Quaresma: tempo de reflexão, sacrifício e bençãos.

By | 19 de Fevereiro de 2015

Estamos ainda no começo da Quaresma. Em latim, “quadragesima”. É simples entender conhecendo o nome em latim. A Quaresma é o período que precede à Páscoa. Entre a Quarta-Feira de Cinzas e a Páscoa. É o momento para lembrar os 40 dias em que Cristo vagou pelo deserto, sofrendo as agruras do clima, da sede, do jejum e as tentações demoníacas. Tudo em preparação para o início do Seu ministério entre nós. Exatamente por isso é o momento em que a Tradição nos aconselha a fazer pequenos sacrifícios; algum jejum se possível; mais caridade; reflexão e oração. Por sacrifício se deve entender algo simples, que mude algo do seu dia-a-dia, e te incomode apenas o suficiente para que, com isso, você pare e pense sobre Cristo; o que significa esse período, e o que você pode tirar disso para a sua vida. Algo como tomar banho frio de manhã, ou comer apenas uma fruta no café e sentir alguma fome até o almoço etc.

É a hora de intensificar sua leitura e estudos. Perceber as graças de Deus em um entendimento melhor de sua palavra e modo de vida de Sua Igreja. Mas, principalmente, é hora de intensificar sua oração e meditação. Criar um tempo a mais no nosso complicado horário; sacrificar alguma coisa do seu tempo livre e colher as bençãos de uma prática orante ainda melhor ao final desse período.

Eu sou, admito logo, um fraco. Não me dou bem com mudanças, mesmo a menor quebra do meu ritmo diário, como dormir menos, ou não fazer as coisas nos mesmos horários. Eu prezo bastante prazeres mundanos como beber minha cervejinha com os amigos para relaxar. Sigo Chesterton à risca nisso: “No Catolicismo, o copo, o cachimbo e a cruz podem conviver juntos”. Quer dizer, a Quaresma, pra mim, não é um período fácil. Um grande professor e autor disse certa vez que sua esposa lhe chamou a atenção, dizendo: “você pode largar o que quiser na Quaresma, desde que também largue de reclamar tanto”. Quer dizer, nós podemos ficar de mau humor facilmente fazendo os menores sacrifícios. Quisera eu ser como alguns “católicos da internet” (radtrads), que parecem ser mais católicos que o Papa. Todos parecem ter dias de 48 horas; começam seus dias com a santa missa (e em latim!); uma prática de oração impressionantes; leitura então, nem se fala; e passam por esse tipo de sacrifício como se fosse nada, e exigem muito mais de quem, azarado como eu, acabou um dia lendo o que eles escrevem. Bem, eu não sou assim. Quase toda prática salutar, mesmo as que eu gosto e me fazem bem, são difíceis para mim. Pelo menos como um hábito.

Pois bem, é aí que a beleza da Quaresma realmente acontece. Sou falho, preguiçoso e lento. Ter uma data especial para me lembrar e me ajudar a desenvolver um hábito é algo que eu só posso dar graças a Deus pela benção! Me lembra o que os protestantes criticam sobre nossa suposta idolatria a imagens. Bem, eu não idolatro minha pequena imagem de Maria, mas digo que ela me ajuda demais a focar no que eu estou querendo rezar ou meditar. Se você consegue fazer tudo sem um mapa, ótimo, só que eu preciso de muita ajuda. Um ponto para focar me ajuda demais. Eu tenho absoluta certeza de que a minha imagem é apenas um pedaço de material mundano, sem nada de especial. Mas o que ela me ajuda é uma barbaridade.

Publicamente, eu digo que só volto a beber minha cerveja (ou qualquer coisa, para não dizer que apenas prometi a cerveja, mas vinho ou outra coisa estou liberado) depois da Páscoa. Ao contrário de quem reza seu terço todo dia, infalivelmente, eu não sou assim. Tenho até épocas boas, mas apenas isso. Nunca consegui manter a prática perfeitamente. Pois bem, a Quaresma vai me ajudar nisso. Vou rezar meu terço todos os dias, e me sentir como os “guerreiros do teclado” que, aparentemente, fazem isso diversas vezes, e isso só antes do almoço. Bem, na verdade, não quero saber deles. Vou rezar e me sentir como agora, feliz e aprendendo mais sobre coisas que parecem banais na leitura sem um método diário.

