Apologética – “Pope Fiction”: os mitos sobre o papado.

By | 27 de julho de 2015

O papado não é uma instituição humana, hierárquica, centralizadora e de caráter apenas organizacional. É um sinal visível da promessa de Cristo sobre a Igreja e como ela deve ser vista por todos, e facilmente reconhecida. Isso implica que a Igreja Católica, e apenas ela, tenha uma estrutura distinta e reconhecível em sua simplicidade, com o papa como o farol que torna fácil localizá-la. Além disso, o papa é a rocha sobre a qual Cristo ergueu sua Igreja: “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. ” (Mt 16,18). O papado é essa sucessão visível, clara, e estabelecida por Cristo como guia da sua Igreja; uma pessoa que tem como responsabilidade cuidar da Palavra de Deus, manter seu povo unido em torno da Palavra, e não permitir corrupção dos ensinamentos de Cristo. Entre outras coisas, é claro.

O papado é sempre alvo de ataques e controvérsias. Seja pelos atos ruins de alguns papas no passado, como pela má interpretação bíblica de não-católicos, seja ela proposital ou não. É exatamente para evitar esses erros que eu escrevo este artigo. O nome, “Pope Fiction”, vem de um livro especialíssimo do já citado apologista Patrick Madrid, para quem eu dedico e agradeço esse humilde artigo. O livro é base para um estudo mais completo sobre o tema, que pode ser feito facilmente, já que não há problema de ausência de publicações sobre o papado. O formato de pergunta e resposta permanece, e eu espero que as informações aqui contidas ajudem os católicos a defender a sua fé e sua Igreja com fatos e caridade, e que os não católicos possam dissipar a névoa de incertezas e mentiras contra o papado, e venham para a Santa Igreja. Vamos lá!

O papado não é bíblico. É uma instituição criada pelo homem, e nós não deveríamos cultuar o papa, um homem como eu ou você“.

Vamos por partes. Em primeiro e mais importante lugar, o papado é bíblico. Mt 16, 17-19 é bastante claro nesse ponto. Na verdade, é até curioso que muitos protestantes tentem distorcer o que essa passagem quer dizer de forma tão explícita. Ou seja, o papado não é algo criado pelo homem. É criado por Deus na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo. O homem apenas cumpre sua missão mantendo o papado. E nenhum católico cultua o papa, ou pelo menos não deveria fazê-lo. Porém, o papa é uma pessoa de enorme importância, e uma figura querida por todos os católicos. As pessoas querem o melhor para ele, rezam por ele, e espera que ele faça seu trabalho como guardião da Igreja. É absolutamente fundamental rezar pelo papa, e querer o seu bem, e um bom trabalho. O que ele faz se reflete na Igreja, de uma forma ou de outra. Se ele falhar, a Igreja como um todo sofre com isso. Ainda que nem o pior papa jamais conseguiu ruir a Igreja, conforme Cristo nos prometeu.

Cristo disse que Pedro era uma rocha, não ‘A ROCHA’. Pedro é Petros em grego, e a palavra usada para a rocha é petra, uma simples pedra, e no feminino, o que mostra que ele não falava de Pedro como a rocha, mas como uma rocha. Apenas um exemplo.

Petra é apenas uma modificação estilística da palavra, e não muda o sentido como se pensa. Mas o que realmente importa é que Cristo não falava grego, mas sim aramaico! Em aramaico, a palavra é transliterada como Kepha, ou Cephas, e em qualquer tradução da bíblia que valha alguma coisa, Pedro é constantemente chamado por Cristo de Céfas (Jo 1,42 por exemplo), seu nome em aramaico traduzido para o português. Em aramaico, a palavra seria sempre a mesma, e a frase seria algo como “Tu és Kepha, e sobre esta Kepha eu edificarei a minha Igreja…”. O que não deixa nenhuma dúvida sobre o que Cristo queria dizer.

