Três chances. Primeiro sinal: Alexander Solzhenitsyn.

By | 16 de junho de 2016

Alexander Solzhenitsyn

Uma velha piada que eu sempre repito como exemplo é a do homem que ouve pelo rádio que uma inundação vai destruir a sua cidade. Ele diz: “eu sou um bom cristão. Deus vai me salvar”. A água começa a subir. Passam um barco e um helicóptero oferecendo ajuda. Sua resposta é sempre a mesma. O homem morre afogado. Ao chegar no céu, ele diz: “Deus, eu sou um bom cristão. Por que o Senhor não me ajudou?” Deus responde: “eu lhe mandei um aviso pelo rádio, um barco e um helicóptero. O que mais você queria?”.

Deus nos dá muitas oportunidades na vida. O mundo hoje foca apenas no novo emprego conquistado, no sucesso alcançado, na política, em ideologias, ou mesmo em pequenas coisas materiais. Recebemos, sim, muita coisa boa na vida. Conquistar boa qualidade de vida, ou pensar em política, não é ruim. É bom pra nós e pode ser ótimo para o nosso próximo. Tudo isso merece a sua gratidão como outra benção de Deus. Porém, temos dificuldades em perceber os sinais que Ele nos envia para nossa melhora moral e espiritual. Sinais que, entendidos, ajudariam não só as coisas do dia-a-dia com que nós perdemos tanto tempo, como a vida como um todo. Infelizmente, não são coisas sobre as quais gostamos de ser confrontados. O orgulho invariavelmente age, e nos tornamos cegos tanto para as palavras mais duras e diretas, quanto para os pequenos sinais. Sinais esses que podem vir em forma de livros, artigos, palestras ou conversas com qualquer um! Só precisamos entender que sempre é um alerta dado para nós, e não para aquela pessoa do seu lado. Essa pessoa muitas vezes desagradável que você jura que precisa entender o que você mesmo ignora. Já você, assim como o sujeito da piada, acha que receberá algo especial porque assim merece. Ninguém merece! Certamente nada mais do que esses sinais. De fato, nós provocamos graves danos a nós mesmos e à nossa civilização não os percebendo. Nós criamos ídolos, e só deles esperamos sabedoria ou ações boas o suficiente para valer nossa reflexão. Uma idolatria tão ruim quanto qualquer outra. Os bons alertas devem ser entendidos como algo pessoal! Uma vez entendidos, eles criarão, atrasvés de você, o efeito de mudança que o seu próximo precisa. E com ele a família, a comunidade, o país etc.

Destaco três oportunidades, em uma série de três artigos, em que a providência divina enviou sinais, e o mundo praticamente ignorou. Neste artigo, falo sobre um profeta que veio do gelo.

Em 8 de junho de 1978, o escritor russo Alexander Solzhenitsyn (Soljenítsin), então convidado de honra da universidade de Harvard, discursou para uma platéia que até hoje não o entendeu. Soljenítsin foi um dos autores fundamentais para que o ocidente entendesse (ou não ter desculpa para negar) a situação dos russos por trás da cortina de ferro das prisões, assassinatos em massa, e propaganda comunista. Em uma das palestras mais disputadas da história da instituição, uma multidão lotava o enorme campus da universidade. Havia no ar a expectativa irreal de que Soljenítsin fosse se exilar nos EUA, ou ser exilado pelos comunistas, já que, na imaginação dos presentes, após a palestra, ele certamente seria proibido de voltar para a então URSS. A multidão esperava que o autor tecesse loas ao modo de vida ocidental moderno, especialmente o americano, e ao capitalismo em geral. Caracterizar o que se seguiu como um choque para os presentes é um dos maiores eufemismos das últimas décadas.

O lema de Harvard é’ VERITAS’ (verdade). Alguns de vocês já perceberam, e muitos ainda perceberão, que a verdade nos elude assim que nossa concentração cai, deixando, porém, a ilusão de que nós ainda a perseguimos. Essa é a fonte de tanta discórdia. Também o fato de que a verdade raramente é doce; é invariavelmente amarga.”

Assim começou o discurso, de forma profética, já que a verdade não seria percebida pelos seus ouvintes. Mesmo que eles julgassem perseguí-la, e estarem ouvindo-a atentamente.

Soljenítsin, continuando em sua exposição profética, tenta mostrar aos presentes, e a todos nós, os erros do globalismo e do “multiculturalismo”. Ele alerta para a falsa sensação de que a divisão dos povos se dá apenas pela força das armas ou por meras diferenças políticas. A divisão, segundo ele, é muito maior e mais profunda, mas igualmente perigosa se não for percebida e respeitada. Na clareza da visão do autor, o ocidente teima em não enxergar, logo, não respeita as diferenças culturais de cada povo. O ocidente mais próspero projeta a sua visão de mundo de tal forma que se perde acreditando que busca a verdade, quando apenas vê o que quer: um mundo em que, bastando remover as barreiras políticas, e se todos aceitassem a aparente superioridade de um modelo cultural único, todos seriam felizes como eles julgam ser. Como seria esse modelo? O escritor disseca os pontos importantes em seguida.

