A ideologia de gênero e a teologia

By | 22 de setembro de 2016

A teologia como instrumento racional e caminho para a sanidade contra a ideologia de gênero.

 

A teologia é muitas vezes vista como um estudo vago e distante da realidade. Afinal, para o ateu, se a teologia estuda aquilo que está além da natureza, ela é vã filosofia, exercício especulativo inútil etc. Mas essa definição é o suficiente para a teologia? Claro que não! A teologia não é mera especulação, pois trata não só de fatos da experiência humana, como também de conceitos racionalmente comprováveis. Ou seja, a teologia é um projeto humano em direção ao divino; um projeto que vem do divino, entra na experiência humana, e a Deus visa retornar.

A teologia católica tem como base as verdades guardadas e explicadas pelo Magistério da Igreja Católica, com ponto de partida na revelação pelas Sagradas Escrituras e a Tradição. Respeitado esse tripé, o teólogo católico tem a segurança de que seu projeto jamais cairá no erro.

Como se trata de um estudo que passa pela realidade humana, a teologia pode, sim, contribuir para toda e qualquer discussão da vida na Terra. De fato, ela é essencial! Nos últimos tempos, principalmente nas últimas décadas, um humanismo desmedido, unido à relativização absoluta, nos brindou com a perda do nosso entendimento real de mundo, aquele que só pode se entender ao conhecer as nossas origens e história. Especialmente a história da salvação.

Sob a perspectiva teológica, sem conhecer a Deus, o homem não é capaz de se reconhecer. Apenas se reconhecendo como imagem e semelhança divina o homem pode se diferenciar no universo e destacar sua dignidade. Sem isso, não é nem possível se estabelecer um conceito de homem, humanidade, objetivos, responsabilidades, nada!

Tome por exemplo a chamada ‘ideologia de gênero’. Sem entrar aqui na importante questão de toda a estratégica política; a malícia da imposição de conceitos de forma agressiva e que segregam o contraditório; a perniciosa invasão na dignidade humana; pensemos em uma resposta simples à questão sob as lentes da teologia. Há gente mais qualificada que eu tratando dos aspectos da estratégia política e de dominação mental e cultural. Falarei de teologia como outra possível resposta.

Deus criou o homem e a mulher. A divisão não é acidental, e nem mera construção social. É um fato. Não só biológico, como teológico. A razão dessa diferença é a reprodução. A reprodução é o centro da formação da família, juntamente com o matrimônio. O sexo só existe com uma relação à reprodução. De novo, não é apenas um fato básico da biologia. E note que eu não falei que o sexo é “só para ter filhos”. Ao contrário do que se pensa, a Igreja não vê o sexo entre marido e mulher apenas como ato reprodutivo. Essa é uma imagem criada para atacar a Igreja, e uma longe da realidade. De fato, a Igreja diz que relações sexuais entre um casal é um ato natural de amor. Porém, um casal tem que estar aberto à possibilidade de gerar um filho através daquele ato! É a base do amor e da responsabilidade.

Essa é uma diferença importante para se entender a verdadeira posição da Igreja sobre sexo e matrimônio, e também a caricatura pintada pela imprensa e ‘especialistas’ (em desinformação).

A Igreja explica o que deveria ser óbvio para todos. Algo que o senso comum nos diz, mas décadas de discurso mentiroso corroeram. Do momento em que você separa a possibilidade da reprodução do ato sexual, você vulgariza o sexo e retira do ato e das pessoas a sua devida dignidade. Se você não tem um ato de amor como finalidade, o sexo em si se torna degradante. Se o prazer é seu único objetivo, você não precisa estar casado para isso. Você pode buscar prazer sob qualquer forma. Literalmente!

Liberado o sexo como entretenimento e sem qualquer possibilidade de procriação, cai a última amarra da sociedade, a última âncora da relação com o que é absoluto. Não é de se admirar que o sexo seja a base para toda a mudança comportamental artificial do nosso tempo. Na profética encíclia do Papa Paulo VI, “Humanae Vitae” (Da Vida Humana), Sua Santidade deixa claro que a separação do sexo da possibilidade de procriação traria uma nova era de relativismo como nunca antes vista. Daí por diante, qualquer ato sexual, por mais desregrado, indigno e animalesco que fosse, não teria razão lógica para não ser liberado. Sexo sem a possibilidade de procriação hoje, bestialidade, homossexualismo, pedofilia, amanhã.

