Apologética – parte 5 – Perguntas e respostas sobre cristianismo e a Bíblia.

By | 10 de junho de 2015

Como programado, seguimos em frente tentando dissipar núvens de dúvidas e erros sobre o cristianismo e a Bíblia Sagrada. Dessa vez, de uma forma mais dinâmica.

Perguntas e respostas.

– “Como eu posso acreditar na Bíblia, em especial no Novo Testamento (NT), se os evangelhos foram escritos séculos depois de Cristo, por pessoas que apenas colocaram nomes iguais aos apóstolos?

Essa pergunta, infelizmente, é normal. Me lembro de ter ouvido isso ainda na infância, entre as crianças. O que indica que é o tipo de desinformação espalhada propositalmente. Não sei bem aonde a pessoa pega sua informação. O mais provável é que não tenha mesmo nenhuma informação, e espalhe desinformação acreditando que ninguém jamais vai estudar para saber a verdade. E, francamente, é isso que muitos fazem. Apenas repetem sem nunca procurar saber.

Os evangelhos foram escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João. Dois eram apóstolos de Cristo, e dois era “homens apostólicos”, ou seja, estavam entre os seguidores de Cristo, mas não entre os doze apóstolos. Mateus e João eram apóstolos, enquanto Marcos era discípulo de São Pedro, o líder dos apóstolos, e Lucas era discípulo de São Paulo. Paulo de Tarso merece livros inteiros sobre ele, mas vale citar que Paulo se chamava Saulo, e era um fariseu a serviço dos Romanos. Um perseguidor de cristãos entre os mais temidos. Após Cristo aparecer especificamente para ele após sua ressurreição, Saulo se torna Paulo, o grande apóstolo, escritor e pregador. Um dos principais responsáveis pela propagação do cristianismo.

Os evangelhos estão na Bíblia na ordem em que foram escritos. Desde o começo do século XX existe a hipótese de que, na verdade, Marcos teria sido o primeiro evangelho (Prioridade de Marcos). Mas essa hipótese, embora faça sentido, carece de outra fonte, chamada “Q”, que jamais foi confirmada, apenas encaixava na teoria. Essa hipótese tem sido deixada de lado em favor do antigo e mais ortodoxo entendimento, da ordem de disposição na Bíblia ser a ordem cronológica dos escritos. Mateus teria sido escrito entre o ano 55 e 65d.C, e os outros dois evangelhos sinóticos até meados da década de 70 do século I. Alguns pesquisadores colocam as datas até a década de 80d.C. João teria escrito seu evangelho entre 85 e 95, possivelmente nos primeiros anos da década de 90d.C, segundo o consenso. Porém, na verdade, essa data é muito mais uma data de “publicação” do que de escrita. Como não há paralelo exato para o que se entende hoje como publicação, o entendimento disso é difícil. O fato é que esses evangelhos já estavam prontos muito antes. Em suas cartas, Paulo nos conta que em uma de suas visitas aos apóstolos, encontra Pedro, Tiago e João em Jerusalém. Paulo conta como mostrou seu evangelho, o que pode se entender como sua versão dos fatos, ou até mesmo uma versão do que seria depois o evangelho segundo Lucas, seu discípulo. O fato é que isso se passa aproximadamente entre 35 e 40d.C., alguns anos após a morte e ressurreição de Cristo, e da conversão de Paulo em 35d.C. Isso significa que os evangelhos já vinham sendo escritos e checados pela comunidade cristã. Em especial, passava pelo crivo de suas principais testemunhas. Além de provar um ponto que eu voltarei a citar mais tarde, a primazia de Pedro como líder dos apóstolos. De qualquer forma, a data dos evangelhos é muito próxima dos fatos. Seus autores eram apóstolos, e suas testemunhas estavam vivas caso fosse preciso dizer que havia erros na publicação. João, o único apóstolo a não sofrer o martírio, e último discípulo vivo a ter convivido com Cristo, morre no ano 100d.C. É um dos motivos pelo qual nenhum livro do Novo Testamento é de depois de 100d.C. É falsa a ideiá de que os evangelhos são tardios e sem ligação com Cristo ou os apóstolos. Eles foram escritos por apóstolos e discípulos dos apóstolos, e foram rigorosamente checados pela comunidade cristã, incluindo as testemunhas diretas, os apóstolos, com autoridade para tal.

– “Mas e a falta dos originais? Isso não invalida tudo?