Protestantes criticam muitas coisas da Igreja e suas práticas. Além das já citadas imagens, práticas de oração como o Santo Rosário (e sua versão menor, o Terço) são tratadas como “vã repetição”, ou também como idolatria Mariana. Nada poderia ser mais distante da verdade. Em primeiro lugar, como eu já disse antes, gente como eu precisa de um “mapa” para tudo. O Terço é a forma de eu me guiar enquanto rezo e medito sobre o assunto. E o assunto, no caso, é Jesus Cristo. Em cada dezena de Ave-Marias, é lembrado um episódio da vida e pregação de Cristo. Algumas vezes pela visão de Maria, mas sem mudar em nada o que é contado nos evangelhos. Ou seja, como sempre, o que alguns chamam de idolatria, é um mapa para se chegar a Cristo.

Veja os mistérios luminosos, que são o foco das orações do Terço nas quintas-feiras. Vão do batismo de Cristo à instituição da Eucaristia. E você pode usar passagens bíblicas recomendadas para acompanhar durante a oração. Por exemplo, na terceira dezena, o mistério é “o anúncio do Reino de Deus e convite à conversão”, e a leitura recomendada é “Mc 1,15“; além de complementar com “Lc 7,47-48“; “Jo 20,22-23“. É uma caminhada por passagens que te mostram o motivo de você estar rezando e, se a boa prática assim permitir, meditar sobre essas passagens, seu significado, e as bençãos recebidas com o melhor entendimento. Não há repetição inútil, muito menos idolatria Mariana se esquecendo de Cristo.

Enfim, a Quaresma é a oportunidade perfeita para nossa melhora pessoal e espiritual. É a oportunidade para se alcançar um entendimento melhor e mais pessoal de Cristo, Sua Igreja, e as bençãos que isso traz para nossas vidas. Tente também, e mesmo que não se consiga sempre, se você puder criar algum bom hábito, ou tirar algo de bom desse momento que parece difícil, você terá mais fé de que nossa separação de Deus pode ser encerrada com a ajuda de Cristo. O amor eterno se tornará mais que uma promessa, será uma certeza. A mesma certeza de que, se você disser agora “Vem, Senhor Jesus!”, ele virá. E ele já vem. Em 40 dias.

em Cristo, sob a proteção da Virgem Maria,

um Papista.

3 thoughts on “Quaresma: tempo de reflexão, sacrifício e bençãos.

  1. Giancarlo

    Caríssimo Papista, obrigado pelo artigo. Os recém-chegados como eu agradecem.
    Vi aos 49 do segundo tempo e consegui me planejar.

    Obrigado.
    Deus abençoe.

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    1. Papista Post author

      Giancarlo, que alegria! Fico feliz. Que você tenha uma Quaresma de grande alegria e esperança.

      Espero que meus parcos esforços ajudem a você e os seus.

      Eu que agradeço. Amém. Deus te abençoe e aos seus.

      Abraços!

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  2. Marcelo Massao

    Sobre a Quaresma, arrisco a dizer que muitas pessoas fazem questão de lembrar que estamos vivendo este tempo, ou seja, fazem aquilo que é condenável pelo próprio Jesus: tocam a trombeta enquanto jejuam, oram e oferecem esmola. Exatamente para não sair do “clima” da Quaresma, paro por aqui sobre a questão.
    Especificamente sobre a velha acusação de adorarmos imagens, recorramos às fontes, aos Padres da Igreja:
    “Assim como é uma a autoridade que nos governa e único o poder, também a glória que lhes prestamos é uma só, não múltipla, porque a veneração da imagem se transfere ao protótipo. O mesmo que o Filho é por natureza, é aqui a imagem por imitação”. (Basílio de Cesaréia – Tratado sobre o Espírito Santo 18,45).
    Parabéns pela sinceridade a respeito da Quaresma.
    Fique com Deus.

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