A confissão.

By | 26 de Março de 2015

           O que é a confissão? Por que eu devo me confessar? E eu me confesso para um padre? O padre perdoa pecados? Quem precisa disso?

Essas são algumas das mais frequentes perguntas sobre a confissão. As mais comuns talvez eu possa responder, mas algumas são incomuns ou necessitam mais do que um simples artigo pode explicar. Existem livros inteiros sobre os sacramentos, além de palestras e debates apenas para isso. Vou tentar responder as mais comuns. Poderia simplesmente escrever aqui: “leia o catecismo da Igreja”, mas como mesmo muitos católicos não o fazem, nem para consultar no momento de dúvida, vou tentar resumir até mesmo o que o catecismo escreve. Deixando claro que todos deveriam ler e sempre consultar o catecismo. Sobre a confissão, leiam a Segunda Seção, a partir do número 1420 no Catecismo da Igreja Católica (CIC). Eu aqui ajudo como posso.

A confissão é um sacramento da Igreja. Um sacramento é o mistério do poder de Deus em ação, através de Cristo e sua Igreja, em práticas por Ele instituídas. Todo sacramento se encontra nas ações de Cristo descritas na Bíblia, e é um sinal visível da Graça de Deus. Entre eles, a confissão. O nome correto é “sacramento da penitência e reconciliação”, e confissão é uma das qualidades do sacramento.

Suas qualidades são:

– a conversão, já que todos precisamos resolver largar o pecado e daí proceder para dele se afastar e, assim, se aproximar de Deus;

– a penitência, porque demonstra arrependimento e vontade de aceitar o fardo dos seus erros, e com isso mudar;

– a confissão, pois é o ato de assumir e, com sinceridade, colocar isso em palavras para a ação da Glória de Deus;

– o perdão, porque Deus a tudo perdoa se a pessoa assim buscar. Como disse Corrie Ten Boom, sobrevivente do holocausto: “não existe abismo tão profundo que o amor de Deus não seja ainda mais profundo“.

– Há sempre esperança do perdão de Deus, o que nos leva à última qualidade: a reconciliação, porque uma vez perdoada, a pessoa vive novamente no amor de Deus.

Muitos protestantes acham a idéia de se confessar um erro. Segundo eles, citando com razão a Bíblia, o batismo nos faz entrar em comunhão eterna com Deus, além de santos. Embora isso seja correto, é preciso entender que isso não nos impede a voltar a pecar. Se nossa união com Deus é impossível de ser cortada totalmente em vida, após o batismo, nós podemos colocar sérios obstáculos que atrasam nosso caminhar. Além de tornar esse caminhar quase insuportável. Não é surpresa que muitos, então, fiquem pelo caminho após encontrar esses obstáculos. Para isso existe a confissão. O catecismo cita duas passagens que não deixam dúvidas. São João nos diz em sua primeira epístola que “se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8). Ora, por que ele precisaria nos alertar para isso se nossos pecados, depois do batismo, não fossem um problema? Fica claro que o contrário é verdade! Dizer que não temos pecados, ou que isso não é um problema, isso sim é um pecado! E grave! Um pouco adiante, em ‘1Jo 1,10′, o evangelista nos diz que achar que o pecado não tem efeito sobre nós é chamar Deus de mentiroso! Não imagino nenhum cristão querendo fazer isso. Outro ponto citado no Catecismo é: por que Deus na Segunda Pessoa da Trindade, Jesus Cristo, teria nos ensinado a rezar a Deus dizendo também “perdoai os nossos pecados“? Só faz sentido se eles têm um efeito devastador sobre nós. E se eles têm esse efeito, como dizer que não é preciso alguma ação nossa?

Outro obstáculo para alguns é a confissão para um padre. A pessoa aceitou tudo dito anteriormente, mas agora o problema é: por que não reconhecer seus pecados, rezar, e tudo está bem com a certeza da misericórdia divina? Porque Deus deixa bem claro que é preciso se reconciliar com Ele (a cabeça), e a Igreja (Seu corpo na Terra). A reconciliação é também um sinal visível, como Jesus buscando os pecadores para passar a se reunir com Ele, e com Ele fazer as refeições, num sinal de reconciliação com a comunidade de Deus, sua Igreja. Observemos dois fatos. Cristo dá aos apóstolos, seus sacerdotes, o poder de perdoar os pecados. E Cristo dá a seus apóstolos o poder de criar (ordenar) novos sacerdotes, como vemos São Paulo ordenando Timóteo, e depois conversando com ele sobre quem Timóteo deveria ordenar. O que significa isso, poder de perdoar? Santo Agostinho nos explica de maneira simples. Respondendo aos hereges Donatistas, Santo Agostinho cunhou a famosa frase: “Quando João batiza, é Cristo que batiza; quando Pedro batiza, é Cristo que batiza; e (até mesmo!) quando Judas batiza, é Cristo que batiza“. Isso quer dizer, primeiro, que não é a um padre que você se confessa, mas a Cristo. E também que mesmo padres sendo pecadores como nós, mesmo Judas tendo sido o traidor, todo ato sacramental realizado através dele é válido e perfeito. Porque não é Judas, ou o padre da sua paróquia que os realiza, mas Cristo através de alguém validamente ordenado e em comunhão com a Igreja, ou seja, com Cristo.

