A aposta de Gamaliel

By | 6 de agosto de 2015

A Igreja Católica é também um fenômeno histórico que sempre intrigou os mais diversos historiadores. Nenhum historiador sério é capaz de não se espantar com as origens e, principalmente, com a incrível expansão da Igreja. As explicações são diversas, publicadas em centenas de livros. Um bom começo são os livros do grande Rodney Stark. Stark, hoje, é o que ele chama de “Cristão cultural”, embora durante a maior parte de suas publicações sobre a Igreja ele fosse abertamente agnóstico.

Jesus Cristo chegou a falar para algumas milhares de pessoas de uma só vez, mas eram pessoas que queriam saber quem Ele era, e o quê Ele dizia. Seguidores, discípulos, apenas poucos. A Bíblia nos fala de setenta seguidores diretos, sendo apenas doze os seus apóstolos diretos. Os outros são chamados de homens apostólicos, pessoas que seguiam Cristo, não estavam entre os doze, mas eram discípulos dos apóstolos ou seus ajudantes diretos. Mesmo esse pequeno grupo de amigos íntimos, seguidores fiéis, fugiu em disparada (com honrosas exceções, como São João) quando seu mestre foi preso e depois crucificado. Em outros artigos (http://papista.com.br/2015/04/03/aquele-que-voltou/ e outros) eu escrevi sobre os motivos do fortalecimento e transformação pessoal dos apóstolos, e como apenas a ressurreição pode explicar isso. Esse é o ponto de partida. A expansão parte daí, mas não pode ser explicada sociologicamente por isso.

Os primeiros cristãos foram impiedosamente massacrados. Dos doze apóstolos, apenas um não sofreu o martírio, São João. E é nessa proporção, ou pior, que os cristãos sobreviviam e o cristianismo se multiplicava. Essa tática não funcionou. A outra forma pensada foi a de deixar eles falarem, e o que era considerado perigoso e desleal ao Imperador pelos romanos, e demoníaco pelos judeus, derrubaria os cristãos por si só. Os judeus não os escutariam, ou pior, os matariam, e os romanos a mesma coisa. E os demais povos estavam ou sob o domínio romano, ou tinham seus próprios deuses e preocupações demais para prestar atenção em alguns homens com um discurso novo, algo que contrariava tanto o paganismo grego quanto o árabe. Um dos sinais dessa tática está registrada na Bíblia, nos Atos dos Apóstolos (At 5, 34-39), quando Gamaliel – um dos membros-chave do Sinédrio (grupo dos líderes religiosos judeus) e provável mestre de São Paulo antes da conversão dos dois – intercede pela vida dos apóstolos dizendo que seria preferível deixá-los livres para propagar sua doutrina. Segundo Gamaliel, se a doutrina fosse dos homens, se destruiria sozinha. Se fosse realmente divina, prosperaria e nada nem ninguém poderia destruí-la.

Antes de qualquer conclusão teológica, devemos nos ater ao fato de que não havia razão para acreditar que essa tática não funcionaria. Toda hora surgia alguém pregando ser o messias e conseguia seguidores e fama. Todas essas seitas desapareceram. Porém, antes de desaparecer, todas tiveram novos profetas para substituir o falecido. Sempre havia um novo (falso) messias, e seu sucessor, que seria o “verdadeiro” messias. Até que seus seguidores se cansavam e desistiam. A idéia de deixar essas pessoas falarem não era uma novidade. A diferença está no fato de que o cristianismo é personalíssimo, ou seja, a salvação não está em se fazer algo, mas a salvação é Cristo! Tudo mudou com isso. O cristianismo jamais teve outra pessoa prometendo ser um novo cristo.

Outro fato que deve ser observado é que o cristianismo era divulgado de forma ordenada, supervisionada, e pessoal. Era passado entre pequenas comunidades, e formando pequenos grupos diretamente supervisionados pelos apóstolos ou seus sucessores por eles instituídos. A doutrina era supervisionada para que nada fosse adulterado, e erros eram corrigidos. As epístolas bíblicas são exemplos disso. Tudo isso mostra que a organização e a hierarquia já existiam e tinham um caráter visível. Acima de tudo, havia uma autoridade incontestável, um magistério. A conclusão é óbvia, a Igreja Católica já existia e é dela a autoridade transmitida por Cristo. É esse cuidado e autoridade que permitem uma transmissão inequívoca da Palavra de Deus, e facilitaram demais o crescimento do cristianismo.

Rodney Stark destaca muitos outros elementos, mas é importante salientar o tratamento dado à mulher pelo cristianismo, algo totalmente novo, como eu cito em meu artigo “Santa Perpétua, as Mães da Igreja e o papel da mulher no Catolicismo” (http://papista.com.br/2015/02/11/santa-perpetua-as-maes-da-igreja-e-o-papel-da-mulher-no-catolicismo/ ). A enorme ignorância do feminismo a serviço do modernismo é fazer com que tantas mulheres ignorem o fato de que a Igreja foi a maior libertadora, defensora e apoiadora da mulher na história. E esse fato é fundamental para se entender o crescimento do cristianismo. A mulher, elevada ao respeito das grandes pensadoras da Igreja; das grandes santas; de líderes de comunidades; formadoras de ordens religiosas, e muito mais, abre um espaço antes nunca visto no mundo. Não só as mulheres agora têm um lugar de destaque na vida religiosa, como elas dialogam e inspiram sua família. E quando isso não era escondido ou distorcido completamente como é hoje, era exaltado por diversos pensadores pré-iluministas.

A aposta de Gamaliel foi clara e decisiva. Não havia razão para que sua tática, assim como o contrário, a da violência, não funcionasse. As duas são tentadas até hoje. Se por um lado tentam ignorar; distorcer; rotular a Igreja de obscurantista e toda a sua riqueza e legado para o mundo ser ignorado mesmo pelos que deles se aproveitam, como universitários; por outro perseguem e massacram cristãos até hoje pelo mundo. Esse mesmo massacre é tratado com silêncio criminoso, indigno de um mundo que finge exatamente se indignar até com a morte de animais peçonhentos ou com a pobreza que ele descobre pela televisão. São populações cristãs inteiras sendo massacradas sob o silêncio cúmplice do “beautiful people” do mundo. Cristãos que valem hoje o mesmo que bebês no útero: nada! Porém, essas duas coisas não funcionaram antes, e não funcionarão agora. Porque Gamaliel estava certo. A Igreja foi estabelecida por Deus. Sendo assim, podem tentar o que quiserem. Ainda existirão mártires e santos para mantê-la e levar a Palavra de Deus. Os segundos citados, os santos, estão em risco num mundo que se esforça para impedir seu surgimento. Mas São João Paulo II nos lembrou que é possível achá-los entre os que não tem voz. São Josemaría Escrivá nos mostrou que é possível santificar a ação que parece mais insignificante do dia-a-dia.

É a hora dos santos de Deus levantarem a mão entre a multidão como fizeram no passado e inspirar tantos outros. É a hora de mostrar que Gamaliel estava certo. Tão certo que assim como um de seus alunos, São Paulo, se converteu ao cristianismo porque acreditava naquilo que ele tentou – e não conseguiu – provar que era uma mentira. Uma antiga tradição, embora questionada, indica que Gamaliel deu seu exemplo e ainda em tempo levantou a mão no meio da multidão, tendo se batizado e aceitado Cristo como seu salvador e, com isso, reconhecido como santo pela Igreja primitiva. É a nossa vez de levantar a mão e buscar a santidade como exemplo. Não é fácil, mas tem que ser feito. Pelo bem da Santa Igreja e salvação de todos em Cristo.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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