Alguém pode negar que esse é exatamente o cenário atual?

O sexo com a possibilidade de procriação, dentro da sagrada relação do matrimônio, é a imagem da Santíssima Trindade. É uma relação familiar, um reflexo divino. Você separa esses componentes, e o homem não é mais capaz de entender a própria dignidade. Incapaz de se identificar como filho de Deus, um ser com dignidade infinita, o homem se pensa livre para modificar até mesmo a sua natureza. Modificar a sua natureza é justamente modificar aquilo que te torna imagem e semelhança de Deus. O resultado é dor e confusão.

A ideologia de gênero é a pregação pelo fim da dignidade humana. A ideologia de gênero é apenas outra forma de se revoltar contra a natureza divina defendida pela Igreja. Tal ideologia visa, no fundo, criminalizar toda a tentativa de se discutir o sexo. Afinal, se você pode mudar até mesmo a sua natureza, tudo o mais é pequeno perto disso.

O sexo se tornou a única coisa que não pode ser discutida nos dias de hoje. Você pode deixar que milhões morram de AIDS, mas não pode, de jeito nenhum, sugerir abstinência e castidade! Todos podem morrer por essa doença terrível, mas afirmar que o sexo visto sob a beleza da relação trinitária do matrimônio acabaria com a AIDS? Isso não é permitido! Não só é proibido, como faria de você um ‘fundamentalista’ aos olhos do mundo.

Modificar o sexo de uma pessoa; se identificar como deseja, e não como você foi criado; são formas de confundir as pessoas e distanciá-las de Deus e Sua Igreja. O homem e a mulher foram criados para que, se unindo, pudessem caminhar ainda mais próximos de Deus como família. A família não é apenas um reflexo trinitário, mas é “O REFLEXO” trinitário na vida humana. Fazer parte da família de Deus é nosso objetivo. Foi pra isso que Deus veio ao mundo para nos salvar. A salvação não é simplesmente nos retirar os grilhões do pecado. É também permitir a nossa união como família divina. Degradar a sua criação é degradar a sua relação com Deus. Degradar a sua relação com Deus é degradar a sua relação com a família humana, o povo de Deus, seu próximo, e todo aquele que vê você como um exemplo.

Castidade.

Um assunto que jamais é discutido é a castidade. A revolução sexual fez com que as pessoas tratassem a castidade como alvo de chacota ou algo puramente artificial. Para a primeira, a castidade como alvo de chacota, podemos dizer que é a hipocrisia de quem se diz tolerante mas não aceita um modo de vida diferente do seu. Sobre a castidade não ser natural, podemos mais uma vez identificar um quadro de desordem mental de quem faz essa afirmação. Quem defende sexo sem a possibilidade de reprodução; que o homem não foi feito para a mulher; que homem pode mudar de sexo etc, não pode afirmar que defende o que é natural. No mais, é óbvio que o sexo só é natural se houver a possibilidade de reprodução.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) tem uma bela definição sobre a castidade: “A castidade significa a integração correta da sexualidade na pessoa e, com isso, a unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual. A sexualidade, na qual se exprime a pertença do homem ao mundo corporal e biológico, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quando é integrada na relação de pessoa a pessoa, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada do homem e da mulher.

A virtude da castidade comporta, portanto, a integridade da pessoa e a integralidade da doação.” (§2337).

Este artigo está na terceira parte do catecismo, para se entender a teologia católica com base nos Mandamentos de Deus. Na seção 2, ele trata de “amar ao próximo como a si mesmo”, e em seu artigo 6, trata do Sexto Mandamento: “não cometerás adultério”. Ou seja, adultério é tratado não só como uma agressão ao próximo, mas como uma forma de retirar a dignidade da pessoa.