O livro do Eclesiastes nos brindou com uma frase que até hoje corre nas bocas de quem não faz idéia de que ela vem de um livro da Bíblia. “Não há nada de novo debaixo do sol” (Ec 1,9). Muitas vezes alguém saca uma pergunta para que eu responda, com aquele orgulho de quem está fazendo não só uma consideração irrefutável, que irá arrasar minha fé, como  consideração essa que, para ele, ninguém jamais pensou. Parafraseando o Eclesiastes, livro ainda do Antigo Testamento, dificilmente será realmente uma novidade. Algumas delas eu já comentei aqui. Mas há ainda outra, sobre quem precisa, ou deve procurar a confissão. Há várias maneiras de se responder isso. Mas é sempre bom lembrar que gente melhor que eu já respondeu. Enfrentando outra heresia, o Pelagianismo, o mesmo Santo Agostinho nos brindou com outra pérola. O Pelagianismo dizia que a Graça trazida pelos sacramentos era algo apenas para os fracos, e que “o bom cristão” deveria ser capaz de viver sem eles, usando suas forças e vontade para se manter em comunhão com Deus. Santo Agostinho iluminou as coisas para o presunçoso Pelágio sobre o peso do pecado e o amor de Deus, lembrando-o do Evangelho segundo São João “porque sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Eu acredito piamente nas Palavras de Cristo e na explicação dada por Santo Agostinho. Não por cegueira, mas por experiência. Não foi uma necessidade por uma crença ou mesmo bons argumentos que me fizeram acreditar em Deus e na Sua Igreja, mas a experiência, a vida, e algo que não se explica. Nós somos incompletos e quebrados. Não posso acreditar na crença iluminista de que nós somos perfeitos e podemos nos virar sozinhos (lembra do livro do Eclesiastes e de Pelágio?). Eu preciso de Deus. Eu tenho pecados. Muitos e sérios. Eles me incomodam e atrasam a minha vida. Eu machuco as pessoas com eles, e me machuco com eles e com suas consequências. Ora, eu sou uma pessoa feliz. Nada disso me tornou soturno ou chato (há controvérsias aqui, eu sei). Mas a forma de não me sentir mal com meus pecados não é fingir que eles não existem. Não é agindo como um irresponsável, me forçando a acreditar que o pecado não existe, ou que é uma mentira inventada por alguns homens para oprimir liberais bonzinhos, que eu vou ficar bem. No fundo, a única maneira é eliminando o pecado. Eu não vejo nenhuma possibilidade de conseguir tal proeza sozinho. Também sei que o caminho não é dizer que a Igreja me faz carregar culpa. Não! Não foi a Igreja que me encheu de culpa. Eu fui atrás dela porque eu me enchi de erros, e só a Igreja tinha a resposta. A resposta é Jesus Cristo. A resposta é a Graça de Deus através de Sua Igreja.

Eu sei, e admito, que não sou capaz de vencer o pecado. Fiz e passei o suficiente na vida para acreditar. E sei que só Deus é capaz disso. Isso implica em eu ter que, ocasionalmente, limpar minha alma do peso que eu criei, para tentar caminhar melhor de novo. Isso é feito pela confissão. É reestabelecer e melhorar sua comunhão com Deus. É admitir sua fraqueza, seus erros, e sair muito melhor com a limpeza feita. Reconciliado com Deus. Eu saio me sentindo muito melhor depois da confissão. Recomendo a você que experimente e torne isso um hábito. Como dizem por aí, a satisfação é garantida! Mas não é um convite a um teste cego. É entender tudo o que foi falado aqui, e aonde mais você puder estudar, e buscar em você se você concorda com isso. Se você sentir da mesma forma que eu, você deve seguir e buscar as mesmas respostas. Eu acredito que isso vai fazer de nós irmãos de fé.

Em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

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