A vontade de Deus

By | 10 de novembro de 2015

Quem ousa saber a vontade de Deus? Nenhum homem, santo que seja, ousou saber a verdade absoluta sobre Deus. Somos pequenos e indignos frente ao Pai. Não há como nosso parco entendimento alcançar os desígnios daquele que É. Tudo o que sabemos é o que ele deixou para nós. Seja notando as pistas na criação, como bem ensinou Davi no Salmo 18 (Sl 18, 2): “Narram os céus as glórias de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos“; seja pela Sua palavra, através de seus profetas ou diretamente, como para Moisés ou séculos mais tarde por Cristo; seja pela marca visível que Ele deixou para todos, Sua Igreja, protegida de erro quando trata de matéria moral ou doutrinária.

Se sabemos pouco, sabemos alguma coisa sobre a vontade de Deus, e temos certeza de que Deus nos ama a ponto de enviar Seu Filho para morrer por nós. Além de nos deixar uma riqueza de informação sobre a salvação e sobre a vida no mundo por Ele criado. Nos enviou anjos e profetas; coloca constantemente apoio em nossas vidas; e cumpre sua promessa de nunca nos deixar sozinhos ou sem guia se assim quisermos. Tudo isso nos dá a certeza de que é possível resolver um problema teológico sobre ser possível ou eficaz rezar para Deus. Já nos primeiros séculos do cristianismo esse problema foi discutido, então temos certeza de que não é uma novidade, e que há respostas. Também é possível perceber que desde cedo enfrentamos o problema dos deterministas. Determinismo teológico é o conceito de que tudo está predeterminado, ou seja, Deus já teria arrumado tudo de determinada forma e, com isso, já saberia o que acontecerá no futuro. A consequência direta disso é que não seria necessário rezar, ou mesmo se preocupar com seu destino, já que tudo já foi definido.

O determinismo teológico não vem de um pensamento maligno, mas de uma falha na compreensão de conceitos fundamentais para a questão, como a onipotência, onisciência etc. Se esses conceitos são entendidos erradamente, é simples chegar à conclusão de que Deus sendo onisciente, Ele tem que saber “tudo”, isso inclui o futuro. Sendo onipotente, Ele moldou tal futuro, diz o determinismo. Aqui é bom explicar que estamos falando de um determinismo beirando o fatalismo. E também diferenciá-lo de predestinação. Predestinação trata especialmente da salvação. Isso é para outro artigo. Determinismo é sobre toda realidade ser já estar definida desde sempre, e como isso agiria sobre as leis naturais. Devemos dizer que Santo Agostinho lidou muito com essas questões, mas seu foco maior foi outra consequência da má interpretação desses termos, o que ficou conhecido como o “problema do mal”, e a má interpretação (e muita confusão) sobre a predestinação que ocorria em sua época. Santo Tomás de Aquino também tratou disso tudo mais tarde. No entanto, São Gregório, o Grande, nos deu muitas respostas. Embora um teólogo limitado, já que esse não foi seu foco na vida, Gregório era um homem de profundo bom senso e amplo conhecimento. Por que citar então São Gregório no meio de tantos teólogos mais completos? Porque ele nos ajudou com senso comum e reflexões retiradas da Bíblia de forma muito clara.

Livre-arbítrio, em todos os casos citados, é a chave para se entender tudo. Em relação ao determinismo, o livre-arbítrio reforça a questão da necessidade da oração, algo tão importante na vida cristã, e que parece estar se perdendo nos dias de hoje. Em um mundo que entende uma relação pessoal com Deus como algo tão pessoal, mas tão pessoal!, que acaba por excluir Deus e Sua Igreja; um mundo que tende a ver oração como um hábito medieval, uma superstição de idosas que hoje já não teria sentido; a oração vai perdendo seu caráter santo e instrumento de ligação com a Graça de Deus. É pela oração que podemos nos colocar inteiramente à disposição para tentar entender a vontade de Deus. Ao menos pistas do que Deus quer de melhor para nós. Por causa da benção do livre-arbítrio, que permite um amor ainda mais belo porque é escolhido, nós precisamos responder à Graça de Deus. Para responder à Graça de Deus nós precisamos não só demonstrar nossa vontade, mas também parar para escutar. É exatamente porque Deus respeita nosso livre-arbítrio é que Ele não força sua vontade em nós. Se quisermos realmente encontrar e tentar entender a vontade de Deus, precisamos encontrar tempo para a oração.