Apenas no casamento o amor encontra o seu lugar para frutificar plenamente. Apenas no casamento o homem encontra lugar para a sua sexualidade, estando ela pronta para formar uma família disposta a crescer e frutificar. Fora dessa realidade, o sexo se torna uma paixão sem controle, e o homem seu escravo. O homem não foi criado para ser escravo, tampouco para perder o controle de sua vida e dignidade. A relação entre o livre-arbítrio e a dignidade divina demanda liberdade com responsabilidade. Cabe ao homem governar as suas paixões até que elas encontrem seu lugar digno, onde ela não ofende a si mesmo ou aos outros. Esse lugar é o casamento.

A castidade é uma parte da virtude da temperança (§2341), que é a busca pelo controle das paixões e dos sentidos com o uso da razão.

Todos sabem que não podem ter tudo no mundo. O relativismo tenta esconder isso das pessoas, fazendo-as infelizes com desejos impossíveis de serem satisfeitos. Ou falsamente satisfeitos em comportamentos desregrados e autodestrutivos. O controle é uma virtude, e com o sexo não é diferente. A castidade significa controlar seus impulsos com o que é racional. Para estar preparado para distinguir o que é racional, você precisa entender seu lugar no mundo como imagem do Pai. Só assim você terá um objetivo, algo que você sabe que será melhor para você e para o seu próximo.

A castidade é também o caminho para se entender como evitar a ideologia de gênero. De nada adianta usar impulsos como desculpa para jogar fora os limites. Se você não pode viver com uma pessoa do sexo oposto, mantenha-se casto. Se é um homem, mantenha-se homem. Mulher, siga sendo mulher. Controle os seus impulsos e encontre sua dignidade infinita como filho de Deus. Viver sozinho não é vergonha nem problema se você não consegue viver com alguém. É melhor isso do que se entregar ao erro pela esmola do pecado.

Existem muitos casos de gente que se arrependeu depois de uma mudança de sexo que envolvia mudança física por remédios ou cirurgia. Mas não existe nenhum caso de arrependimento de gente que viveu uma vida de castidade e respeito a si mesmo e ao próximo na busca pelo Senhor.

A teologia nos ajuda imensamente nessa questão. Ela é um freio contra o relativismo. Uma explicação racional e sensível para se lutar pela família e pela dignidade pessoal. É um convite à razão sobre uma vida de mero impulso camuflado pelo relativismo. É a razão nos levando ao controle. É o controle nos levando à liberdade. O contrário é ser escravo de um vício, de um descontrole, enquanto dá desculpas para relativisar o erro. Os defensores da ideologia de gênero escravizam as vítimas de sua experiência social na prisão dos impulsos e da tristeza. São eles que querem que você esqueça o que é racional, não a teologia!

É de primeira importância no mundo de hoje que todos leiam, estudem, e se baseiem na obra que um dia será lembrada como a salvação da nossa era de relativismo: “A Teologia do Corpo”, de São João Paulo II. Como disse o grande Peter Kreeft, ler esse livro hoje é como encontrar Santo Tomás de Aquino no século XII, ou Santo Agostinho no século IV. É contracultural e santo. É o caminho para fora dessa loucura destrutiva.

Como eu disse antes, há gente melhor do que eu tratando as questões políticas, de desinformação, guerra cultural, confusão proposital dos termos etc. Procurem essas pessoas, seus livros, sites! Só não esqueçam que a teologia é um complemento essencial. É por ela que a beleza retorna, as peças se encaixam, e o quadro da relação humana com Deus se completa. Sem ela, temos diagnósticos. Talvez até tenhamos soluções práticas. Mas não temos a beleza que nos espanta; não temos a razão, a fé, e a esperança que nos movem.

Cristo tem as palavras da salvação. A liberdade é seguir o Senhor e encontrá-Lo como modelo de vida e caminho para a eternidade no amor puro e total. A ideologia de gênero é uma caricatura do amor trinitário, que só pode ser encontrado na família cristã, o melhor exemplo que o mundo já viu. Não deixemos que o modelo de amor trinitário, esse reflexo do amor do Pai, seja destruído.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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