É importante ainda notar as circunstâncias em que Cristo diz isso a Simão Pedro. Jesus leva seus apóstolos para Cesaréia de Filipe. O lugar tinha esse nome porque o então tetrarca Herodes Filipe reformou parte do local e a presenteou a César (César Augusto, na época). O local, então, passou a ser chamado de Cesaréia de Filipe, uma homenagem aos dois sujeitos, com um monumento a César como ponto central. Mas é curioso constatar que antes de Herodes tomar conta do lugar, lá havia um monumento ao deus grego Pan, e o local se chamava ‘Panias’ (também escrito Banias ou Paneas). O tetrarca havia retirado o falso deus Pan e colocado outro falso deus no lugar, César, para ganhar as graças do imperador. É nesse local que Cristo pergunta aos discípulos “quem dizeis que eu sou?” (Mt 16, 15). Ou seja, Cristo sabia que os apóstolos entenderiam o que ele queria dizer estando naquele local. Não era Pan ou César. Não era a um falso deus que os homens deveriam entregar suas vidas, porque Ele, Jesus Cristo, é o Senhor! E a Sua Igreja não teria um monumento como ponto mais visível, mas uma pessoa! Não seria um monumento em uma rocha, mas Pedro seria a rocha! E com isso Cristo completa dizendo: “eu lhe darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt 16, 19)

Estranho. Meu pastor nunca me disse isso. Ele sempre disse que a Igreja Católica e o papado são invenções humanas, e de muitos séculos depois“.

Ele está enganado, ou enganando. Esse tipo de boato é repetido tantas vezes que parece verdade para muitas pessoas. Porém, o papado, com sua autoridade petrina, é bem registrado na bíblia e pelos primeiros cristãos. Até mesmo por não cristãos da época. Taciano, o Assírio (discípulo de São Justino Mártir), por exemplo, em seu Diatessarão, ainda no século II fala sobre Pedro e a criação do Papado, seguindo os ensinamentos de seu mentor. São Justino nasceu no século I, e deu o nome aos evangelhos colocados em um livro como “As Memórias dos Apóstolos”, o primeiro nome do Novo Testamento. Não só Justino e Taciano confirmam as origens católicas da organização e preservação bíblica, como também o papado. Além deles, muitos outros da era Patrística. Tertuliano, Clemente de Roma, Orígenes e chegando até Santo Agostinho, que foi um dos primeiros a esclarecer o papado e a sucessão petrina, fazendo a lista dos papas, de Pedro até o seu tempo, ainda no século V. Ou seja, a promessa de Cristo estava cumprida, a sucessão petrina seria clara e um sinal de união da Igreja Católica. Sucessão inquebrada e visível a todos os que quisessem vê-la. Nenhum concílio ou grupo inventou a Igreja ou a sucessão petrina. Ela é verificável desde a Bíblia e bem documentada em todos os anos desde então.

Mas muitos papas foram pessoas ruins. Isso não é uma prova de que o papado não é algo de Deus?

No mesmo capítulo em que Jesus institui o papado Ele nos mostra as duas facetas da Igreja e da sucessão petrina. Ela é divina, mas também é humana. Cristo dá as chaves dos céus para Pedro, mas também lhe dá uma bronca por uma atitude provocada por um sentimento humano que, por mais que fosse bem intencionado, não era o desejo de Deus. Nesse momento Deus nos mostra que, sim, o papado existe e tem a autoridade dada por Ele. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja e o trono de Pedro estão ocupados por homens. Pessoas normais, que podem ser santos ou maus, que podem ter grandes momentos, mas também podem ter maus momentos. A questão aí é diferenciar as duas coisas. Ao final, é exatamente o que parece ser a fraqueza do papado que se mostrará a sua força.

Como eu disse no último artigo, em Mt 7, 25, Nosso Senhor Jesus Cristo nos diz: “Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos, e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada sobre a ROCHA“. Pedro é a rocha, e mesmo que ela seja atacada, tanto de fora como de dentro, Cristo a protege e a mantém imune até mesmo contra seus ocupantes ruins. Como eu comentei no artigo, é de se espantar que todos esses ocupantes ruins jamais tenham conseguido destruir a Igreja, nem mesmo fazer algo que pareceria pequeno aos que vêem de fora, como modificar doutrinas. É exatamente porque a Igreja não se vê como autora de suas doutrinas, mas apenas como protetora, mantenedora do que foi dado por Cristo.