Só se você não souber como é aceito algo dentro da pesquisa histórica. Existem poucos livros da antiguidade com tamanho rigor em sua composição. Existem diversos livros da antiguidade, estudados e publicados sem tanta desconfiança de sua autoria e data, que não podem ser comprovados da mesma forma. Veja a “Ilíada”, de Homero, por exemplo. O exemplar mais próximo de sua autoria é de 1000 anos depois da mesma. A cópia de um escrito de Platão mais antiga que se pode encontrar hoje é de 890d.C. Sendo que Platão morreu em 347a.C. Ou seja, o manuscrito mais antigo de um escrito de Platão é de aprox. 1200 anos depois de sua autoria. No entanto, ninguém questiona esse ou outros livros ou autores. Por outro lado, existem milhares de fragmentos de cópias do NT ainda do Século I. Nem precisamos ir tão longe. Manuscritos ou originais são difíceis e nem sempre são encontrados em qualquer época. Existem discussões sobre originais de obras mais obscuras de Machado de Assis, como, por exemplo, de traduções, ou algumas de suas peças. Algumas delas viram a luz do dia em novas publicações. Outras, menos pela falta de originais, mas principalmente por não haver cópias com autenticidade garantida, não tiveram a mesma sorte, e quem viu, viu.

Quanto ao “efeito telefone sem fio”, como eu já disse antes, é um entendimento errado da transmissão de cultura na época, ainda mais numa comunidade judaica. Se o rigor da transmissão oral era incrível, o rigor sobre o ato de se copiar textos sagrados então, nem se fala. Era a vida dessas comunidades. Era um processo de auto-correção feito pela comunidade. Se você tem tantos fragmentos ou testemunhos da época, é impossível duvidar de sua autenticidade ou exatidão comparado ao original. Não sem questionar antes quase toda obra da antiguidade.

– “Como pode a Bíblia ser válida, tratada até mesmo como inspirada por Deus, se os cristãos só tiveram o cânon da Bíblia decidido no século IV, e pelas mãos de um pagão, o Imperador Constantino?

Se existe um boato que foi repetido tantas vezes que se popularizou, foi esse. No rentável livro (e filme) “O Código Da Vinci” essa história foi mais uma vez contada e voltou à tona. O problema é que ela não tem nem pé nem cabeça. A grande questão é entender que desde o seu início, o cristianismo combateu heresias e distorções. Em especial, a ascenção do gnosticismo. Já nas páginas dos últimos livros da Bíblia você encontra avisos sobre distorções que começavam a aparecer. Eram embriões da gnose, com a mistura de um neo-platonismo com má interpretações do cristianismo. Já em meados do século II, a coisa foge de controle. Seitas gnósticas se multiplicam, e todo tipo de maluquice foi dita ou escrita. Além de caronistas escrevendo falsos evangelhos ou demais livros com distorções. Nem tudo era gnóstico, mas os dois tipos de literatura, especialmente quando se fingiam cristãs, eram falsos e errados. Infelizmente, alguns desses escritos começaram a chegar em certas comunidades. Com a demora e dificuldade de comunicação, algumas vezes esses escritos se enraizavam e chegavam a ganhar força entre os livros legítimos. Com o começo do monasticismo, alguns desses manuscritos chegaram a ter espaço em mosteiros e foram copiados e repassados. Mas uma coisa tem que ser clara. O cânon, a lista dos livros que compunham o Novo Testamento jamais mudou! Como dito antes, o cânon foi fechado por volta do ano 100d.C., e jamais chegou a ser cogitada qualquer mudança. Existiu foi uma dúvida em certas comunidades sobre algum desses escritos ter sido aceito no cânon. Mas o magistério, e essa é a importância do Magistério da Igreja, jamais modificou o cânon.

Em 325, é convocado o Concílio de Niceia. Porém, ao contrário do que é dito, o cânon não foi discutido em Niceia. O problema principal era a heresia do Arianismo, que havia ganhado algum terreno, e pregava que Jesus não era Deus, mas uma criatura de Deus, ainda que divina. O que é contrário ao entendimento de sempre da Igreja, de que Jesus é Deus, e não uma criatura de Deus. Assim como nada sobre o cânon foi discutido, Constantino também não se meteu em teologia, como era esperado. Enfim, o cânon foi ratificado diversas vezes durante os mais diferentes ataques, e é importante distinguir isso. A Igreja pode ter ratificado o cânon existente em várias ocasiões, mas foi apenas isso. Ela jamais alterou, emendou, ou retificou o cânon. Apenas, em mais de uma ocasião, confirmou o que é imutável.

– “Mas e São Jerônimo? Ele não queria uma versão diferente da composição da Bíblia? Ele não é uma autoridade da Igreja para isso? Isso não mostra dúvidas sobre a composição do Novo Testamento?

