Jó, ateísmo e sofrimento.

By | 28 de Fevereiro de 2015

O mundo está cheio de dor e sofrimento. Isso é um fato, mesmo que não seja só disso que ele esteja cheio. Ninguém gosta de dor, mesmo das pequenas. O que diria viver com dor e sofrimento, sejam eles físicos, mentais ou da alma? Quanto mais todos juntos! Você entende sua dor se você, como eu já fiz tantas vezes, tenta fazer algo que não é capaz, ou algo estúpido que só poderia resultar em você machucado. Tanto física como mentalmente. Às vezes tentamos mais do que nosso corpo aguenta. Em outras, falamos ou fazemos coisas que machucam os outros, e que terminam por nos machucar profundamente. Mas e o tipo de dor que não teve nenhuma ação sua envolvida, quer dizer, está fora do que você entende por sua responsabilidade? Essa é a dor de uma doença como o câncer; uma deformidade de nascença; ou ainda perder tudo, cair na pobreza, ser humilhado, injustiçado etc. São coisas que, quando fora do seu controle, geram naturalmente mágoa, dor, sofrimento, raiva, angústia. Todos esses sentimentos são bastante razoáveis de se imaginar que podem acontecer, e até justificáveis.

Talvez você tenha ouvido a vida inteira, como slogans, que “Deus é amor”. Ou que Ele olha por todos. Talvez você ouça isso nesses momentos ruins. Em geral, se você não é uma pessoa de fé, ou mesmo tem uma fé superficial, que não estudou e a aprofundou com conhecimento, você pode ser derrubado exatamente por essas “palavras de incentivo”. Você pode se indignar e, se tinha alguma fé, pode perdê-la. Se não tinha fé, pode ficar ainda mais amargo com quem tem ou lhe desejou algo bom do coração.

O que foi chamado de “o problema do mal” é, sem dúvida nenhuma, o grande obstáculo para a fé. Muito mais do que o cientificismo camuflado de racionalismo. O problema do mal é algo que todos nós temos que encarar. Mais dia, menos dia, e todos nós passamos por ele. Infelizmente, isso parece novidade para alguns. Existem centenas de vídeos pela internet com pessoas, às vezes famosas, dizendo que não acreditam em Deus porque existem crianças com fome; doentes; existe morte e injustiça. Algumas até em tom de desafio: “eu diria na cara de Deus que ele é isso ou aquilo, e que é um absurdo essas coisas acontecerem”. Tudo isso para aplausos e alegria de quem, aparentemente, fica mais feliz se tudo isso acontecer e Deus não existir. Quer dizer, essas coisas acontecem e pronto. Pelo que parece, Deus existir seria cuspir sobre o que já é ruim o bastante, e não uma esperança de, senão algo melhor, uma explicação, algo que faça tudo fazer sentido. Esse é o problema com o ateísmo de hoje. Ele começa em temas válidos, mas junta-se a isso uma profunda ignorância, além de um sentimento de superioridade bobo e certo ódio não bem explicado.

O problema do mal (e suas propostas soluções, ou, Teodiceia, como chamou Leibniz) só é novidade para quem ignora 2000 anos de teologia cristã, a mesma que é ao mesmo tempo ignorada mas atacada por alguns ateístas. Ou até mesmo a Bíblia, que é o alvo preferido de muitos. Embora Santo Agostinho tenha sido o primeiro a colocar isso em termos teológicos mais bem definidos, já nas páginas da Bíblia você encontra questionamentos sobre isso. São Paulo, por exemplo. Mesmo antes de Cristo já se falava nisso.

O que isso importa? Importa para se verificar algumas coisas. Em primeiro lugar, a ignorância se tornou a ordem do dia. Você pode falar o que quiser sem estudar e ser aplaudido como um inovador. Ignorância não é novidade, você me diz. Mas é bastante óbvio que, hoje em dia, ignorância é não só estimulada como é motivo de orgulho. Falar com a superioridade de quem descobriu a pólvora é, sem dúvida, uma característica da cultura de hoje. Ninguém se preocupa em pesquisar o mínimo sobre o que vai falar. O que a pessoa acha, principalmente se for contra religião, é verdade e inovação absoluta. Pulemos isso para falar de quem realmente entendia e era intelectualmente honesto.

Santo Tomás de Aquino foi uma figura curiosa. Não só pelo seu gênio. Mas pela sua honestidade intelectual. Santo Tomás escreveu sua obra-prima, a Summa Theologiae, na forma de objeções que ele deveria responder. Não só ele escrevia todas as grandes objeções, como ele criava algumas mais fortes do que as dos críticos do cristianismo. Em outros casos, ele mesmo refutava argumentos de grandes pensadores católicos, como ele fez com o famoso “Argumento Ontológico de Santo Ancelmo”. É um belo argumento, mas que Santo Tomás achava que não era forte o suficiente para defender a existência de Deus, então, por pura honestidade intelectual, ele não só deixa isso claro, como explica seu ponto.

