Três chances. Terceiro sinal: São João Paulo II

By | 14 de julho de 2016

Saint John Paull II - 2

Junho de 1991. Quarta visita papal de São João Paulo II à Polônia. Após meio-século nas mãos das piores chagas do século XX, o Nazismo e o Comunismo, a Polônia se viu definitivamente livre com o fim da União Soviética, um colapso que se observou inevitável já em 1989, e vinha sendo capitaneado, entre outros, pelo próprio Papa João Paulo II. Era uma data festiva, símbolo de um país livre e soberano, como o próprio Papa fez questão de frisar em seu primeiro discurso. A primeira visita do papa polonês ao seu povo em uma nova realidade, a da liberdade e da democracia. Porém, além de alegria e simbolismo, a visita de João Paulo II gerou enorme estranheza, e até mesmo certo rancor, em parte da mídia, observadores mundiais e do povo presente. Eram, mais uma vez, palavras que poucos queriam encarar, e que ninguém esperava ouvir.

A visita do papa era mais que uma formalidade ou uma visita familiar. Também não tinha tons políticos como suas visitas anteriores. A Polônia, primeiro país conquistado pelo Nazismo na Segunda Guerra (depois da própria Alemanha), era um exemplo para os povos conquistados pela tirania. Sua liberdade era o símbolo de uma conquista. Havia um importante evento da Igreja, o “Segundo Congresso Plenário da Igreja Polonesa”, que discutiria a missão da Igreja em uma situação de liberdade. Algo que a igreja local não via desde antes da Segunda Guerra. Havia uma geração de sacerdotes que jamais havia vivido em um país livre; uma igreja local que só sabia viver como resistência, e agora precisava saber como exercer sua missão nessa nova realidade. Era um encontro de profunda reflexão e renovação espiritual. Absolutamente fundamental, e nada político. A Polônia havia se tornado uma trincheira, uma resistência espiritual que parecia apenas se fortalecer diante de toda a tirania. Algo típico na história da Igreja Católica, mas que nunca deixa de surpreender.

O novo cenário trazia consigo a dureza de uma guerra cultural. O que seria a Polônia? E sendo a Polônia o símbolo que era, o que seria do mundo? Conseguiria a Polônia exercer agora toda a espiritualidade desenvolvida durante as décadas sob a tirania? O significado da velha frase “quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”, foi sempre o perigo para os novos países livres. A guerra cultural, nesse caso, significava um país que desenvolveu uma identidade cultural e uma espiritualidade fortíssimas, e agora vivia o momento de escolher entre colocar tudo isso em prática. Isso, ou abraçar o modo de vida do ocidente por inteiro. O modelo ocidental dominante era (e é!) um secularismo cada vez mais violento, em que a idéia de separação de Igreja e estado ganha contornos de exílio espiritual, com qualquer coisa defendida por religiosos sendo automaticamente tida como “fundamentalista” e retirada do debate e da vida cotidiana. O tal estado laico, que um dia foi a proteção da religião, se tornou uma desculpa para retirá-la da cultura, do dia-a-dia do povo. Se a Igreja opinava sobre o aborto, então sua opinião não podia nem ao menos ser considerada, e a causa do aborto ganhava mais força. Se religião era a bateria que recarregava a energia do povo oprimido, ela agora seria vista com desprezo e retirada da vida pública, do ensino e do modo de vida das pessoas. Os poloneses pareciam agarrar com gosto o feroz secularismo, o consumismo, e os temas enganosamente ligados à idéia de liberdade, como a sexualidade sem limites.

Quando São João Paulo II se dirigiu ao seu povo, levou como tema os Dez Mandamentos. A mensagem era clara! As bases da sociedade e da democracia eram seus fundamentos morais. De um lado, um povo sedento por liberdade e as facilidades que o ocidente tinha para oferecer. De outro, um clero local despreparado para lidar com a nova realidade. O congresso de 1991 era uma importante iniciativa para dar um rumo ao país. Tanto ao clero quanto ao povo, que via no Papa não só um símbolo da liberdade, mas um guia. Literalmente, um pai. É dever de um pai dizer aquilo que não se quer ouvir, aquilo que é preciso para a vida, aquilo que é fruto de sua experiência, conhecimento e autoridade moral. João Paulo II não se furtou ao seu dever! Levou a mensagem que o povo desesperadamente precisava. Apenas não era o que eles esperavam ou queriam ouvir.