Aqui nós temos várias confusões. São Jerônimo foi o grande linguista que nos deu a “Vulgata”, a bíblia em latim, usada até hoje pela Igreja, ainda que em menor escala. Ele, sem dúvida, foi uma autoridade sobre os problemas linguísticos e históricos para a tradução e arrumação da Bíblia, mas ele jamais questionou o NT. São Jerônimo questionava a presença dos últimos livros do Antigo Testamento (os Deuterocanônicos) na versão Católica da Bíblia, ao contrário da versão judaica e o que seria, séculos depois, a versão protestante. Mas aqui há outro fato que foge de quem joga esse argumento: Jerônimo tinha uma posição pessoal! Para ele, esses livros, como Judite, Tobias, Macabeus etc, não deveriam estar no AT. Mas ele jamais questionou o Magistério. Ao contrário, Jerônimo entendia perfeitamente que sua opinião não era verdade absoluta, e como bom filho da Igreja, não só aceitava a decisão do Magistério, como a defendia. Aliás, Jerônimo deixou bastante claro em escritos seu estudo da Septuaginta (versão em grego koiné do AT, e provável versão utilizada e estudada por Cristo e seus apóstolos, que continha os livros deuterocanônicos), e trechos considerados por ele como fundamentais mesmo para se explicar as citações usadas pelos apóstolos no NT.

Fica claro que, em primeiro lugar, Jerônimo jamais questionou o Novo Testamento, seu cânon, e seu profundo estudo apenas confirmava sua historicidade e autenticidade. O que Jerônimo questionava era parte do Antigo Testamento, pela dificuldade de conciliar diferentes fontes e aprovar sua historicidade por si só. Mas, mesmo assim, ele aceitou a decisão do Magistério, que se baseava em vários outros especialistas além dele. Incluindo Santo Agostinho.

– “OK, Cristo existiu; sua fonte primária de estudo, a Bíblia, é fonte confiável etc. Mas por que é mais do que um livro histórico sobre um grande homem e o movimento criado por ele? Por que eu deveria acreditar que ele é Deus, e que a Bíblia é um livro sagrado, inspirado por Deus?

A resposta é tão teológica quanto histórica. Sob qualquer ângulo, ela recai sobre a ressurreição! Sem a ressurreição de Cristo, os próprios apóstolos já diziam: “Se Cristo não ressuscitou, é vã nossa pregação, e também é vã a nossa fé” (1 Cor 15,14). Os próprios apóstolos estabeleceram o critério pelo qual o cristianismo deve ser testado e posto à prova. Sem a ressurreição, o cristianismo é apenas mais uma seita. Com um pregador que fala coisas bonitas; um homem santo; um exemplo para o mundo. Mas apenas isso não basta! C.S. Lewis disse muito bem sobre isso no que hoje é conhecido como “o Trilema de Lewis”, em seu famoso livro “Mere Christianity” (aqui lançado como “Cristianismo Puro e Simples”):

Um homem que fosse meramente um homem, e dissesse o tipo de coisa que Jesus disse, não seria um grande mestre da moral. Ou ele era um lunático, do tipo que diz ser um ovo poché, ou era o demônio. Você deve escolher. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou é um louco, ou coisa pior. Você pode calá-lo como a um idiota; você pode cuspir nele, e matá-lo como um demônio; ou você pode cair aos seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não me venha com essa bobagem condescendente de que ele é um grande mestre moral. Ele não nos deixou essa possibilidade. Ele não tinha essa intenção.” – C.S. Lewis

Qualquer fonte histórica vai apontar para a verdade da ressurreição. Teologicamente, é uma questão de fé. Sob qualquer ângulo, é uma questão de fé. Mas uma fé com todos os dados históricos e riqueza de fatos, como demonstrados nos últimos artigos. Racional acima de qualquer dúvida! Mas nada disso tira a sua liberdade de escolha. Mas se ela for realmente racional, de quem quer seguir os fatos e entender quem Ele disse e provou ser (e foi o único que deixou o desafio), veja o que é que realmente te impede de fazer o que C.S. Lewis diz. Cabeça dura? Empirismo desproporcional? Pode ser vergonha de dizer em um grupo de que você agora é um cristão? Eu sei! Não é fácil! Pode custar risos e menos convites entre os “iluminados” modernos. Mas, por outro lado, pode te custar muito mais se for verdade. É a “Aposta de Pascal”. A escolha é sua!

em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista

2 thoughts on “Apologética – parte 5 – Perguntas e respostas sobre cristianismo e a Bíblia.

    1. Papista Post author

      Obrigado, Sandra. Eu colaboro com alguns sites, mas este aqui só tem textos meus mesmo. Pela Graça de Deus e de Sua Santa Igreja.

      Fique com Deus.

      Abraços,

      um Papista.

      Reply

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