O catecismo também nos dá ótima instrução sobre a oração. Em sua resposta 2737 o catecismo nos explica por que pedimos e não recebemos, e como nosso egoísmo é o elemento para a ineficiência da oração. A linguagem humana é insuficiente para descrever o amor de Deus. Quando dizemos que esse amor divino é ciumento, o que queremos dizer? Deus não pode ser rebaixado a sentimentos humanos rasteiros, então não é algo a ser interpretado literalmente. O que isso significa é que Deus conhece nosso coração, e sabe que quando estamos orando com egoísmo, não estamos realmente falando com Ele. Pois Ele é amor e ordem, e esse tipo de sentimento é o contrário. Nossa oração é boa quando aprendemos a orar de verdade para Deus. Fazemos isso nos libertando de nossas próprias amarras de egoísmo e confusão. Deus só pode agir em nós quando nós permitimos, e isso só se dá quando galgamos a nossa própria montanha de más intenções. E por más intenções não se deve entender apenas a vontade de fazer o mal ao próximo, mas intenções que nada têm a ver com o amor libertador de Cristo. O que nos leva à resposta 2738, tão boa que eu reproduzo inteira: “A revelação da oração na economia da salvação ensina-nos que a fé se apoia na ação de Deus na história. A confiança filial é suscitada pela sua ação por excelência: a paixão e ressurreição do seu Filho. A oração cristã é cooperação com a sua providência, com o seu desígnio de amor para com os homens.”

Economia (oíkonomos) significa administração do lar. É uma relação familiar. Ou seja, a economia da salvação é a relação em família e com Deus. A oração é parte dessa relação de família. E o catecismo ensina que ela é cooperação com a providência. De novo, é preciso que nós atuemos para que a providência aja em nós. Essa é a beleza do livre-arbítrio! Usar esse dom para o bem maior, o contato com o amor divino.

Quem pode saber mais sobre isso senão os santos? Foram os santos que mais se aproximaram de entender a vontade de Deus. Longe como a santidade possa ser para tantos de nós, eles são o exemplo e a força em que podemos confiar para trilhar o mesmo caminho glorioso. São um mapa para a vida como exemplo, e para o contato com a vontade de Deus pela oração. Cada vez que alguém despreza uma oração, uma frase edificante, um conselho dos santos, como sendo uma velha superstição, algo ingênuo demais, ou até mesmo inalcançável, está desprezando um conselho que pode valer, literalmente, tudo.

A bíblia nos mostra claramente a importância da oração e ajuda pela oração de uns aos outros. Na epístola de São Tiago (Ti 5, 16), o apóstolo nos diz: “Confessai os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração do justo tem grande eficácia“.

Primeiro devemos entender uma coisa, e nenhum cristão pode ter dúvidas sobre isso. Cristo é o único mediador entre Deus e o homem! Porém, como diz São Tiago, devemos rezar para que os santos também rezem por nós, e nos ajudem a chegar mais próximos do amor de Deus. Nenhum deles pode nos salvar. Mas como diz a passagem, a oração deles é muito eficaz. Exatamente porque nos ajuda naquilo que queremos com a oração, entender melhor a vontade de Deus para nós. Se oramos para um santo, estamos orando a Deus. Não há idolatria. Estamos apenas nos ajudando, como Deus nos disse para fazer e assim está escrito na bíblia. Eu voltarei para o assunto em um artigo apologético sobre a acusação protestante de idolatria, principalmente contra Maria Santíssima, logo ela, tão importante nessa ajuda para a salvação. Ninguém conhece o Filho como sua Mãe, e ela é uma poderosa intercessora por nós em Cristo (Jo 2, 5). Mas uma coisa eu adianto. É claro que Cristo nos basta. Mas Ele nos basta para a plenitude da vida, nossa salvação. Não estamos falando de salvação, mas de ação e oração. Se estamos mesmo lidando com alguém imensuravelmente além de nós, sua única forma de nos fazer entendê-lo, como alguns protestantes pregam, seria uma quebra do livre-arbítrio. Sem isso, precisamos de intérpretes. Precisamos de ajuda para saber o que Deus quer de nós, e como podemos dizer a Ele, sem as limitações de nossos erros, que o amamos e amamos e queremos bem ao nosso próximo. Mais sobre isso depois,

A vontade de Deus é seu infinito amor. Tudo o que podemos fazer é responder a esse amor, e escolher acolhê-lo. Temos a Palavra de Deus e a ajuda dos que chegaram mais próximo desse entendimento que é impossível em sua totalidade. A oração é o caminho. A oração é fundamental como é eficaz. A oração é nosso momento de calar os sentimentos ruins, dispensar o ego e se entregar inteiramente a Deus em seu amor. É o momento de pedir pelo próximo assim como pela oração dos santos por nós. É pela oração que agimos com a providência divina e tentamos nos fazer sinceros e abertos para o amor de Deus. É quando tentamos entender o que Deus quer para nós, a Sua vontade, para que ela, e não a nossa, seja feita.

Em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria, e contando com a oração dos santos e dos meus próximos. Eu rezo por vocês.

um Papista.

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