Não podemos fugir dos fatos, da história, ou tratar homens absolutamente repugnantes que tivemos sentados no Trono de Pedro como se eles nunca tivessem existido. Eles existiram, e é preciso ser claros quanto a isso. Mas precisamos entender o que a promessa de Cristo tem a ver com isso. Tivemos papas, como Estêvão VI (896-897d.C) que desenterraram antecessores (no caso, Papa Formoso. Sim, tivemos um papa chamado “Formoso”…) para colocar seu corpo decomposto numa espécie de julgamento, em que o cadáver foi condenado e “punido”. Ficou conhecido como o Synodus Horrenda (ou o Sínodo do Cadáver). Foi uma época extremamente difícil para a Igreja, com as poderosas famílias romanas escolhendo politicamente os papas e os retirando quando era conveniente, e por força. Além de ser a era da confusão na sucessão por causa dos anti-papas, pessoas que eram escolhidas pelas poderosas famílias romanas, muitas vezes sem participação do clero. Algumas vezes eram escolhidos com um papa legítimo ainda vivo, e sua autoridade era imposta pela nobreza. O povo ficava sem saber quem era o papa legítimo, e foi preciso que a Igreja esclarecesse depois a sucessão legítima, com os falsos papas sendo chamados de ‘anti-papas’. Mas não confunda, ‘anti-papas’ eram papas escolhidos ilegitimamente, não papas que desagradaram a Igreja e assim foram chamados depois. Tivemos papas legítimos terríveis, como o citado Estêvão VI.

O que importa aqui é que mesmo gente como os papas mais terríveis da história jamais alteraram doutrina, brincaram com dogma, ou arruinaram a Igreja. E isso é digno de nota e espanto. Nem os inimigos internos ou externos da Igreja conseguiram destruí-la ou deturpar uma vírgula da doutrina. E para cada papa ruim, tivemos 20 bons ou mesmo santos de enorme valor para a Igreja e o mundo.

Eu li que Paulo era mais importante que Pedro na Igreja, chegando até a corrigir Pedro. Isso mostra que Pedro não era um papa, um líder da Igreja, e que é legítimo discordar do papa“.

Papas falam sobre muitas coisas. São humanos. Eles falam sobre coisas pessoais, e sobre assuntos da Igreja. Eles falam sobre teologia e doutrina, mas também falam de sua opinião sobre política ou mesmo futebol. Se o papa é torcedor de tal time, nenhum fiel, que eu saiba, largou seu próprio time do coração por isso. Nem o papa condenou as torcidas adversárias. E se tivesse, não haveria problema em corrigir Sua Santidade e lhe dizer que isso está além de sua missão, que é um ato terrível e, no final das contas, nulo. A autoridade do papa existe para seus pronunciamentos doutrinários, sua organização da Igreja etc. Mas o ponto aqui é sua posição magisterial. Principalmente, falamos da já famosa “infalibilidade papal”. O que muitos não entendem, e alguns passam adiante má informação, é o significado real da infalibilidade papal. Falam de dogmas, as decisões ex-cathedra (decisões tomadas com a autoridade do Trono de Pedro). Quando o papa, em exercício de sua missão como pastor e professor dos cristãos, dentro dos limites de sua autoridade apostólica como sucessor de Pedro, define doutrinas sobre fé e moral. Ou seja, apenas decisões dentro desses limites, e tomadas com o devido cuidado e estudo, fazem parte da chamada “infalibilidade papal”. Nesses limites, revestido pela promessa de Cristo, o Santo Padre anuncia o que deve ser facilmente observado pelos cristãos pelo bom senso e amor filial a Deus e sua Igreja.

Dito isso, examinemos o exemplo citado. Especificamente a carta aos Gálatas (Gl 2, 11-16), em que São Paulo escreve como chamou a atenção de Pedro na frente de todos, corrigindo-o. Porém, São Paulo corrige uma atitude humana de Pedro, e não sua doutrina. E jamais deixa de reconhecer sua autoridade. Aliás, um pouco antes ele chama Pedro, João e Tiago de “os pilares da Igreja”. É preciso entender que a Igreja, naquele momento, lutava para levar a Palavra de Deus tanto aos judeus quanto para os pagãos. Alguns apóstolos pregavam entre um grupo, e outros, para outros. Encontros como o descrito na epístola aos Gálatas, com judeus e pagãos convertidos juntos, eram certamente tensos e momentos críticos para a Igreja. Ao ver Pedro se sentar apenas com os judeus quando estes chegam, Paulo chama a sua atenção para o fato de Pedro pregar o cristianismo, mas se deixar levar pelas práticas mosaicas à mesa com os judeus, algo que, para o cristianismo, já não se fazia necessário depois de Cristo. Fazer concessões aos judeus da época, mesmo com boas intenções, era passar uma mensagem ruim aos pagãos, e Cristo veio para todos.

