aplausos de outros “livre pensadores”. Ou seja, a teologia só é boa se entender a Deus pode nos levar a melhor viver com Ele no Seu amor.

Perdemos de vista que apenas em Deus nós somos livres. Apenas amparados por um amor paterno, uma Aliança eterna e inquebrável, somos livres para desenvolver toda a nossa potencialidade. Apenas no conforto do amor do Pai ficamos tranquilos para seguir com nossas vidas.

Deus se encarnou em Cristo para nos dizer, cara a cara, “Eu estou aqui”! Mas Ele foi além! Ele nos prometeu o Paráclito! Paráclito, em latim, é “Consolator“, aquele que conforta. É o Espírito Santo, que nos deu a certeza de que Deus ainda está entre nós, e conosco ficará até o fim (Mt 28,20).

É a Santíssima Trindade que nos conforta nos tempos difíceis. É o Deus que nos criou para viver em Seu amor. Amor tão forte que veio até nós como Filho, e nos disse para nada temer. É o Deus que depois disso nos deixou o amor que brota dessa relação familiar, o Espírito Santo, para nos consolar nas durezas da vida cotidiana.

Em Cristo, jamais ficaremos sozinhos novamente. Ele é a face de um Deus Uno e Trino, que nos consola eternamente.

O então cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI), na homilia da Solenidade da Santíssima Trindade, na Catedral de Bayeux (França), em 2004, nos deixou a chave para entender aquilo que o mundo de hoje precisa mais do que nunca:

Através da dádiva do Espírito Santo, Deus adentrou nossa solidão e a destruiu“.

Em grego, a palavra “Parakletos” também pode ser traduzida como “aquele que advoga”. Temos um Deus que hoje nos consola, e que advogará por nós no juízo final. Basta o nosso ‘sim’ ao Seu amor.

Não há mais razão para a solidão! Deus nos quer com Ele. Deus vive em nós através do Batismo, e pela Eucaristia renovamos a nossa Aliança como seus filhos. A solidão não tem lugar em corações ocupados pelo Senhor.

Deus é Um e Três: Ele não é uma solidão eterna; Ele é um amor eterno, baseado na reciprocidade das Suas Pessoas; um amor que é causa primária, a origem, e a fundação de todo ser e de toda forma de vida.” – Joseph Ratzinger

Deus forma famílias porque família Ele é. Deus forja união porque união Ele é. Unidos a Ele, somos completos em uma família divina. Deus é o fim da solidão.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista

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