Pois bem, um dos seus argumentos sobre o problema do mal, aqui descrito de forma ridiculamente resumida, trata do infinito. “Se algo é infinito, seu contrário não pode existir (exemplo: se a claridade fosse infinita, o escuro não poderia existir). Se Deus é infinita bondade, como o mal pode existir? O mal existe, logo, Deus não é bom.” É um belo argumento contra a bondade divina, quer dizer, contra Deus! E feito por um frade. Para refutar o argumento, como ele faz em seguida, teríamos que entender o que os termos significam etc. Esse não é o objetivo deste artigo. O objetivo aqui é mostrar que isso já foi tratado. Nunca foi deixado de lado, ignorado, ou escondido. Pelo contrário! Foi trazido à tona, em sua força máxima, pelos próprios cristãos! A fé verdadeira é uma fé consciente, estudada. O cristão é o maior interessado nos argumentos mais fortes contra sua fé.

O “Livro de jó” é um dos livros mais interessantes da Bíblia, mesmo para quem não acredita em Deus. É do Antigo Testamento, e trata especificamente do problema do mal. No caso, em sua forma mais elevada. O livro é parte de um dos estilos presentes na Bíblia, a literatura sapiencial, ou seja, é uma história contada por homens inspirados por Deus, com o objetivo de passar uma mensagem.

Na história em questão, Jó é um homem bom, o que é chamado de “homem justo” na tradição judáico-cristã. Deus cuida dele e dos justos. Deus é desafiado por Satanás a provar que, mesmo (Satanás) tirando tudo de Jó, ele jamais falaria mal de Deus.

Jó perde tudo! Família, casa, e saúde. Apesar de não trair o Senhor, Jó tem sua fé bombardeada. Ele não acredita mais em reparação (naquela época, muitos acreditavam no “aqui se faz, aqui se paga”, e que o justo estaria sempre bem). Jó questiona diretamente Deus sobre o que aconteceu com ele. Ou seja, é uma relação íntima. Ele não trai o Senhor, mas precisa de respostas.

Após muitos questionamentos, o Senhor aparece para Jó, e tem com ele o que é o seu maior diálogo com uma pessoa. Deus pergunta a Jó coisas como: “onde estavas quando lancei os fundamentos da Terra?”( Jo 38,4). Deus não está forçando sua autoridade sobre Jó, como é constantemente (mal)entendido. Ele quer mostrar que Jó não sabe o que está acontecendo; não sabe o que Deus tem preparado para ele; não sabe, e não poderia compreender, uma justiça maior do que a que ele entende naquele momento, e acha que seria a perfeita.

Um grande teólogo (Bispo Robert Barron, se não me engano) descreveu mais ou menos assim: “imagine que você encontra uma página do livro ‘O Senhor dos Anéis’. Digamos que seja a página em que Frodo sofre suas piores provações no terror de Mordor, a terra do senhor da escuridão. Você talvez pensasse que algum lunático, sádico, escreveu aquele livro. Mas se você pudesse entender que aquilo é apenas uma página em um livro de mais de mil páginas, e que aquilo faz parte de uma história cristã de redenção e vitória do amor sobre a escuridão, talvez você compreendesse o porquê daquela página que você encontrou, mesmo que você não tivesse lido (ou compreendido) o livro”.

A história de Jó é um prenúncio do NT, da Nova Aliança, de Jesus Cristo. É um prenúncio de que a nossa dor talvez tenha uma razão de ser. A existência da dor e do mal em nossas vidas é um problema que nós hoje não podemos compreender plenamente. Mas podemos ter a certeza de que Deus é infinito amor. Se Deus é infinito amor, não significa que nós não podemos sofrer. Significa que Deus, em algum momento, torna certo e bom.

É possível ter fé. É possível ser um pouco como Jó, e não perder a fé, mesmo que nós precisemos de alguma explicação. É possível saber que nossas provações não podem ser resolvidas por nós mesmos. Isso me parece bem óbvio. Eu nunca me dei nenhuma boa razão para acreditar que eu mesmo conseguiria entender tudo, ser feliz por mim mesmo, ou fazer tudo ficar certo no final. Mas é possível ter fé! A confiança de que no final, se nós buscarmos a Deus, tudo vai ser explicado. Tudo vai fazer sentido. Da mesma forma que os cientistas acreditam que tudo o que é material pode ser explicado, tudo o que está além de nossa vida material, aquilo que dá sentido para o que é material, poderá ser explicado.

Não, o justo nem sempre recebe o que ele merece aqui na terra. Parece intolerável. Acreditar em Deus torna isso pior ou melhor? Você deve escolher como quer viver sua vida. Eu acredito ter elementos suficientes para que minha fé não seja apenas desespero disfarçado de esperança; não seja cega como dizem que toda fé o é. Minha fé não é cega ou ignorante como a da maioria dos ateístas que me acusam do que eles fazem. Eu estudo e vivo minha fé antes de afirmar qualquer coisa. Se eu não entendo o amor de Deus plenamente, não posso dizer que o que eu entendo é o bastante para julgá-lo. Mais importante do que tudo isso: eu conheço um Deus que voltou do túmulo para nos contar que o que eu entendo é, talvez, apenas como quem leu a pior página da história. Só que não é toda a história!

Em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista!

4 thoughts on “Jó, ateísmo e sofrimento.

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