São Jerônimo, o grande historiador da Igreja nos primeiros séculos, dizia abertamente que nem deveria ser levada ao pé da letra essa parta da carta aos Gálatas, e que sua informação vem direto dos Pais da Igreja. Sendo Jerônimo de meados do século IV, e falacendo no começo do século V, sua informação é uma tradição que vem diretamente dos apóstolos e seus discípulos. Ele deixa claro que nenhum apóstolo ou discípulo jamais teve dúvida sobre a autoridade petrina, ou mesmo que essa passagem foi considerada como um ataque à tal autoridade. Isso pode ser facilmente visto nos Atos dos Apóstolos, em que Pedro preside a assembléia (At 1, 15-26), condena com a autoridade descrita por Cristo (At 5, 1-11), o novo batismo (At 11, 1-18) e muito mais. Paulo por várias vezes indica a autoridade petrina quando diz ter ido a Pedro para confirmar sua versão do evangelho, e recebido dele e dos apóstolos a benção para pregá-lo. Isso tudo apenas confirma a autoridade petrina e sucessão dos apóstolos. Enfim, Paulo jamais contrariou a autoridade petrina, e nem Pedro jamais teve sua atenção chamada por erros doutrinais. Como todo papa, ele pode ter sua atenção chamada por erros de postura humana. Algo que a Igreja jamais questionou. Graças a Deus, teve poucas ocasiões de necessidade para fazê-lo.

Lembre-se a Igreja é de Pedro e Paulo, e não um contra o outro, nem um ‘ou’ outro.

Concluo dizendo que existem centenas de mitos sobre o papado, sobre os papas, sobre a Igreja católica, dogmas, infalibilidade etc. Mas nenhum desses é algo além de um mito. Um mito que pode ser derrubado com um pouco de história, alguma teologia, muito estudo de tudo isso, alguma leitura comentada da Bíblia, muita leitura da Bíblia, e oração. O papado é o que Deus disse que seria. Uma rocha. Um homem, um pecador, revestido de autoridade e protegido contra erros quando declara oficialmente sobre moral e fé. Mas ainda um pecador. Com tudo isso, nem seus maiores pecados, nem os piores ataques contra sua cátedra, podem derrubar aquilo que Deus prometeu, e cumpriu, que permaneceria firme e visível para todos.

Quem sabe eu ainda volte para escrever mais sobre o tema. Sei que ele vai sempre aparecer em um artigo ou outro, mas talvez o assunto mereça mais informação e curiosidades.

Mande suas dúvidas, seus comentários. Quem sabe pode ser útil para mais artigos.

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria, e com carinho filial ao papado,

um Papista.

2 thoughts on “Apologética – “Pope Fiction”: os mitos sobre o papado.

  1. Ernandes Pereira

    Pelo amor de Jesus. Onde foi que Jesus Intituiu papado ou catolicismo aqui neste planeta oh Inteligente, para não dizer analfabeto teológico. Para de fundamentar em falsas bases e pilares religiosos “Cristãos”. Tanta mentirada, heresia, assassinato, pedofilia, homossexualismo,mercenarismo, Idolatria e outros piores.
    Catolicos. VCs lê Bíblia? Ja leram Isaías? Leiam e reflitam somente no livro que escreveu este profeta, possas ser que assim vcs se convertam. Pelo amor de Deus. Amoleçam vosso coração para que conheçam a boa e agradavel vontade do Senhor para sua salvação meus amados. Pare de ficar preso a tradição mentirosa. e mentira e muita mentirada pelo amor de Jesus, abram seus olhos. O Unico Pai e O deus de Abraão de isac e jacó. Papa quer dizer pai. Pai de quem? Meu tenho certeza de que não é. E Conhecereis a verdade e ela vos libertará. Sai das trevas e venham para a luz. O fim está proximo. Não deixem para querer viver a verdade quando ele voltar. Não terá mais sentido o seu arrependimento. Convertam-se agora. Jesus está te esperando. Saiam desta geladeira e venham para o fogo do Espírito Santo Amém. A Paz do Senhor. Saiam do estado de criatura e venham ser filho. AMEM ou Nâo AMEM?

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    1. Papista Post author

      Olá, Ernandes. Os argumentos bíblicos, teológicos e históricos estão no artigo. Se você quiser debater, ou tiver algo para refutá-los, fique à vontade. Ficaria feliz em conversar. Mas apenas seus ataques pessoais, ausência de argumentos e, francamente, um “pití”, me diz que você não tem nada a não ser fanatismo cego. Convido você a reler o artigo e a estudar os pontos citados. Se tiver o coração aberto para a verdade, como o Cristianismo demanda, você pode encontrar a Verdade, que está na Igreja fundada por Cristo em seu sinal visível na Terra, o Papado. Fique com Deus e abraços!

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