Recompensa infinita

By | 23 de agosto de 2015

Um dos grandes presentes que a teologia do século XX nos deixou foi a Teologia da Nova Aliança. Na verdade, uma renovação da idéia. É preciso dizer que tal noção já existia desde a era da patrística. Porém, sua definição como uma teoria específica, e sua utilização em um sistema teológico, só se deram, na prática, no século XX. Antes disso, o melhor exemplo é de Santo Agostinho, que disse que “o Novo Testamento está oculto no Antigo, e o Antigo Testamento é revelado no Novo”.

Essa foi a base para o estudo de gente como Henri de Lubac. O teólogo francês foi um dos pioneiros do que ficou conhecido pelo apelido pejorativo dado pelo grande tomista Reginald Garrigou-Lagrange: Nouvelle Théologie. Os proponentes dessa nova maneira de se pensar a teologia preferiam o termo ressourcement, de difícil tradução quando se fala na citada idéia teológica, mas que seria algo como uma ‘renovação’, ou talvez o que eles quisessem melhor dizer seria “primeiro, um retorno (às fontes). Aí então, uma renovação”. Para muitos, os anos de neo-escolasticismo haviam desaguado em um exercício de lógica e definições herméticas, em que a história e a teologia da era patrística não faziam mais parte da exegese teológica ou filosófica. Henri de Lubac e tantos outros trazem a patrística de volta ao centro da interpretação e, com isso (e o que interessa a este artigo), recuperam e desenvolvem em definitivo a Teologia da Nova Aliança. O americano Scott Hahn é, hoje em dia, sem dúvida, um dos grandes nomes dessa interpretação, seguindo os passos do Papa Bento XVI, que foi o grande expoente da exegese bíblica entre os principais nomes do ressourcement.

Sem transformar este artigo em um estudo ou comentário sobre tal instrumento interpretativo ou seus principais expoentes, me resta dizer sobre isso que a missa, desde suas primeiras celebrações, é um grande exemplo da validade do pensamento por trás da Teologia da Nova Aliança. Em cada missa, além do evangelho, nós lemos dois textos bíblicos. Um do Antigo Testamento, e um do Novo Testamento. A própria relação dessas leituras é uma prova da interpretação teológica antes citada. E isso nada tem de inovação, já que os primeiros cristãos já o faziam.

Nas leituras deste domingo, o Vigésimo-Primeiro do Tempo Comum, não pude deixar de ser não só tocado pelas palavras bíblicas, mas continuar meu assombro com a relação da aliança visível nas três leituras. Na primeira leitura, do Livro de Josué, os israelitas são questionados se irão abandonar o Senhor e adorar falsos deuses à sua escolha. A resposta é que apenas o Senhor realmente fez algo por eles, e por isso eles não o abandonarão. A segunda leitura (Ef 5, 21-32) fala do amor entre marido e mulher, e como eles devem agir e se respeitar em união eterna e amorosa. O próprio São Paulo diz que o entendimento deve ser teológico, uma alusão a Cristo e Sua Igreja. No Evangelho Segundo São João (Jo 6, 60-69), alguns cristãos, até alguns dos discípulos de Jesus (!) se mostram desconfortáveis com a simplicidade da Palavra. Simplicidade essa que hoje em dia é chamada por descendentes desses maus discípulos de “dogmatismo”, ou refletindo as palavras daqueles discípulos, “dureza”, ou mesmo a versão preferida dos relativistas, “condenações medievais”. Que isso vem diretamente de Cristo e não é medieval como a acusação fácil dos relativistas proclama não vem ao caso agora. Mas a idéia é a mesma para quem não quer viver sob o fardo da simplicidade do caminho para Deus. É simples, mas não é fácil. Na bíblia, Jesus sabe quem são os que vão desanimar, quem não tem fé, e quem está ali, na verdade, para fazer o mal. As palavras consideradas duras são uma escolha de vida que muitos não querem fazer. Se esquecem do enorme vazio que fica em suas vidas e não abrem mão dos vícios e hábitos desregrados que, como uma droga, apenas lhes dão mais uma dose para tentar esconder a solidão em suas almas. Basta um obstáculo desagradável para que voltem para o caminho fácil.

São Pedro nos mostra a resposta certa em Jo 6, 68. O que mostra claramente não só a razão da Teologia da Nova Aliança, mas, acima de tudo, mostra a evolução da Aliança de Deus com seus filhos. Antes os israelitas precisavam ser convencidos em várias ocasiões, por meio de milagres e benefícios, que deviam se manter fiéis a Deus, então entendido como um libertador físico e mantenedor da ordem que precisava constantemente mostrar sua força e a união com Israel. Mais tarde, a salvação (Jesus Cristo) se mostra para todos, sendo a antiga aliança com Israel válida e um exemplo para toda a humanidade.

A Aliança começa com o entendimento da possível salvação de todo o povo (fisicamente), passa pelo amor de Cristo por Sua Igreja como a base e o exemplo da Nova Aliança, terminando pela certeza de que Deus não é apenas um libertador do corpo, mas, principalmente, da alma. A resposta de São Pedro é a chave da nossa verdadeira libertação. O caminho é simples. Não é fácil! Muitos desistem. Muitos fazem como a raposa na fábula de Esopo, que, incapaz de alcançar as uvas, diz que elas devem ser ruins. Alguns até tentam, e nos fazem lembrar do que disse o grande G.K. Chesterton: ” O ideal Cristão não foi tentado e deixou a desejar. Ele foi considerado difícil; e então abandonado”.

As palavras de São Pedro no versículo citado acima? “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna“. A salvação não é em vida. É como um caminho que é simples em direção, mas difícil como um terreno pedregoso. Mas, em Cristo, é certa como a ressurreição provou. A recompensa, meus amigos, é infinita.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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