Segundo Soljenítsin, o ocidente jamais entendeu a Rússia antes, e continuava a não entender a Rússia sequestrada pelo comunismo. Toda cultura milenar constituiria um mundo próprio. Ele chega ao ponto em que diz, sem julgar os méritos, que o Japão se tornou mais próximo do ocidente do que de seus vizinhos orientais. E aí ele dá uma pista aos que assistiam sua palestra: “Israel, creio eu, não deveria ser contada como parte do ocidente, mesmo que apenas pela circunstância decisiva de seu sistema de estado ser fundamentalmente ligado à sua religião!

Ninguém ali esperava nada disso! Ele estava criticando o ocidente? Ele que vive como um prisioneiro e luta contra o comunismo? Religião e cultura para os alunos de Harvard? Do que ele estaria falando? Essas perguntas eram claramente o sentimento da maioria esmagadora da platéia. E ele continuava:

Já é tempo do ocidente defender não apenas direitos humanos, mas obrigações humanas!

Um declínio em sua coragem é a característica que salta aos olhos de um observador do ocidente atual“.

Pressa e superficialidade. Essas são as doenças mentais do Século XX, e a imprensa é onde isso mais se manifesta. Uma análise mais profunda é vista como anátema pela imprensa; é algo contrário à sua natureza […] Mesmo assim, a imprensa se tornou o grande poder nos países ocidentais.

Falando da mídia, ele fala da auto-censura imposta por modas e escolhas políticas. Algo que limita o diálogo, mas, pela ausência de censura estatal, não se percebe:

Nos EUA, eu recebi cartas de pessoas muito inteligentes, talvez um professor em uma universidade pequena do interior que pudesse fazer muito pela renovação e salvação deste país. Mas o país não pode escutá-lo porque a imprensa não vai lhe dar espaço“.

Resumindo seu discurso como um despertador que toca após um mísero cochilo depois de um dia de trabalho duro, Soljenítsin disse:

Se me perguntarem se eu proponho o ocidente de hoje como modelo para o meu país (Rússia), francamente, eu responderia negativamente! Não, eu não posso recomendar a sua sociedade como um ideal de transformação para a nossa! Através de profundo sofrimento, as pessoas do meu país alcançaram um desenvolvimento espiritual de tamanha intensidade que o ‘sistema ocidental’, em seu presente estado de exaustão espiritual, não parece atraente!

As pessoas lotaram Harvard esperando ouvir uma coisa, e ouviram o que não queriam. O lema de Harvard foi desrespeitado, sim, mas por elas! O escritor vindo do país que vivia o que ele mesmo chamava de atrocidade comunista, tentou explicar o que significava o lema pelo qual os estudantes e professores dali deveriam pautar seu projeto intelectual. Ninguém ali compreendeu. Confirmando, assim, seu alerta ainda no começo do discurso.

O escritor falou de sofrimento e espiritualidade como uma força decisiva na vida do homem e seu caminho. Falou para um público que entende o sofrimento apenas como algo ruim. Um público que retirou a idéia de sacrifício de sua mentalidade e vocabulário. Gente para quem espiritualidade é um estorvo medieval a ser retirado no caminho do progresso. Sem ao menos refletir sobre o que são essas coisas, ou o que elas representaram para uma noção muito mais abrangente de progresso. Eles nem perceberam que estavam ouvindo aquilo por estarem em uma universidade. Um local que deveria estimular tais reflexões, mas que, ao contrário do seu lema, não buscava a verdade. Apenas relativizá-la e torná-la nada mais que um sentimento pessoal.

Mesmo com todas as benesses de um modo de vida que, quando não é corrompido, é baseado em liberdade e meritocracia, o ocidente se perde ao abusar de sua liberdade relativizar a verdade. Quando esquecemos que a liberdade é uma conquista, e não um direito adquirido; quando esquecemos que nossas origens cristãs nos deram as bases morais que são o sustentáculo da nossa civilização; quando o relativismo impede a busca real pela verdade e nos transforma em covardes sentimentalóides que aceitam tudo; quando estamos tão confortáveis com nossas conquistas materiais que abrimos mão de todo o resto; o resultado é esse: todos nós somos a platéia que ouviu Soljenítsin expor o atual estado da nossa civilização mas preferimos ficar quietos ou ofendidos.

É a nossa fé que nos move na busca pela verdade. Somente com a fé nós reconhecemos que existe uma verdade absoluta. Uma verdade que vale as nossas vidas. No final, Deus é a verdade que vale as nossas almas. Sem Ele, presenciamos um sinal como esse e não entendemos.

No próximo artigo, mais um sinal que teimamos em ignorar. Rezemos para que consigamos a fé e a força para não ignorar nossos profetas.

Que as últimas palavras do discurso desse grande escritor nos ajudem:

Se o mundo ainda não chegou ao fim, ele chegou a um momento decisivo na história, e de Igual importância à passagem da Idade Média para o Renascimento. Demandará de nós uma chama espiritual; nós nos ergueremos a um novo patamar de visão, a um novo nível de vida, em que nossa natureza física não será amaldiçoada como na Idade Média, mas ainda mais importante: nossa vida espiritual não será soterrada como na Era Moderna.

            A ascensão é similar ao ato de escalar até o próximo estágio antropológico. Ninguém na Terra tem outro caminho a não ser para o alto!

 

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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