Em seu último discurso, o Papa parecia explicar sua mensagem para um público ainda atônito. A liberdade, segundo ele, deveria ser conquistada. Acima de tudo, ela devia ser aprendida. Para se tornar uma liberdade madura, precisa ser uma constante educação, e parte de uma vigília. Apenas quando é madura, ela perdura e dá frutos. Ou a sociedade passa a viver uma liberdade ilusória, algo que ao invés de frutificar com o homem, o aprisiona. Uma bela e verdadeira mensagem. O Papa pedia ainda um exame de consciência aos poloneses, uma busca pelas suas raízes, sua herança cultural e sua religiosidade. De fato, João Paulo II não fez distinção. Chamou o país de “herança espiritual do povo”. Era preciso entender que uma nação é mais que suas fronteiras. Ao desdenhar da existência de fronteiras, os partidários do globalismo desdenham da própria herança de um povo. Caem as fronteiras físicas, mas caem também as fronteiras que enriquecem o mundo, a cultura e a espiritualidade dos povos. Forma-se um mundo insosso, uniforme e sem personalidade.

A Polônia corria o perigo de largar toda a sua herança por promessas de liberdade que mais parecem prisões da mente e da alma. A pornografia, o aborto, a relativização do casamento, e todo o pacote de monstruosidades vendido pelo ocidente sob o rótulo de “liberdade”, corria o risco de arruinar a herança cultural e espiritual conquistada sob muito sangue e luta. O Papa fez o que tinha que fazer. O momento e sua iniciativa, tanto de ir ao encontro do seu povo, como de um amplo debate com o clero local, eram perfeitos. O mundo teria aprendido demais com o que era tratado pela imprensa como uma realidade apenas polonesa. Mas ninguém quis ouvir.

Essa foi a quarta visita do pontificado de João Paulo II à Polônia. É amplamente ignorada ou tratada como um fracasso. A imprensa, já na total degradação que se torna a cada dia mais evidente, fez o que sempre faz: tratou da visita como um fracasso; o Papa como um velho rabugento e fundamentalista, que não apreciava o impulso do povo para abraçar as “maravilhas da liberdade ocidental”. Essa lamentável caricatura pautou a imprensa em sua relação com o Papa daí pra frente. Não só a imprensa, mas alguns biógrafos (marqueteiros travestidos de biógrafos), como Carl Bernstein e Peter Hebblethwaite, aproveitaram a deixa para construir e propagar essa imagem falsa e cruel.

CONCLUSÃO:

Com este artigo, eu concluo uma série em que eu tentei separar momentos em que Deus nos deu um sinal. Uma chance de ouvir, entender o alerta, e agir! Chances que nós ignoramos. Algo que acontece mais frequentemente do que gostamos de admitir.

Em 1978, Alexander Solzhenitsyn nos alertava para o que o ocidente vinha se tornando; sua fraqueza espiritual; sua ignorância proposital sobre a própria cultura; sua liberdade sendo desperdiçada e substituída por apelos sensoriais rápidos e fugazes.

Em 1979, Madre Teresa, vinda do meio da mais brutal pobreza e insalubridade, alertava para o fato de que a solução apresentada para os males do mundo eram imorais; caprichos de quem não cuida da própria liberdade. Para manter uma liberdade que mais parece uma prisão do hedonismo, qualquer crime e imoralidade eram aceitos. O aborto seria o pior sinal de nossa degradação e de uma solução não só ilusória como um sinal de nossa queda.

Em 1991, São João Paulo II se deparava com uma sociedade que teve toda a chance de ouvir o que foi dito nos dois avisos anteriores; que viveu essas situações e que parecia ter entendido os dois personagens citados anteriormente, e estaria pronta para uma vida de exemplo ao mundo. Mas que agora, com a liberdade, escolhia ignorá-los! Sua mensagem, ao contrário do que se pensa, não era um puxão de orelhas, mas o lamento de quem presenciava todos os esforços dele e de outras pessoas que, atentas à Palavra de Deus, haviam deixado um alerta. Alerta esse que se provava ignorado. Suas palavras, acima de tudo, eram uma tentativa de recolocar aquela geração, uma geração que viu tanta dor e tinha tanto potencial, no caminho certo.

Cada um desses avisos foi ignorado na sua época. Seus autores foram vítimas de pesados ataques depois de cada um desses episódios, embora não tenham perdido seu prestígio ou autoridade moral. Até Madre Teresa tem sido vítima ocasional de um revisionismo típico dos canalhas, que tentam sujar uma biografia impossível de ser maculada.

O que é mais importante: nós temos a chance de agora ouví-los! De aprender com nossos erros, e recolocar as coisas no caminho que Deus nos dá. A história da salvação é sempre um caminho como esse. Do pecado original, passando pelo povo ignorando Moisés, à aliança Deuteronômica, e até mesmo os que ignoraram a Deus feito homem, Jesus Cristo, e daí por diante! Em todos esses momentos, Deus nos deu a possibilidade de aprender com os nossos erros e ouví-Lo. Sua mensagem definitiva já veio em Cristo. Depois dEle, não houve, e não haverá outra mensagem. Os avisos, essas novas chances, são como as últimas chamadas para se embarcar no trem da salvação, que já vai saindo. Nosso dever é ouví-las e transmití-las! Que possamos fazer as escolhas certas!

São João Paulo II, olhai por nós.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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